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Chilling Adventures: Libby/Autumn Day
Só Deus sabe o quanto eu já tô arrependida de dar palco pra isso aqui.
A vida toda tive certeza que, um dia, seria cobrado de mim todas as vezes em que eu tinha sido inconveniente a meu próprio modo. Como quando eu bancava a sabe tudo na escola e sempre lembrava meus professores dos deveres de casa na sala de aula, como quando eu não gostava de emprestar meus brinquedos mais legais pras outras crianças se elas não brincassem do meu jeito, e as vezes em que eu criticava o pessoal da minha turma na faculdade sempre que eles faziam trabalhos sem fundamento e conceito.
Eu já estava aguardando, plena e de salto alto, o dia que ia ser humilhada de alguma forma depois de ser um pé no saco, mas eu jamais, em todos aqueles anos, achei que aquela parte da minha vida ia ser a primeira passada no débito sem direito a parcelamento.
Todas as vezes que julguei meus amigos por beber demais, e todas as vezes que achei ruim eles saindo por aí compartilhando fluidos e ainda contando essas vantagens como se fosse motivo de orgulho.
Eu não sabia como tinha terminado entre Robb e Akemi, cada um segurando um braço meu e me impedindo de cair de cara no chão, mas tinha começado com todo mundo meio bravo porque tínhamos virado um grupo de "a gente marca um dia desses" depois da formatura, e todos se sentiram na obrigação de sair, agora que escola, estágio e ansiedade não eram mais preocupações.
Eu sempre era a mais responsável do role, eu sempre era a que bebia menos afim de deixar todo mundo seguro, e eu sempre era a pessoa carregando os outros pela rua como em um morto (bêbado?) muito louco.
Nessa fase, eu tinha me tornado não só inimiga do fim, mas também uma puta de uma língua solta, que mais tarde ia viver se perguntando de onde minha filha tirou aquilo no DNA.
- Eu não sabia que vocês moravam juntos agora. - Dizia para Akemi e Robb, sem nem saber se eu estava mesmo na casa de algum deles, rodando em volta de mim mesma sem medo de morrer na minha própria poça de vômito. - Já tava na hora, nossa rodinha inteira acha que vocês deviam morar logo juntos... E fazer coisas que casais fazem com um rótulo, porque vocês já fazem tudo sem um mesmo.
E só Deus sabe como eles não me agrediram naquele processo de me hidratar e trocar e me deixar sóbria, e o único motivo pra eu não estar com meu namorado agora em casa, era porque ele tinha que apoiar o resto de nós, assim, no hospital, depois de um quase coma alcoólico.
- Vocês deviam morar juntos. - Volto no tópico, mais pra lá do que pra cá, balançando uma bala fini no ar, sorrindo pro nada. - Digo com segurança, só vantagens... Eu nunca dei tanto na minha vida e eu sinceramente, não sei como Edward ainda não expulsou a minha alma do meu corpo, mas é maravilhoso quando ele tenta... E maravilhoso com todo o resto.
Fiz uma pausa e meu subconsciente deu graças a Deus, porque aí eu ia dormir e parar de me envergonhar e... Só contos. Foram só contos.
- Eu posso gritar e pedir por mais o quanto eu quero sem me preocupar em traumatizar vizinhos ou família ou os pets de alguém e puta merda... A gente é muito alto, mesmo.
E eu juro que minha intenção nunca foi fazer a menina hetero top com todos aqueles elogios, mas explicar minhas vivências e como eu amava:
- A minha vida de cadelinha pra um grande gostoso.
A vida adulta pós faculdade só tinha me reservado vergonha e decepção pra Libby certinha que um dia eu tinha sido, mas não fazia mal. Ainda tinha muito karma pra pagar.
Problematic Faves: Libby/Autumn Day
Eu quero começar isso aqui pedindo desculpas, pra mim mesma, pra cidade do inverno, pra Priscila e principalmente pro Edward. Eu só tenho a culpar a AppleTv e aquela MALDITA inspiração de fic que eu vi por aí e achei conceito na época. Se arrependimento matasse, entendam que eu já teria feito algo.
