Growing pains: HyunJin "Jinnie" Lee
Nota sobre conteúdo sensível: vivências de uma adolescente no armário, tópicos sobre homofobia, mãe possivelmente homofóbica e muito rígida, discussões sobre o lugar da mulher (no olhar de famílias orientais e tradicionais) e aquela mesma mãe homofóbica provocando "micro agressões" para/com essas mulheres que não são vistas respeitando esses papéis socio tradicionais e aceitáveis. Show de arrombamentos, mas tudo vai fazer sentido depois.
Notas gerais: referências, claro, a maioria das séries e filmes dos anos 2000 e 2010 sobre o assunto, mas especialmente Love, Simon.
Notas gerais 2: vocês lembram da primeira parte, né? A dos primórdios? Então, não é muito diferente dela (menos triste e mais engraçada, talvez?), o que eu fiz aqui foi encurtar distâncias (por causa do MinJun), diminuir o sofrimento (também por causa do MinJun) e passar pra outro irmão Lee essa missão de apoio gentil e responsável (o MinJun).
Espero que isso impeça processos na minha porta.
Eu sei que minha família me ama, mas sempre fico me perguntando se eles gostariam de mim se eu não fosse… Parente deles.
Tipo, eu ainda ia ser mimada e protegida e querida se fosse uma vizinha? Uma amiga de uma amiga? Uma desconhecida brevemente conhecida em algum ato rotineiro da vida?
Se eu não fosse o que eles pensam que eu sou e estão acostumados a ver, ainda ia ser alguém digno de afeto e cuidado?
Porque aqui, sentada entre Hyeon e Mishil, ao que MinJun fica em uma cabeceira da mesa e minha mãe na outra, enquanto todos nós como família comemoramos o aniversário de dezoito anos de Seung e já sua pré festa do “Poxa, quantas faculdades gostaram do seu histórico!”, sinto que estou vendo todas as cenas na minha frente como se estivesse trancada do lado de fora do meu próprio corpo, porque a Jinnie que sorri contida e fala baixo na presença da mãe, não tem nada a ver com a Jinnie na minha cabeça. A que eu sou de verdade, a que eu tenho certeza que sou desde os meus onze anos, quando meu pai morreu e percebi que além de 50% órfã, eu também gostava de meninas e não tinha mais ninguém confiável pra contar.
Aí, essa vida de menina escondida atrás da heteronormatividade é HORRÍVEL! Nem dá vontade de esperar cortarem o bolo, nem da vontade de ficar ali ouvindo as histórias dos mais velhos na faculdade e agora começando a vida adulta de verdade, e eu até tento olhar para Minjun com a maior cara de coitada com dor de barriga do meu repertório, já colocando a mão no estômago pra dramatizar ainda mais e ganhar um passe pra ficar no meu quarto, quando algo inédito acontece:
— MinJun, acho que comi-
— Jinnie, Seung me contou que você faz vestidos incríveis.
Ainda tem muita conversa paralela acontecendo naquela mesa enorme na nossa sala de jantar igualmente enorme, então nem todo mundo escuta quando Alexandra Moon, uma das pouquíssimas convidadas pessoais de Seung, junto com Linnie Yang da casa ao lado e os três amigos dele da escola, chama minha atenção com o sorriso mais amigável que consigo processar durante meu torpor e choque, enquanto começo a sentir dor de barriga, mas agora de verdade.
— Ah, eu… Faço umas roupinhas de vez em quando, pro pessoal do clube de danças tradicionais coreanas, sabe? Lá no prédio de recreação da comunidade asiática, no centro. — Comento com uma voz desse tamaninho, sentindo meu estômago fazer blublublu. — Não é nada sério.
— Mas você sabe calcular fluidez e conforto, certo? Se faz roupas pra performances de dança coreana, consegue fazer pra espetáculos de ballet. — Alexandra me instiga a falar mais, piscando os cílios longos e que me fariam desmaiar, se eu não estivesse tentando não dar pinta no meio do jantar, por que quem não gosta de uma bonita siliconada te dando atenção? Faça o favor!
