Minha dramaticidade era sempre muito complexa e intensa e nada mais no mundo parecia comportar tamanha corrente de ideias maravilhosas que não meu corpo e um palco bem iluminado, e jurava que isso era o que me cabia além de relacionamentos frívolos com outras estrelas sem alma como eu. E então, em uma loja de discos, como nos filmes dos anos 80, ela entrou em meu caminho e nunca mais saiu. E embora eu tenha cometido erros, como usá-la para vencer nas Regionais antes de partir para a UCLA, e estourado ovos em sua cabeça, falava a verdade sobre realmente tê-la amado. Em todas as oportunidades que a nossa vida se cruzaram, fosse como consultor do New Directions ou coach do Vocal Adrenaline, tentei me aproximar novamente dela, admitindo meus erros e torcendo para que ela me escolhesse ao invés de Finn Hudson. Sabia que ele era meu oponente forte, uma vez que foi seu primeiro amor, e que possivelmente apenas por ele Rachel me diria não. Porém a vida tem modos trágicos de ser escrita em alguns capítulos e esse impasse acabou se resolvendo de uma forma muito dolorosa. Passou-se muito tempo até que novamente nos vissemos, e então estava em Ohio, naquele auditório da escola que serviu como pano de fundo de nossa relação. Mesmo com sua recusa em participar da peça que eu estava como protagonista, sabia que precisava arriscar. Eu estaria em New York, ela estaria em New York. E pela primeira vez em anos, ela me disse sim novamente.
Obviamente que nem tudo foi flores, ainda estava lutando para conseguir meu lugar ao sol e a Broadway me passava grandes rasteiras como negar papéis que eram claramente meus por desentendimentos com o resto do elenco. Mas para alguma coisa esses empecilhos me serviram e então comecei a produzir meus próprios shows e ser o protagonista deles. Foi assim que consegui meu primeiro Tony, em um monólogo intenso em que narrava as desventuras que me levaram de uma pessoa insensível a alguém que realmente se importava. Agora estava em uma nova empreitada, escrevendo sobre Jane Austen e a colocando em um pedestal, porque se Lin-Manuel Miranda conseguiu vencer o Tony com sua produção sobre Alexander Hamilton, eu também poderia vencer falando de outra celebridade histórica. A escolha para o papel principal era bem óbvia, é claro; não tinha mais ninguém que conseguisse atuar com todas as emoções que eu precisava do que Rachel. Ela entendia meus direcionamentos e meu texto e enquanto estávamos ainda na época de montagem do musical, foi minha parceira criativa e não sabia o que seria de mim sem ela. De um modo geral, não tinha nenhuma área de minha vida onde Rachel não fosse minha parceira ideal.
Quando visitamos nossos pais em Ohio, deixei implícito para seu pai que iria pedi-la em casamento assim que tivesse uma condição de vida mais estável, o que pretendia assim que abrisse o musical no Broadway. Apesar de ter diversos pontos que ele gostaria que eu me atentasse, como as experiências traumáticas de minha namorada sobre noivados anteriormente, ele me disse que acreditava em minhas mudanças e que eu poderia amá-la e respeitá-la por todos os dias de minha vida. Com sua benção, retornamos a New York City, sendo que eu tinha muitas coisas para preparar.
Todo musical tem diversas versões antes de chegar na sua versão final. Na primeira apresentação, para os patrocinadores, ele tem a versão bruta, com um número x de músicas, que podem ser encurtadas, modificadas, alteradas de ordem ou até mesmo cortadas. A segunda versão, a que estreia, geralmente tem as suas modificações quanto às notas e ao compasso, podendo ficar mais rápidas ou mais lentas. Essa versão é a que se populariza e que faz o boca a boca acontecer, ganhando grandes proporções. E bootlegs. Tudo bem que ao encontrar um novo de Hamilton, eu assistia milhares de vezes quando colocava as mãos em uma versão a qual não pude ter o privilégio de assistir, mas isso se devia ao meu trauma de perder a escalação de King George para aquele garotinho sorridente demais. Porém o ponto era que àquela altura, as pessoas saberiam quais eram as músicas que compunham Jane Austen Sings e qualquer alteração nova seria amplamente comentado no meio musical. Ótimo. Era exatamente o que queria.
Conseguimos pagar nosso investimento em torno de cinco meses depois de abrirmos em off-Broadway, toda noite assinavamos playbills e tiravamos selfies com diversos teatro-fãs e sabia que as coisas estavam indo para o caminho certo. E eu sabia que não sentiria toda aquela felicidade e sentimento de dever cumprido se não tivesse Rachel o tempo todo ao meu lado. Em dois anos de off-Broadway, sempre que conseguiamos conquistar mais uma meta, levava minha namorada para jantar em um lugar caro, celebrando o que tínhamos alcançado, e sempre fazia questão de lhe dizer o quanto que ela era importante para mim, para meu amadurecimento, para a minha vida. Todo dia era uma chance de confessar meu amor a ela, porque Rachel merecia todo o amor e devoção.
