Som e espaço na cidade: entrevista com Luisa Puterman
Luisa Puterman parece viver numa realidade sonora diferente do restante das pessoas. Artista sonora formada em História da Arte com especialização em engenharia de som, a paulistana se mostra extremamente sensível às paisagens sonoras que a cercam – sejam elas naturais ou urbanas.
Residente na Red Bull Music Academy de Paris em 2015, Luisa voltou ao Brasil com grandes perspectivas: após montar uma instalação quente, ofuscante e opressora denominada Moto Perpétuo para o festival Novas Frequências em dezembro de 2016 (um dos destaques do festival, que contou com quase 150 atrações), ela apresentou seu projeto de música eletrônica ao vivo na primeira edição do festival holandês Dekmantel em São Paulo, em fevereiro de 2017.
Nas duas entrevistas que conduzi com Luisa para o filhas do fogo, em dezembro de 2016 e janeiro de 2017, ela me explicou como suas análises de som, espaço, urbanismo e artes visuais formam sua característica identidade sonora.
Luisa Puterman por MAGNUM PHOTOS (RBMA)
Como você se interessou por som?
É algo que sempre fez parte de mim. Meu pai é músico – não profissional, mas toca violão e estudou musicologia – então eu lembro de tocar o violão com três anos de idade. Aí eu fiz aula de baixo, bateria… Toquei de tudo.
Daí você começou a tocar piano?
Sim, comecei a frequentar os conservatórios. É o instrumento em que sou mais versada, mas não me consideraria uma pianista.
Como surgiu a ideia de gravar o EP Nu, composto só de piano?
Estava numa época em que eu tocava muito – todos os dias - e, quando vi, devia ter umas 200 horas gravadas de piano. Fui ouvindo e selecionando as partes que achei mais interessantes.
Você acha que o piano a levou a ter uma ideia mais 'tradicional' de música?
Não necessariamente… Acho inclusive que tradicional é um termo bastante elástico e abrangente em música a ponto do piano poder representar isso. Vejo o piano mas como uma síntese musical, uma plataforma que condensa vários saberes. Uso ele também como uma ferramenta para pensar a música, além de ser um timbre fino, clássico e cheio de memórias.
Como estudar engenharia de áudio mudou sua percepção de som?
Os estudos mais técnicos foram bem importantes na minha formação e na maneira que ouço atualmente. É como se você tivesse uma lupa sonora que pode focar em determinados aspectos do som. Basicamente é obter um poder de desconstrução – conseguir ouvir as infinitas camadas que um som ou um conjunto de sons possuem. Isso deixa a escuta complexa e prazerosa, mas também gera umas paranóias com os sons do cotidiano.
Como é sua relação com o equipamento utilizado por você nas suas composições?
Eu adoro botões e fades, acho que todo produtor curte na real… É um meio lance infantil até. Mas vejo também os equipamentos como uma extensão do nosso corpo. É uma relação interessante pois também é necessário dar voz às máquinas de certa maneira, achar um equilíbrio entre o seu desejo e o desejo delas... E muitas vezes o equipamento ou instrumentos em geral – no meu caso o piano e o violão – funcionam como companhias do dia-a-dia mesmo.
Você teve alguma dificuldade em relação à tecnologia?
Ah, sempre tem a dificuldade da grana. Ferramentas de áudio são caras. E é algo que requer muito estudo – você tem que perder uns dias ali, lendo o manual, e eventualmente você vai apertar um botão errado e perder tudo, ficar frustrado. Eu sou formada em História da Arte, então minha formação é muito teórica, muita leitura, então às vezes para compreender algo mais técnico demora um pouco mais.
Me lembro de você ter comentado que o seu TCC foi sobre o John Cage. Que aspecto(s) do trabalho dele você estudou – e em que estes te influenciaram?
Eu estudei especificamente o processo criativo da peça 4'33''. A peça gira em torno da ideia de silêncio com desdobramentos e questionamentos que pertencem às práticas da arte contemporânea e que se relacionam muito com as ideias de Marcel Duchamp. Acredito que estudar o silêncio me deixou muito mais curiosa e sensível com som em geral.
Me conte mais sobre Moto Perpétuo, sua instalação no Novas Frequências.
Moto Perpétuo surgiu ao longo do segundo semestre de 2016. Pensado especificamente para o contexto do festival a instalação foi meio que aparecendo conforme ideias sobre construção/destruição cruzavam meu caminho. Fui atrás de sons que pertencem a esse universo e acabei chegando numa ideia de ciclo infinito, de uma angústia implícita nos processos ilusórios de renovação – além do fato de as cidades estarem inundadas por sons que como consequência desses processos nos habitam de forma inconsciente e esteticamente intrigante.
Como surgiu seu interesse por estudar os efeitos do transporte na paisagem sonora (como em Trem e Cuidado Veículos)?
Foi meio natural acho. Num sei direito como começou esse interesse. Acho que veio do dia a dia mesmo. Dos sons que cercam nossa existência. Gosto de me deslocar, acho que deslocamentos sempre me interessaram de maneira geral. Então trabalhar com isso foi uma extensão desses pensamentos corriqueiros.
Como foi sua residência na Red Bull Music Academy, em Paris?
Foi incrível. Eu tinha até esquecido que me inscrevi – era uma inscrição longa, cheia de perguntas curiosas, tão pessoais quanto profissionais – e aí, um dia, quando estava em casa tocando, o e-mail chegou. São tantas as coisas que poderia falar disso mas acho que o que me marcou muito foi assistir as lectures com nomes icônicos da música e também o fato de a experiência ter me motivado a idealizar meu projeto de live.
E como ele tem funcionado?
Tento não o planejar muito. Meu live set é baseado em situações de improviso que se alimentam do contexto em que estou tocando. Mas tenho tentado reciclar as pesquisas e sons de um trabalho para o outro. Criar fluxos entre os materiais sonoros que utilizo nas trilhas, instalações e performances. O lance ao vivo é bem desafiador na real… Eu gosto bastante do palco, tem uma energia única e forte. Acho que para além das pressões psicológicas, os desafios são bem técnicos, ligados ao som/acústica dos lugares e da angústia de extrair o melhor resultado possível de cada elemento envolvido. E também meu live requer muita concentração o que me aliena ainda um pouco do público, mas acho que tá rolando – pouco a pouco – tenho aprendido muito a cada apresentação. Ainda é um experimento, muitas coisas ainda estão em construção, mas tenho curtido bastante tocar e poder compartilhar momentos musicais com diferentes públicos em diferentes contextos. Quero tocar bastante nos próximos tempos.
Luisa Puterman por MAGNUM PHOTOS (RBMA)
É algo que demanda bastante criatividade, então.
Criatividade não, é obsessão. Eu sou obcecada por som. Quando você é obcecada por algo, você encontra novas maneiras de mexer com aquilo.
Pra mim, sempre pareceu que sua relação com som é algo sinestésico – que você enxerga os sons como formas ou cores, mais do que apenas ondas sonoras. Isso é verdade pra você?
Sim… Rola um pouco isso. Mas enxergo mais na real espaços e cenários… Elementos arquitetônicos e paisagísticos, sejam eles construídos pelo homem como uma ponte ou construídos pelo tempo como um rio ou uma montanha.