Mas Seung responde por mim, salvando meu momento de gay panic, e panic no geral.
— Ela consegue fazer QUALQUER COISA! Fez todos os meus ternos pras apresentações da sinfônica, e todos os nossos hanbok's, todo ano, pros eventos da comunidade coreana. — Ele diz, quase explodindo de orgulho, segurando a mão de Linnie em cima da mesa onde todos podem ver, incluindo minha mãe que só suspira durante nossa interação. — Ela é tão talentosa, sempre digo que devia começar a fazer costura online sob encomenda.
E quando eu pensei que o assunto ia morrer ali, Alexandra concorda com Seung, emendando a última coisa que eu esperava ouvir naquela noite e talvez na minha vida inteira.
— O corpo de dança da faculdade não tem mais contrato com a loja que costumava vestir a gente pros espetáculos, e agora, no verão, era nossa chance de procurar outra pessoa pra pelo menos desenhar nossas roupas pro próximo semestre. E ia ser bom ter alguém no comando, alguém que entende que bailarinas precisam respirar e se mexer em cima de um palco. — Alexandra faz uma pausa, jogando o cabelo por cima do ombro e exibindo suas flash tattoos aos montes, abrindo um outro sorriso bonito. — Ia ser tipo um emprego de verão, mas você vai ser remunerada como uma estilista de verdade, já que é um dos setores de arte que mais recebe patrocínio desde que foi criado. E mesmo se não for suficiente, eu prometo te bonificar por fora e arrumar um ateliê de verdade pra você.
E aí, eu ia conseguir fazer um portfólio do caralho, tirar fotos e vídeos lindos, guardar dinheiro pra faculdade, então ter minha própria independência e então… Nossa! NOSSA!
— Eu adoraria!
Mas não era isso que minha mãe queria ouvir.
Mrs. Lee não gosta de garotas feito Linnie Yang e Alex Moon porque acha que elas não servem pra nada, que dirá ocupar lugares como namorada e outra melhor amiga de seu outro filho perfeito e muito amado. Por isso eu sei que ela só tolerou elas lá porque precisava fazer Seung feliz, e não porque respeitava ele como indivíduo e filho.
Era sobre como Linnie sempre bateu boca com as velhas lá da rua, como os Yang tiraram ela de um orfanato mesmo sendo de descendência chinesa (que absurdo!) e sempre apoiou meu irmão a correr atrás das coisas dele e foi chave principal pra decisão de Seung em ir estudar piano na faculdade, e não Direito, como esperava dele. Então a parte que ele tinha conhecido Alex na sala de espera da terapia, que minha mãe já achava coisa de gente branca, e não suportava como a garota nunca tinha feito questão de parecer frágil e inocente e fofa como as nossas vizinhas que puxavam seu saco, fosse pelas tatuagens ou às roupas curtas e maquiagem forte ou aquele ocorrido dentro da família dela, porque “como assim você teve toda essa coragem de expor seu irmão difícil e violento, não é mesmo?”.
Mrs. Lee achava que elas eram meninas malvadas, e muito além de meninas malvadas destruírem o padrão e a tradição, elas não serviam pra andar com pessoas como nós.
Pessoas na mesma posição de respeito que nós. Ela só as tolerava.
— Você vai ficar em casa, comigo, no verão. — Foi o que ela me disse depois que todos foram embora, longe de quem podia tentar argumentar, porque sabia que aquele seu tom ameaçador ia ser suficiente pra me fazer esquecer daquilo.
E foi mesmo.
— O que a senhora achar melhor.
E, tudo bem, eu meio que já tinha planos de como passar o verão, de qualquer jeito, então não foi difícil aceitar meu destino e ir… Viver. Como podia, já que todos decidiram me abandonar de certa forma.
— Como assim você vai fazer road trip com sua namorada… E levar o encostado do Hajun com a namorada dele e EU NÃO?! — Choramingava atrás de Seung, feito um bebê órfão e jogado pra fora da mudança, com um bico desse tamanho e o perseguindo pela casa como um obsessor, quase passando mal de tanto ódio. — Eu sou sua irmãzinha, você não devia me considerar tipo pra sempre?