Aviso: o cenário pode conter scenarios sexuais explícitos, e a presença implícita de choke kink, body worship e spanking kink. Deus é o ÚNICO que pode me julgar.
Vocês são tão fofos!
Eu, claramente, seria a última pessoa discordando dos elogios e observações das pessoas naquela noite, sorrindo tanto quanto eu podia, porque sempre que olhava pra pessoa ao meu lado com o braço em volta da minha cintura, eu sabia que só podíamos mesmo ser os mais fofos.
Edward Sterling era meu príncipe encantado, e não era só porque ele tinha se oferecido pra me prestigiar na primeira mostra do meu TCC em formato de filme e vestido até um terno pra isso, e sim todos os outros motivos certos.
— Ninguém devia ficar tão bonito dentro de um terno. — Comento para o meu namorado, como se falasse sobre o tempo. — Ninguém devia ficar tão bem com e sem roupa nem uma.
Mas era mesmo só uma questão de tempo até eu provar e afirmar mais uma vez minhas próprias palavras, quando nos separamos por um segundo no meio da recepção e meu olhar recaiu sobre seu corpo mais uma vez, e senti minhas pernas se apertando juntas involuntariamente e me obriguei a secar minha taça de champagne pra não soltar um gemido no meio de todas aquelas pessoas.
Vocês são tão, tão fofos!
Eu gostaria de saber se as pessoas ainda iam dizer isso se soubessem a quantidade de vezes em que pedi pra ele bater com mais força na minha bunda, em uma bagunça de lágrimas e prazer absoluto que eu tinha descoberto ser uma coisa minha.
Eu queria saber se elas faziam a menor ideia, a cada por favor, por favor, por favooor sussurrado enquanto eu pedia pra ele não parar.
Parece um conto de fadas, de fato.
E eu tinha que concordar, observando, peça por peça sendo largada no chão do meu quarto, meu namorado provar meu comentário de que ninguém além dele podia parecer tão bom com ou sem nem uma roupa, com uma exceção única e exclusivamente dele.
Eu podia ficar horas tocando cada centímetro da pele dele, e beijando todos os lugares, e adorando tudo dele como uma devota fiel e total daquele homem, e ainda não ia ser o suficiente.
— Nada é demais pra um menino tão bom quanto você. — O deixo saber, passando minhas unhas por suas coxas e meus lábios onde ele mais precisava de mim. — E você merece tudo, não é mesmo?
Mas… Quais são as suas coisas favoritas um no outro?
Eu podia escrever uma enciclopédia inteira com todas as coisas que eu amava e admirava em Edward Sterling, e ainda assim, no topo da lista, ia estar todas as vezes que pegava sua mão e a colocava em volta do meu pescoço, e ele simplesmente entendia o recado, tirando o meu ar e a minha sanidade indo cada vez mais fundo e duro.
— Ele é o garoto perfeito. — Digo aos meus professores e instrutores presentes, sorrindo muito apaixonada e feliz na direção da pessoa ao meu lado, mantendo um aperto persistente em sua bunda o tempo todo. — O filho maravilhoso, o irmão solidário, o amigo fiel e um homem incrível. Como as pessoas esperam que eu não me apaixone por ele?
A (milésima) vez que a Libby perdeu a Aurora. A (milionésima) vez que a Libby teve uma crise de choro desimpedida.
Uma vez ouvi que talvez não importasse quanto anos eu tivesse ou onde estivesse ou como estivesse, era sempre de se esperar que, em algum momento, eu iria acabar chorando. Não sei dizer se tinha sido uma das coordenadoras do orfanato, minha mãe adotiva, meus amigos ou até eu mesma pra mim mesma, não importava; todo mundo sabia que era verdade. Todo mundo sabia que eu não aguentava um minuto e um momento sem me expressar, do jeito que sempre gostei, e era mais fácil.
