Capítulo Doze - Last Kiss
"Uma hora ou outra o destino se ajeita, as coisas se acertam, o passado é esquecido, as dores cicatrizam. Quem tem que ficar fica, o que é verdadeiro permanece, e o que não é some. Não tenha pressa, não guarde mágoas, não queira pouco... Sempre queira o melhor. Espere na sua. Aprenda a ser paciente. Aprenda a ouvir uma boa música quando a tristeza bater. Aprenda a ignorar o que te faz mal. Aprenda, sobretudo a ter fé. Fé de que, por mais difícil que seja, o universo sempre irá conspirar a seu favor."
– Eu posso ficar com você, se preferir. Sabe, eu ligo e me explico com ela depois e... – Neguei com a cabeça e tentei dar o meu melhor sorriso a Chay.
– Não, tudo bem. Você tem que ir. Eu ficarei bem com o Micael, Sophia e o Lucca. – Era a verdade. Eu ficaria bem com meu melhor amigo, sua esposa e seu filho, mas isso não mudava o fato de que eu não queria que ele fosse. E eu me odiava por isso. Era tão egoísta da minha parte.
Decidi sair do carro e não prolongar mais aquele momento. Não era nada demais, certo? Não era.
– Hey. – Ele puxou meu braço, antes que eu me movesse para sair do carro. Voltei-me para Chay, que me fez o olhar. – Eu te amo, tá? Volto logo. – Seus olhos angustiados me fitavam, como se implorassem para que eu confiasse nele, para que eu o perdoasse por toda aquela confusão.
– Eu também te amo. – Inclinei-me em sua direção e lhe dei um beijo breve. Agora vá. Fabíola e seu filho precisam de você. – Dei um sorriso tranquilizador a Chay e, finalmente, saí do carro.
Era estranho tudo isso, mas eu sabia que era necessário, era o certo a se fazer. Eu tinha conhecimento de que no momento em que perdoei Chay, eu o aceitei junto com todas as consequências de seus erros passados. E uma dessas consequências era seu filho. Ou melhor, filha.
Fabíola havia ligado a pouco menos de meia hora, informando que havia entrado em trabalho de parto. Chay ficou nervoso, sem saber o que fazer. Não queria ir até lá, mas eu o convenci que era o certo a se fazer. Ele como pai, deveria dar total apoio à sua filha e à mãe dela.
Eu sentia o quanto Chay ficava culpado e desconfortável toda vez que o assunto da sua paternidade com outra mulher era colocado em pauta, porém isso teria de acabar. Eu já havia aceitado o fato e me conformado. Pra ser bem sincera, eu até já gostava mais do que deveria da criança.
Eu até me via com ela e Chay num parque, fazendo um piquenique em pleno domingo, todos felizes. Imaginava-a rindo de alguma bobagem minha, enquanto eu a colocava na cama que teria em nosso apartamento especialmente quando ela fosse dormir lá.
– O que você está fazendo aqui? – Meus pensamentos foram interrompidos por Micael, que havia aberto a porta de sua casa e tinha me encontrado no meio do caminho, parada. É, eu realmente tinha que parar de ficar absorta em meus pensamentos
– Pensei que ficaria feliz em ver sua melhor amiga em sua casa.
– No meio do meu quintal, você quer dizer, não é? O que estava fazendo parada ali, Mel?
–Pensando. – Dei de ombros. – Posso entrar?
Assim que entrei, avistei Lucca no tapete felpudo da pequena, mas aconchegante sala do meu melhor amigo. Corri até ele e o peguei em meus braços.
– Hey bebê, a tia estava com saudades. – Ele sorriu para mim e soltou um gritinho engraçado. Com quase um ano, ele já tentava balbuciar algumas coisas, tentando imitar o que os outros diziam. Daqui a pouco já começava a falar. Eu mal podia esperar para vê-lo chamar pela titia Mel.
– Sabe, você leva muito jeito pra ser mãe. – Sophia falou, sorrindo carinhosamente ao me observar com Lucca. Eu queria parecer surpresa com a afirmação de Sophia, ou até mesmo negá-la, mas ela me conhecia bem.
– Talvez. – Sophia riu e se sentou ao meu lado, também no tapete macio. Nós duas observando o pequeno Lucca brincar.
– Porque está aqui, Mel? Sério, eu amo quando você vem. Mas é sexta à noite e achei que você e Chay tivessem planos. – Micael sentou-se ao lado de Sophia, que logo se levantou, alegando que iria deixar o jantar queimar, correndo para a cozinha. Eu mordi o lábio, insegura sobre o que dizer. Sim, eu aceitava Chay com toda a sua bagagem, mas isso não queria dizer que não desse um desespero enorme às vezes.
