Nossa história já é um tanto quanto antiga e tudo começou muito antes do meu nascimento, quando minha família conheceu a sua e se tornaram bons amigos. Estavam sempre juntos em aniversários, viagens, batismos, reuniões, jantares e até mesmo em finais de tardes quaisquer pra tomar um café e falar sobre como tinham sido os dias. Você veio primeiro, e eu uns anos depois. Aos meus catorze, as visitas do tal filho do Boss se tornou mais frequentes, o cara inteligente que trabalhava por prazer nos negócios do próprio Pai, o primogênito, o herdeiro. aquele que mesmo sem querer chamar a atenção alguma pra si, era sempre o centro. Foi o caçula da família quem teve a iniciativa de puxar assunto contigo, e assim brotou uma amizade que dá o que falar até hoje. E eu, nem ao menos sabia como me comportar na sua presença, apenas observava de longe como vocês se divertiam com todo tipo de coisa, desde uma partida de futebol até falar sobre planos para o futuro. Era incrível ver como você tratava as pessoas, sempre com gentileza, sorriso no rosto e como vivia transbordando esperança de dias melhores. Todo mundo era transformado pra melhor depois de algum tempinho ao seu lado, meu irmão mesmo, que não era nada afim dos estudos, começou a pegar gosto pela leitura por sua influência. Até minha mãe te amava e falava bem você, coisa que raramente acontecia com outros, e a cada dia que passava, eu me perguntava, qual era o tipo de magia que havia em ti. A admiração tomou conta, mas talvez lá no fundo, já fosse mais do que isso. Lembro da primeira vez que tivemos contato. Foi no meio de uma das minhas maiores e piores crises existenciais, num daqueles momentos sombrios onde ficamos surpreendidos com a quantidade de peso que carregamos sem ao menos entender o porquê de tantas coisas. Sem saber a razão do viver, sem ter fé que algo pode mudar. O choro não pôde ser contido e muitos notaram que a menina com nome de anjo não estava com a alma leve. Mas como é mais fácil fingir que nada está acontecendo, esses muitos continuaram em seus lugares, porém você resolveu me abraçar sem falar absolutamente nada e, na verdade, nem precisou, nosso silêncio gritava o que nenhum de nós quis dizer, o que todo já sabia e torcia por. Logo após esse episódio, apesar da vergonha que me consumia, tomei coragem e fui conversar com seu Pai. "Senhor?" — Chamei-o pensando que não receberia uma resposta, falavam-se muitas coisas sobre o Boss, como ele era duro e dono de um temperamento bipolar. Nunca tinham certeza se ele seria gentil ou malvado, o que, posteriormente, descobri ser um mito, e dos grandes. As pessoas costumam falar demais sobre coisas que conhecem de menos e fazem-nos arrastar tais mentiras como verdades absolutas. "Sim, querida!" — Sua voz era mais suave do que imaginei. — "Então, é que eu queria te falar uma coisa..." — Nem preciso dizer que se minha boca se abrisse mais um pouco, meu coração sairia correndo pelo cômodo, né? — "Claro, senta aqui." — Me aproximei, ainda hesitante, com um sorriso sem graça permeando meu rosto. —"Eu não sei se é muito certo, mas eu gostaria muito de ser amiga do seu filho, o que eu faço?" — Sim, eu sei, talvez devesse ter perguntado pra alguma amiga minha, mas quem lhe conheceria melhor? — "Fica tranquila, eu sei exatamente o que fazer!" — Boss disse com um sorriso de canto. Ele poderia até saber, mas eu não fazia a mínima ideia do conto, sem fadas, que começaria dali pra frente.