— Não estou dizendo que não achei ela na loja, estou dizendo que não consigo encontrar ela em qualquer lugar! — Mais lágrimas, mais sofrimento, e Damon e seu ouvido no telefone que lutasse, pela milésima vez, só aquele mês. — Eu disse pra ela escolher os brinquedos que ela queria… Talvez eu tenha me empolgado com os brinquedos que eu queria que ela levasse, e agora não sei onde está a cestinha dela, e nem ela, e nem nada. Ela sumiu! Tudo sumiu! — A única coisa que não sumia era a voz eletrônica da Elsa cantando em repeat na boneca que eu jurei que era maravilhosa e ia levar para Angelina assim que ela viesse para Nova York outra vez, me fazendo ficar mais nervosa e atacada e sofrida e desesperada, sentada na escada da loja, bem encolhida, igual o meme da menininha sofrendo estirada no chão e com a maquiagem borrada. — Eu sou uma mãe horrível, eu sei que sim, e agora Aurora deve estar vagando pela cidade inteira procurando uma melhor e que não esqueça dela nos cantos! Eu vou chorar até desidratar! Eu vou morrer sufocada com as minhas próprias lágrimas e nunca mais vou me perdoar!
A saga da prole perdida também terminava em lágrimas, no caso de alívio e alegria quando meu bebê voltava pros meus braços e não achava nem um arranhão nela ou em sua coroa de plástico. Mas era normal e todo mundo já esperava: que eu fosse perder Aurora de novo e que choraria mesmo pelo resto da minha vida, é claro.
Autumn (Sterling) Bale, em entrevista, quando questionada porque, sempre que trabalha como atriz, chora a maior parte de suas cenas.
"As pessoas sempre dizem que todo mundo tem um dom pra alguma coisa. Desde coisas raras, até coisas legais ou normais. É como ter super poderes e ser o melhor em algo, mais do que todo mundo. O meu super poder é chorar e eu posso afirmar, agora com um Globo de Ouro e um Oscar, que ninguém pode fazer isso melhor do que eu. Eu chorei quando fui adotada no auge da idade que a maioria dos órfãos já não são mais, eu chorei quando fui pedida em namoro, e depois casamento, e quando Damon disse que se vestiria de Príncipe por mim, e quando dei a luz a minha filha, e então quando meu melhor amigo disse que eu seria a madrinha de sua terceira filha, fora todas as vezes que consegui um papel notável ou que meus roteiros hitaram e… Em todos esses momentos, era como se eu estivesse morrendo e definitivamente ia parar em um hospital com desidratação, mas eu só estava muito emocionada, e talvez eu faça isso de uma maneira muito dramática e preocupante. Eu só me expresso muito intensamente e não tenho controle disso, então me jogo em personagens que vão precisar chorar por quase três horas pra ganhar as pessoas no cinema, então, sou milionariamente paga e premiada por fazer algo que todos podem fazer, mas não tão bem quanto eu. Vermelha, parecendo estar sem fôlego e desesperada, com o rosto molhado e a cara de quem acabou de perder um membro do corpo, sou eu, todos os dias, assistindo Bambi. Quem é a Mellanie Martinez, perto de mim?"
Prompt: One day Libby, all day Autumn.
Deixei o envelope de baixo da porta dela, um breve bilhete com “obrigada pelas roupas da semana passada :)” embutido e eu só queria que ela não me devolvesse como tinha feito das outras vezes, pra todas as coisas que ela tinha feito por mim desde que eu tinha chegado na casa dela.
Eve era a mulher mais fantástica e incrível que alguém poderia pedir como uma tutora, mas não anulava o fato de que ela estava fazendo uma espécie de favor pro meu orfanato e pro governo me mantendo até a faculdade terminar. O meu dever era demonstrar o quão grata eu era por ela fazer aquelas coisas, mas não me aproximar o suficiente pra ela ter a conversa que eu sabia que ela queria ter, mas não conseguia decifrar o assunto. Então eu me matava trabalhando de babá ou animando festas nos finais de semana e fazia o máximo pra me sair bem nas aulas; retornar o dinheiro que ela investia em mim e provar que eu conseguia me virar sozinha e ela não precisava se preocupar. Mais dois anos e eu já não estaria mais lá, de qualquer forma.