– Bem, nós tínhamos. Mas a mãe da Fabíola ligou, ela entrou em trabalho de parto. E eu não podia deixar Fabíola sem o apoio de Chay, por mais que ele tenha se proposto a ficar comigo. Simplesmente não é certo, entende?
Ele assentiu e eu comecei a chorar. Quase que automaticamente, eu deitei minha cabeça em seu colo.
– Eu o amo, Mica. E eu o aceitei com toda a bagagem que viesse junto, mas as vezes é difícil enxergar isso no meio da confusão. Não posso negar que essa criança irá mudar a nossa vida, e...
– Não pode negar que queria que ela fosse sua. Eu sei.
O que eu poderia dizer? Era exatamente isso. Por mais que eu tivesse decidido passar uma borracha em cima de tudo que aconteceu no passado, havia consequências dele que eram inapagáveis. E a filha de Chay e Fabíola, a pequena Bianca, era prova disso.
– Aposto que ela vai adorar você, Mel. Além do mais, você e Chay podem ter seus filhos também. Não fique assim. Você sabia que seria complicado e mesmo assim escolheu esse caminho.
Assenti, enxugando as lágrimas que agora paravam pouco a pouco de cair. Micael estava certo. Essa era a minha vida, e eu tinha optado por ela. Eu podia e eu iria lidar com quaisquer problemas e consequências que viessem.
Por minha felicidade com Chay e até mesmo com Bianca... Eu enfrentaria o que viesse. Sem pestanejar.
– Você pode, por favor, pegá-la na escolinha pra mim? Esse trânsito realmente não está colaborando. Me desculpe, amor.
– Certo. Eu a busco. Estou saindo da Editora agora, acho que chego a tempo.
Assim que encerrei a ligação corri até meu carro e arranquei em direção à escolinha de Bianca. Ela ficaria muito brava por Chay não ter ido, mas acontecera um imprevisto. Esperava que ela conseguisse entender, mesmo com apenas cinco anos. Era visível o quanto a menina parecia com a mãe fisicamente, mas, seu jeitinho de agir era impecavelmente igual ao de Chay.
A última coisa que eu queria era ver Bianca hoje, sinceramente. Mas ela era filha do homem que eu amo, e eu amava Bianca também, como se fosse minha filha, de alguma forma. O problema, é que ela não sentia o mesmo por mim.
No começo, quando Bianca era apenas um bebê, ela me adorava. Quando ia para nossa casa ela só dormia quando eu a colocava em meu colo e cantava pra ela, ou contava uma historinha. Mas depois, quando começou a falar e interagir, Fabíola começou a dizer a ela que eu não era uma boa pessoa, e que havia roubado Chay das duas. Pois é, algumas pessoas nunca mudam.
Obviamente, Bianca começou a me odiar por isso. E mesmo que essa não fosse à verdade, eu poderia culpa-la? Poderia culpar uma menininha de cinco anos por apenas acreditar na sua mãe? Não, eu sabia que não.
Ontem, no domingo, Bianca estava em nossa casa e enquanto eu estava na cozinha terminando de lavar a louça que ficou do almoço, eu a ouvi pedir a Chay que voltasse para casa com ela, pra perto de Fabíola.
– Eu não posso, princesa. Minha casa é aqui, meu lugar é aqui com a Mel. Eu a amo e eu já te expliquei isso. – Fora tudo o que Chay dissera. Era a verdade, ele já havia conversado com ela de o porquê estar separado de Fabíola e estar comigo, da melhor maneira possível. Mas isso foi antes de Fabíola encher a cabeça da menina de merda. Porque ela sempre tinha que complicar tudo?
– Mas a Mel não é a minha mãe! Ela roubou você da minha mãe! Eu não gosto dela! – Bianca gritou alto e eu ouvi seus passinhos na escada, subindo para seu quarto.
Eu fui para a sala e sentei-me perto de onde Chay estava. Eu queria lhe falar que estava tudo bem, mas eu não conseguia. Bianca tinha razão. Eu não era sua mãe. E isso me doía mais que tudo.
Chay me abraçou carinhosamente e eu me aconcheguei nele, não conseguindo mais evitar as lágrimas. Apesar de estarmos indo bem juntos, Bianca era sempre um assunto complicado. Tudo seria muito mais simples se ela me aceitasse. Mas como?
– Ela me odeia. – Eu sussurrei com a voz embargada. Ele riu.