E entre devoções, o grande ato se aproximava. Sabia que tinha que ir fundo para conseguir o meu objetivo, por isso comecei a estudar Sondheim com afinco. Apenas o criador de West Side Story seria capaz de me guiar para o caminho que eu precisava. Escutei por meses suas composições, observando como ele construía seus versos e melodias, e como elas representavam as urgências de um amor tão puro e sincero. Divagava demais pensando em modos como poderia fazer minhas próprias composições e montar aquele ato que era mais importante até que ter meu nome sendo chamado no palco mais uma vez para me entregarem um prêmio. Recebemos o sinal verde para levar nossa produção para teatros maiores, finalmente chegando a Broadway. Éramos grandes! E para celebrar algo grande, eu tinha a maior das declarações a ser feita.
Passávamos o texto no teatro, todos os atores circulando o palco, ao contrário de todos os nossos outros ensaios que aconteciam no New 42nd Street Studios. A abertura estava chegando, teríamos o ritual da manta no dia seguinte, mas pedi como uma superstição e exigência que aquele último ensaio fosse feito ali. Não entenderam a urgência do meu pedido, é claro, então tive que colocar em pratos limpos o que queria fazer e então me deram o passe. Aparentemente, artistas são sensíveis em algum nível em sua totalidade. E então chegamos a uma cena nova, um devaneio sobre Mr Darcy, onde o co-protagonista encarnava o personagem e falava sobre seus sentimentos sobre Elizabeth. Ninguém entendeu bem porque não ensaiamos antes essa parte durante as seis semanas anteriores, mas eu batia o pé que tinha que acontecer ali, o primeiro e único momento.
Respirei fundo, subindo no palco, o roteiro em minhas mãos.
— Então, Jonathan, eu sei que você está ansioso por essa parte, mas acredite em mim, eu estou mais ainda. E por isso, se me permite, eu vou demonstrar exatamente como essa cena irá funcionar, okay? — Me dirigi então a Rachel, esticando minha mão em sua direção e dobrando um dos meus joelhos para que a cortejasse no ato. Assim que seus delicados dedos tocaram os meus, a guiei para o centro daquela roda, com gentileza, balançando a minha cabeça em sua direção. — Primeiro você irá olhá-la nos olhos, com todo o amor e carinho do mundo. Porque ela é digna de todo afeto possível. Afinal, ela é uma mulher incrível, vencedora de seus medos e traumas, forte, independente e que soube fazer de seus erros ensinamentos para si e para os outros. Ela é a mulher que você ama e admira e nada no mundo pode desfazer o impacto que ela tem em sua vida. — Abri um sorriso para Rachel, entrelaçando nossos dedos, enquanto as luzes eram ligeiramente modificadas, deixando apenas um halo sobre nós dois de maneira natural e progressiva. — Depois disso, você irá abrir um sorriso para ela, e ela vai sorrir de volta, lhe abençoando com a imagem mais linda no mundo inteiro e você pode até mesmo pensar “Uau, eu estou completamente enfeitiçado por esse sorriso, e como ele consegue ser assim tão brilhante?”. E mesmo que fique completamente embasbacado, você vai dizer… — E então me abaixei, um joelho no chão e outro dobrado em exatos noventa graus, a coluna ereta e a cabeça levemente posta para trás, fitando os olhos da mulher que sempre amei. — Você é a razão pela qual meus pensamentos tortos se transformaram em uma noção mais clara. Todos os meus julgamentos e preceitos foram alterados a partir do momento em que tive a honra de ouvir suas palavras e elas me trouxeram luz, inteligência, compreensão, além de despertar em mim sentimentos que por muito tempo imaginei que não seria capaz de permitir que tomassem conta de minha racionalidade. Amor é uma palavra muito utilizada e muito subestimada, mas compreendo o fascínio por ela uma vez que depois de você, experimentei a sua verdadeira forma. — Fiz uma pausa, pressionando gentilmente seus dedos nos meus, sorrindo abertamente e sentindo cada batida de meu coração contra as minhas costelas, reverberando por cada célula de meu corpo emocionado. Abandonei o roteiro que ainda segurava em uma de minhas mãos, buscando em meu bolso pela caixinha azul Tiffany’s que continha o anel de noivado vistoso e delicado, exatamente como eu via a mulher que tomou meu coração no primeiro olá. — Eu amo você, Rachel, e sempre irei amar. E se o teatro é nossa igreja, o palco é o nosso altar, este é o local certo para esta pergunta. E neste altar, eu te pergunto, com todos os meus verdadeiros e profundos sentimentos expostos: Você quer casar comigo?