Você… Dormiu em casa? - Ouvi a voz sonolenta dela soar na entrada da cozinha, larguei a falha tentativa de fazer uma massa decente de waffles pra me voltar pra ela com um sorriso, murmurando um silencioso bom dia, antes de encolher os ombros e fingir que eu não tinha dormido só três horas e que estava tão cansada quanto era possível.
Na verdade, sim, e, ah, espero que tenha achado o envelope, é pra compensar as compras da última semana, por mais que eu ache que aquelas roupas tenham custado muito mais. - Comentei num tom baixo, puxando a cadeira da mesa pra ela se sentar, o que ela acabou fazendo, sorrindo pra mim e dando um tapinha no lugar ao lado dela, que hesitei um pouco antes de me sentar. - São lindas… Acho que nunca tive algo tão bonito e… Novo. E serviram muito bem, eu acho que você é uma adivinha e tanto. - Tornei a agradecer, observando ela se servir de café e empurrar o envelope em cima da mesa, na minha direção, um segundo depois, apoiando as mãos em baixo da cabeça e me dando aquele olhar de “você não” de novo.
Foi um presente, na verdade, uma compra necessária. Você precisava de roupas novas, então eu fui lá e comprei e não pedi nada em troca e não te intimei a nada, porque eu quis fazer isso. Quero fazer coisas por você, mas não precisa me pagar por elas, Libby. - Ela tinha aquele tom duro e gentil ao mesmo tempo, como se me desse uma bronca mas ainda entendesse o meu lado da história, antes de sorrir e alcançar a minha mão em cima da mesa, como ela sempre fazia.
Eu sinto muito, é só que… Você não precisa. Sabe disso, não sabe? As roupas, a atenção… Buscar eu e os meus amigos numa festa maluca e levar todo mundo em casa… Se preocupar. - Comentei de volta um pouco rude demais, mas era o meu jeito de fazê-la parar ou pelo menos tentar. Parte de mim queria tanto que a Eve fosse tudo o que eu e ela queríamos que ela fosse, mas a outra sabia que, rejeitada uma vez, e isso aconteceria pelo resto da minha vida por eu ser só quem eu sou. Talvez eu só tivesse aceitado que aquilo não fazia parte do meu conto de fadas. - Eu agradeço muito, mas não… Só. Não. - Conclui por fim, separando a minha mão da dela e deixando o envelope em cima da mesa na minha saída rápida daquele cenário confuso e estranho; como eu fazia desde que tinha chegado na casa dela e me esquivar de suas tentativas de tomar um lugar que nunca pertenceu a ninguém era tão constante.
E ela continua fazendo a mesma coisa, todos os dias! Ela trás os meus doces favoritos, e então me chama pra assistir os meus filmes favoritos e se oferece pra pentear o meu cabelo e até a arrumar os meus roteiros e os ensaios da faculdade. Eu não sei mais o que fazer, juro que não, é só… GRRRRRRR. - Não tinha nada de ruim em alguém tentando bancar pra uma garota que, no auge de quase seus vinte anos, nunca tinha tido uma e ainda tinha tido o coração partido pela real, mas ainda assim… Era se como todas as minhas defesas e barreiras pra não deixar aquilo acontecer começassem a se enfraquecer com cada pequeno sorriso que a Eve me oferecia. Ainda soava como uma obrigação.
E, antes que qualquer um deles pudesse começar a falar ou me perguntar qualquer coisa, comecei a jogar os livros com alguma violência de volta nas prateleiras, como se estivesse descontando toda a minha raiva - ou frustração - neles. - Eu só queria que… Ela parasse e entendesse que, quanto mais ela se aproximar e mais ela fazer essas coisas e mais tentar ser a minha amiga, vai ser mais difícil me despedir dela e excluir a existência dela da minha vida quando eu não precisar mais estar sob os cuidados dela; quando eu não precisar mais ser a obrigação dela. - Talvez aquela última reunião de estudos estivesse se tornando um pouco dramática demais, mas eu não conseguia me controlar e não era a primeira vez que eu tinha um surto emocional e levava outras pessoas pra terem uma crise existencial ao meu lado.