– Impossível. Ninguém consegue te odiar, amor. – Chay me deu um selinho. – Eu vou conversar com ela.
E ele conversou com ela. Eu só não acho que surtiu algum resultado. Bem, eu iria saber agora.
Assim que parei o carro em frente à escola, vi Bianca na calçada com mais duas meninas. As duas meninas riam de alguma coisa e eu pensei que estavam brincando com Bianca. Mas quando eu vi a cara de choro da minha menina, eu fui até lá.
– Oi, meninas. – As duas meninas começaram a rir ainda mais e eu olhei para Bianca, que agarrara minha mão e me pedia para ir embora.
– Eu posso saber o motivo da graça, crianças? – Eu sorri, incentivando-as a dizer.
– A Bianca não tem o pai morando com ela! O pai dela mora com você. Ela não tem um pai pra cuidar dela! – Minha boca se abriu e fechou algumas vezes, enquanto olhava chocada o tanto de maldade que havia saído daquelas duas meninas.
Percebi que Bianca chorava e estendi meus braços a ela, oferecendo colo. Para minha surpresa, ela aceitou e escondeu a cabeça em meu pescoço.
A raiva tomou conta de mim. Elas estavam fazendo a minha menininha chorar.
–Quem disse isso? Não é porque o pai da Bianca não mora com a mãe dela, não quer dizer que ela não tenha um. Se vocês querem saber, a Bianca é uma menina que tem muita sorte, porque tem duas casas e até duas mães pra cuidar dela. O que tem de mal nisso? Aposto que vocês também queriam ter duas casas e dois quartos e duas mães. Então, por favor, parem de rir da minha princesa, senão eu vou ter uma conversa muito séria com as mães de vocês, meninas.
Com Bianca ainda em meu colo, andei até o carro e entrei com ela. Ela já não chorava mais, mas ainda mantinha a cabeça em meu ombro.
– Hey, tá tudo bem, Bi. Tá tudo bem. Não ligue para o que elas dizem. – Será que ela estava brava por eu ter dito que ela tinha duas mães? Eu esperava que não.
– Mel, me desculpa. – Seus olhos vermelhos por conta do choro recente me olhavam tristonhos. – Eu gosto de você, mas a minha mamãe disse que você roubou o papai de mim. – Eu e a abracei mais forte. Deus, porque isso tinha de ser tão complicado?
– Hey, olhe pra mim, anjo. – Ela assim o fez. – Eu não roubei ninguém de ninguém, tá bom? Seu pai já lhe explicou, se lembra? Ele e eu estamos juntos porque a gente se ama. Duas pessoas juntas que não se amam acaba em tristeza, entende? Eu juro que nunca iria fazer nada que pudesse te fazer sofrer. Eu te amo.
– Eu também te amo, Mel. Você é a minha mãe 2. – Eu ri e a abracei mais apertado ainda. Ah, aquilo era uma das melhores coisas do mundo. Bem, mãe 2 até que soava bem para mim.
– Ela me chamou de mãe 2! Mãe, Chay! Ela disse que me ama! Ah, ela me ama! Isso não é maravilhoso? – Eu literalmente me atirei em cima dele na cama, o enchendo de beijos, tamanha era a minha felicidade. Agora sim, tudo estava perfeito.
Ele sorriu pra mim e me puxou para perto, me beijando em seguida. Meu coração se acelerou como sempre e eu sorri também, em paz. Aliviada. Sabe quando você tem a certeza de que tudo está no lugar certo? Então.
Passamos por muita coisa nesses anos, mas estávamos mais firmes do que nunca agora. Eu acho que no fim, todas as dificuldades que eu e Chay passamos valeram a pena. Se ele não tivesse me deixado há anos atrás, nós nunca teríamos a cumplicidade, a confiança que tínhamos um no outro agora, nem teríamos Bianca. E bem, por mais que ela não fosse minha filha de sangue, eu a considerava como tal.
Não me arrependia por ter deixado passar a oportunidade de ir para Londres. Como eu já disse, nosso verdadeiro lar é junto das pessoas que amamos. Meu verdadeiro lar era exatamente ali. Com Chay.
– Obrigado por ter voltado para a minha vida, Chay. Eu te amo.
– Eu que tenho que agradecer por você ter me aceitado de volta depois de todos os erros que eu cometi. Eu te amo muito. Mesmo.
Assenti e o abracei com mais força, feliz apenas por estar ali, com ele. Agora, eu sabia que suas palavras eram verdadeiras e sabia que mais nada, nem ninguém ia nos separar.
Sabem? Eu acho que finais felizes existem. Porque eu encontrei o meu, com certeza.