— Mas você meio que já tem um compromisso de diva, no norte da Califórnia, com a Alex… Não?
Aí, caramba! Tinha isso!
— Mais ou menos… A gente ainda não se falou depois do seu aniversário. — Respondo com um beicinho, puxando seu braço pra baixo, mesmo que a gente tenha quase a mesma altura. — Você me disse que a gente ia tomar sorvete e você ia me buscar no shopping.
— MinJun vai vir aos fins de semana e fazer isso no meu lugar, como planejado.
— Mas e as noites de cinema? E as de UNO?
— Hyeon também disse que vinha te ver, lembra? E ela pode trazer Yeojun.
— Mas, Seung…
A verdade é que a viagem dele parecia muito mais legal, os planos dele muito mais divertidos, e eu adoraria ir… Se tivesse alguém pra levar. Não um moleque da igreja, nem do centro de recreação da comunidade, que dirá alguém lá da escola. Se eu namorasse uma garota, ia adorar fazer coisas de casal com meus irmãos.
É meio frustrante que eu não possa, e dolorido também, mas quando Seung sorri pela janela do carro e me dá tchau, não consigo culpar ele por aqueles sentimentos começando a me consumir.
Nem ele, nem minhas amigas.
— Como assim a gente não vai tomar sorvete e ir ao shopping porque vocês vão pra… Festas de meninos e meninas? — Outro choramingo, mas agora na casa de uma delas, vendo todas se depilarem duas vezes (por precaução), fazer a manicure e hidratar os cabelos, como a gente já tinha combinado, mas óbvio que não com o mesmo propósito. — Vocês me enganaram, vocês me traíram!
— A gente nem sabia se você ia querer vir hoje, tipo, você não tinha uma viagem pra fazer com aquela sua vizinha que quer que você desenhe roupas de espetáculo pro coro de ballet dela? — Uma delas pergunta com um sorriso preocupado, porque todas sabiam como eu tinha ficado animada e dando pulinhos literais escrevendo aquela mensagem. — Estávamos prontas pra pedir lembrancinhas, mas aí você respondeu lá no grupo…
— Eu ainda não combinei tudo com ela. — Na verdade estava ignorando Alex Moon como se ela fosse o próprio diabo e fugindo de ser vista por ela na rua também, sem coragem de dizer que minha mãe tinha me proibido de viajar com ela, que dirá olhar pro lado dela. — Então achei que a gente ia manter os planos, desse lado do estado.
Não posso culpar elas por quererem começar a ir a festas sem álcool, não posso culpar elas por quererem começar a ter vida mais social e descobrir como meninas da nossa idade se divertem, e eu sei que elas falam a verdade quando dizem que a gente pode sair outro dia e fazer tudo que me der na telha, mas enquanto aquela máscara de argila fecha todos os meus poros e meu cabelo fica super macio, eu só fico pensando onde foi que todos começaram a seguir.
E eu parecia a única que tinha ficado pra trás.
De Jinnie para Minjun 👔🕶🖋
“Me busca em uma festa lá pelas nove? Hoje vou descobrir como as divas pop dos anos 2010 gravaram videoclipes! 🫵”
“Com segurança! 🤙”
Mas aiai, quem me dera ter aguentado até às nove da noite naquele lugar cheio de gente se pegando e se esfregando e ouvindo trap, enquanto acham tudo irado, menos o bom senso de não roubar o copo de refrigerante babado do coleguinha.
Eu queria tanto conseguir apagar todos aqueles beijos feios da minha mente, aqueles flertes ridículos, então aqueles discursos de “porque você devia me pegar” de todos os garotos que se aproximaram de mim achando que eu ia ter algum interesse, quando eles estavam servindo calça jeans larga e tão baixa que dava pra ver a cueca, e as garotas… Bom, as garotas 🫦🤧🩷.