Libby!
A voz dela soou animada e um tanto alegre, algo que eu ainda não tinha me acostumado, mas me deixava feliz ver a Eve feliz, mesmo que estivesse fazendo o maior tempo ruim do lado de fora e… O que ela estava fazendo ali?
Oi, oi, oi e oi pra você também. É estranho ver vocês quando não estão… Diferentes. - A observei acenar animadamente pra cada um dos meus amigos, tentando dar nomes aos rostos, mas quando ela não conseguiu, se voltou a mim, no canto deles, abanando as mãos na frente do rosto e depois apertando as minhas bochechas como se eu fosse um bebê. - Eu vim buscar você, pro nosso feriado!
Você o que? Lembra do combinado? Eu vou passar o Natal e o recesso no dormitório enquanto você viaja, vou aproveitar a folga pra fazer uns ensaios e recuperar algumas notas e… Eve! - Comecei a dizer tudo rápido demais, observando ela guardar minhas coisas dentro da mochila e acenar com a cabeça negativamente com cada palavra minha, mesmo que ela já tivesse escutado os meus planos uma vez. Me voltei aos outros ali, pedindo qualquer tipo de ajuda com o olhar, mas eles nem se moveram. Abandonada, mais uma vez.
Ahn… Não, não e não. Nós vamos pra casa dos meus pais, eles querem conhecer você, e o dormitório é muito solitário e não vou deixar você sozinha, bom, nós temos uma lista pra cumprir! - Ela tomou uma das minhas mãos, a minha mochila na outra, e levou as duas de nós pra fora da biblioteca da NYU como se nada demais estivesse acontecendo, mas não evitei dar um breve olhar mortal para trás, me perguntando qual deles tinha falado sobre a lista ou qualquer outra coisa. Pra quem inimigos quando se tinha um squad daqueles?
E se eles não gostarem de mim?
Eles vão, viram todo o seu Instagram.
E se eles, ainda assim, não gostarem de mim?
Você fala como se fosse uma criatura detestável.
E eu não sou? Passo os fins de semana animando festas e bebendo e evitando ir pra cama com um dos meus amigos, fui nomeada três vezes a aluna mais irritante da minha sala, por anos, e agora estou indo passar férias de Natal na casa de dois idosos que parecem ser muito legais e que querem me conhecer, mas acredite em mim, eles não querem.
Mesmo com todas as minhas reclamações e inseguranças, a Eve ainda continuou dirigindo por horas, até chegarmos no bairro, eu poderia dizer, mais bonito e iluminado de todos e eu só queria passar o resto dos meus dias em um lugar que parecesse tão mágico como aquele; tinha até me esquecido de continuar ameaçando meus amigos no grupo pelo celular, mas não era como se eu fosse deixar aquela passar tão fácil.
Era uma daquelas casas enormes e tradicionais que todas as crianças no orfanato tinham o desejo de morar um dia, me esconder atrás da Eve, por mais que ela fosse menor do que eu, era inevitável e me sentir logo errada e desnecessária quando abriram a porta era ainda mais difícil de evitar, mas, pela terceira vez na minha vida - uma para a Eve, outra pros meus amigos e, agora, para a família da Eve -; sem olhares tortos, sem perguntas estranhas, sem piadas ruins e sem desconfiança, só dois sorrisos gentis e braços abertos, porque “estávamos ansiosos pra conhecer você”.
O senhor e a senhora Bale eram… Peculiares. Estavam casados a mais tempo do que poderiam dizer e viviam sozinhos na casa desde que a Eve foi pra NYU, quando era um pouco mais nova do que eu. Eles dançavam pra qualquer música que tocasse no rádio, me ofereciam doces e salgadinhos com formatos de Papai Noel e boneco de neve a cada cinco minutos e não deixavam a desejar no quesito melhores pessoas com quem eu tinha conversado por mais de uma hora. Eles eram completamente, inteiramente e intensamente… Perfeitos.
Você dança?
Eu? Eu… O que?
É claro que ela dança! Faz um extracurricular na faculdade e bem mais. Libby, mostra pra ela!
Eve, eu não posso… Isso nem vale um ponto!
Libby!
Tomei uma das mãos da senhora Bale na minha, antes de deixá-la me guiar… Pra onde quer que ela quisesse me levar. Era um cenário diferente do que eu estava acostumada naquela época do ano, onde eu preferia ficar sozinha e escrever alguma coisa sobre outras pessoas, nunca eu mesma. A lareira acesa, a neve muito clara e caindo do lado de fora, a sala preenchida de risos e uma música qualquer que parecia ter saído dos anos sessenta e, pela primeira vez em tanto tempo, era como se eu não estivesse invadindo o sonho perfeito de alguém ou me tornando um empecilho, eu era só… Eu e as pessoas estavam felizes com isso e eu também.
Eu acho que… Essa peça não fica ai.
Observei o quebra-cabeça gigantesco estirado no tapete da sala, eu bem em cima dele quase perdendo minha paciência e dignidade, prestes a fazer uma cena dramática e birrenta por estar sendo vencida por um brinquedo no auge dos meus quase vinte anos. Então me voltei ao senhor Bale, que tomou um lugar na poltrona da sala e estava tentando me ajudar com aquilo, nem ele e nem eu sabíamos no que ia dar, mas era um bom jeito de passar o tempo.
Eu acho que é um castelo. - Proferi distraidamente apontando pros pontos que pareciam finais de torres enormes. - Com certeza é um castelo.
Talvez uma muralha.
Ou um castelo.
Um forte?
Castelo… Senhor Bale, sonhei com castelos o suficiente quando era criança pra saber de que estamos falando de um castelo. - Comentei no meio de uma risada, antes de tentar encaixar mais peças, ele me ofereceu um sorriso enquanto apontava pra lugares que poderia ajudar, mas nada progredia.
Ela gosta de ter você. - Ele disse distraído, se ajeitando no estofado e se voltando a mim e a minha expressão confusa, antes de prosseguir, no mesmo tom gentil que ele vinha me dando desde que eu tinha chegado a quase uma semana. - Ela tentou… Muitas vezes, gerar alguém como você e oferecer todas as coisas que ela está te oferecendo agora, mas nunca conseguiu, o problema era com ela, mesmo que isso seja cruel e que não seja culpa dela. - Eu não tinha muito o que dizer e nem sabia se deveria, então voltei a me sentar no sofá, afastando o cabelo da testa e juntando minhas pernas e as abraçando, uma criança prestes a ouvir uma história. - Ela tentou com pessoas, e depois elas acabaram desistindo dela, então tentou sozinha, mas ainda assim não era capaz… Queríamos que ela voltasse, NY é muito grande e deprimente pra uma pessoa sozinha e sem ideia de um futuro, mas então a assistente social pediu pra ela ficar com você por um tempo e eu nunca vi ela tão feliz ou animada em anos, ela ligava todos os dias pra contar alguma novidade na sua ficha ou pra perguntar coisas sobre como receber você, eu mesmo ajudei a decorar o seu quarto…
As gaivotas no teto…
Alguém disse que você gostava de praia, então só deixamos lá. - Ele respondeu um tempo depois, encolhendo os ombros e começando a rir, o que eu logo segui. - Por que não deixa ela ser o que ela quer ser e você ser o que quer ser?
Eu não… Eu não sei, senhor Bale.
O que acontece quando eu for embora?
Do que está falando?
O que acontece quando eu não for mais responsabilidade sua? Quando vinte e um bater na minha porta e o certificado chegar nas minhas mãos?
Você se torna maior de idade, vai se formar na faculdade e vai se tornar dona do seu próprio nariz, o que eu acho estranho, porque é dona do seu próprio nariz desde que te conheci.
Estranha…?
Eu diria independente e corajosa.
Então… O que acontece se eu quiser ficar?
O quarto ainda vai ser seu, suas coisas ainda vão ser suas, vamos repensar sobre aquele carro que você recusou, precisamos te dar um nome novo e uma data de aniversário também, você vai precisar começar a me chamar de mãe e, daí, vou poder te dar broncas sobre dormir no quintal dos outros com outros quatro jovens estranhos. Se você quiser ficar…
Vou ser uma medrosa por estar com receio de ficar sozinha?