Eu ia ter que me matar na frente de todos eles, não ia ter jeito, e já estava mandando mensagem pro meu contato de emergência vir logo e encostar seu carro caro na calçada porque eu ia ter que correr até ele, quando me jogaram em uma brincadeira de sete minutos no céu e me trancaram em um armário com um garoto tão padrão que doía. Eu sabia quem era ele porque minha mãe vivia dizendo que a gente ia casar um dia, e a mãe dele vivia concordando que íamos ter crianças lindinhas, e eu sei que ele também me conhece porque nem fala um oi direito e já vem na minha direção de olhos fechados e com a mão pronta pra segurar minha cintura.
Mal sabendo ele que na minha família, eu era a que mais servia performance depois do meu irmão maconheiro.
— Meu Deus… Essa… Sala… Está… Girand-
Aí, que ódio! Calculei errado a queda e meus ossos da costela foram com Deus nesse processo de fingir desmaio, tenho certeza, mas.o que importa é que tinha funcionado e um garoto em pânico conseguiu mobilizar aquela casa INTEIRA a ligar para meu irmão mais velho antes da ambulância, como eu já esperava.
Estirada no chão. Dolorida com a queda. Mas feliz.
“Colocaram drogas na sua bebida?”
“Aquele garoto te ofereceu drogas?”
“Alguém forçou drogas na sua garganta?”
“Você foi obrigada a usar drogas?”
“Tinha drogas naquela casa?”
Em um dia normal, eu com certeza ia achar aquela enxurrada de perguntas hilária, inventar uma história ou duas pra ver aquele senhor de vinte e tantos anos perturbado, mas enquanto a gente volta pra casa e eu só consigo ficar encolhida no banco do carona, eu não consigo sentir nada.
Na verdade, percebo que não estou sentindo nada desde o aniversário de Seung, e a conversa definitiva que tive com minha mãe, que eu já sabia que não podia confiar, mas já MinJun…
— Você lembra de quando eu era pequena e corria atrás de você quando fazia algo errado, e ao invés de confessar ou mentir, sempre te perguntava se você me amava? — Começo meu monólogo, olhando pras minhas mãos em cima do colo enquanto ele ainda dirige puto, muito puto, mas ainda assim não deixa de me responder. — Quando eu quebrava um vaso da mamãe, usava os carrinhos do Hajun de patins pras minhas bonecas ou tirava a cadeira da harmoni do lugar quando ela ia se sentar, depois dela me beliscar por rir alto demais. Você se lembra de quando eu só precisava que você me desse segurança, e que nada ia mudar, antes de sofrer alguma consequência?
Eu não sei se MinJun sabe pra onde essa conversa está indo, até porque nem eu mesma sei, mas ele diminui a velocidade até a gente estacionar em algumas ruas antes da casa da nossa família, olhando pra mim com tanta atenção que me deixa nervosa, e com a perna subindo e descendo também.
— Já tem um tempo que… Pensar em me casar e ser uma mulher coreana tradicional, mesmo vivendo na América, me deixa desolada, como se eu quisesse fazer algo muito ruim pra evitar esse destino, como se eu quisesse causar tanta revolta na mamãe que talvez ela me deixe de castigo pro resto da vida e então eu nunca mais saia de casa, pra não ter que viver nesse mundo de um jeito que eu não quero. Porque parece tão mais fácil, do que assumir como me sinto. — Estou chorando ou é alergia? Se é alergia, porque não sinto meu nariz coçar? E se é só choro… Ah, eu não sabia que ia acabar falando o que estou prestes a dizer. — Minjun, preciso saber se você ainda vai me amar como sua irmãzinha caçula, mesmo que eu não seja como Mishil e Hyeon… Mesmo que eu te diga que gosto de meninas, e que isso não vai mudar mesmo se eu ficar de castigo pra sempre, e muito menos se for obrigada a me casar com aquele garoto da festa.
Estou chorando, e acho que ele também vai começar a chorar, então acho de bom tom começar a me desculpas antes da resposta que eu não quero ouvir, vir.
— Eu ainda sou sua irmãzinha?