Vai ser a minha filha… Só a minha filha.
Cinderella era a melhor coisa que o Robb conseguiu sugerir?
Não que eu estivesse surpresa, mas, meu Deus, como eu tinha medo da possibilidade de Robb Schuester ser pai de alguém e o primeiro a sugerir nomes pra um ser indefeso e inocente.
Ele disse que te definia…
Se violência contra gigantes me definir…
Não, você não pode bater nele.
Deixei o papel cair na mesa, Eve tinha anotado coisas aleatórias nele no dia que foi na NYU atrás do squad pra saber sobre, bom, eu. Eu só queria cometer um crime de ódio por terem dito todas aquelas coisas, mesmo que a Eve dissesse que eles tinham sido gentis e só queriam o meu bem.
Não é uma opção, é?
Você chegou no Outono… Se lembra das folhas caindo na parte da frente da casa e você dizendo que eram as coisas mais lindas que você já tinha visto? - Tentei acompanhar o raciocínio dela, me lembrando vagamente da memória, antes de acenar com a cabeça algumas vezes, mas sem entender o que aquilo significava e, então, era como se uma lâmpada tivesse se acendido em cima da cabeça dela. - Vamos chamar você de Autumn. Autumn Bale. Mais do que sete letras. Parece bom pra você?
É perfeito.
A vida com uma mãe era… Diferente. Eu tinha montado cenários e mais cenários quando soube que aquela outra mulher era de fato a minha mãe; os assuntos dos quais a gente ia conversar, onde nós iriamos, quando ela conheceria os meus amigos e quando ela deixaria eu fazer parte da família dela, de verdade. Eu tinha tudo planejado e contado em algum lugar, com todas as coisas que eu queria compartilhar com ela, mas quando a Eve se tornou a minha mãe e começou a se tornar parte de mim e eu dela, as coisas pareciam confusas, mas ao mesmo tempo emocionantes. Eu não precisava dos planos e nem das coisas enumeradas, elas só aconteciam da maneira mais incrível de todas.
Você não pode sair por ai dançando, precisa esperar a vibe da música, e então fazer isso!
A reprimi trocando a música no celular, puxando o fone dela como um aviso, antes de deixar o aparelho entre nós duas e tentar me conectar com cada acorde e nota. Metade do meu cabelo estava azul e o dela também, tínhamos a mesma cor de esmalte brilhante nas unhas e estávamos usando a mesma cor de Vans, como eu tinha planejado. Mas o momento era dela; um piquenique no Central Park, com as pessoas em volta mas nenhuma de nós ligando realmente pra elas, enquanto tentávamos nos conectar com Troye Sivan e Ariana Grande pra eu fazer a besteira que sempre afastava os crushes de mim nas festas; dançar fluida e sem preocupações, como Libby Day, no mundinho maluco dela.
Você sentiu isso?
Sim, e você?
Também!
Então vamos!
Peguei meu celular antes de me levantar, seguida da Eve e ela começou a se mover como se estivesse saindo de um labirinto cheio de espinhos, enquanto eu me deixava levar no melhor estilo Luna do F(X) em alguma coreografia conceitual dela, mas com uma música completamente diferente e um cenário também. Nada mais importava, nada mais me incomodava e o mesmo pra minha mãe. Eu tinha deixado ela entrar no meu mundo e ela finalmente me conhecia por inteiro, do jeito que deveria ser e eu não podia estar mais feliz com a coisa toda. Eu não era mais a garota abandonada, sozinha ou rejeitada. A garota cheia de conexões e pessoas constantes ao redor, nem a garota que tinha se amaldiçoada a seguir e viver sozinha pra não ter de lidar com outra perda qualquer. Eu era Autumn, dessa vez, sem qualquer traço da Libby ou das frustrações dela. Só Autumn, Autumn Bale.
Kill Club #GillianFlynn #afternoon #LibbyDay