Lá estava eu, defronte a um lago, o de sempre de meus costumeiros andares, naquele dia, porém, com um diferencial, não só como a paisagem de um passante indiferente ao percurso, com o seu destino já bem acertado, mas pela ótica de um aventureiro contemplador, o qual desconhece o próximo passo, contanto, sabe que ele ocorrerá.
Sentei-me à margem. Era um dia de luz sobrenatural, talvez um dos motivos do parar e observar. A água, outras tantas vezes turva em outros passeios, tornara-se límpida e translúcida com o efeito da luz, ou talvez já o fosse antes e eu que nunca reparara.
Via-se o fundo do lago, verde-musgo, também era possível enxergar inúmeros peixes de diversos tamanhos, desde uns com dois palmos de comprimento até os menorzinhos, com o tamanho próximo à falange distal de um dedo mínimo. Havia também tartarugas, quatro delas, todas de tamanho aproximado, pouco menos de um palmo.
Imediatamente, mesmo sem lebre ou coelho por perto, senão no meu imaginário, pensei na famosa fábula de minha infância, relacionei-a com Platão, “apressa-te devagar...”, mas essas coisas estragavam o cenário. Lembrei por último de Caeiro, “pensar é estar doente dos olhos”, então tentei não pensar mais em nada.
Sentado à beira, bem próximo à água, notei que as tartarugas e os peixes menores se aproximavam sem muito alarde e me fitavam com uns olhões úmidos e profundos em sinal de espera.
Intuí – e intuir não é pensar - que era costumeiro ali a presença de gente que os alimentasse. Eu tinha umas sobras de tempo naquela tarde, então apanhei no bolso um pacotinho de bolachas. Abri. Espedaçava-as entre as mãos e jogava as migalhas na água. A água fervilhava, borbulhava, como se por debaixo daquela parte do lago estivesse aceso um fogareiro ao máximo da potência, mas eram apenas os peixinhos que consumiam todos os farelinhos com muita voracidade, enquanto as tartarugas começavam a busca, que era antes uns movimentos de cabeça para um lado e outro do que um nado, depois de já não haver mais nada para elas usufruírem.
Fiz isso durante algum tempo, impreciso, porém bastante, tamanha era a imersão no presente. Houve um instante que eu já não era mais um corpo sentado na terra, o corpo de um ser racional condicionado a viver na sucessão. Eu era uma das tartarugas em meio àqueles peixes, e via de longe um alguém que já não me era mais. No furor emocional de uma alteridade concretizada, pela insânia fantasiosa de ter transferido a mente para outro objeto, ou ter se expandido para fora dos limites do próprio corpo e assim podido observa-lo de outra perspectiva que não a de dentro de mim mesmo, de ter desenvolvido uma consciência exterior, levo em consideração a relatividade do tempo, pois, o que se entende por duração, agora, nesse relatar, me parece vago, indefinível e confuso, pois ora pareceu extenso e demorado, ora um átimo de quase nada, me impossibilitando quantificação ou precisão do tempo decorrido naquele momento. Fato é que não entendi o que se deu, como se deu ou por qual razão, mas me lembro muito bem da sensação de ser aquático e terrestre em simultâneo.
O desfazer-se desse estado de suspensão existencial aconteceu com o mergulho estrepitoso de um Guarda-Rios, uma pequena ave de coloração verde e azul que se alimenta de peixes. O ruído foi de um tambor obumbrado, mas de volume alto, com dois “bloft!”, um de mergulho e outro de saída da água, seguidos de muitos "bês" borbulhantes. Voltei-me a mim! Lá estava ele, tal miragem, de uma coloração azul inacreditável, destoando do resto do ambiente. Parecia - intrometido - não pertencer àquele habitat. Percebi nele a superioridade quanto a todo o resto ali: ele era aéreo, terrestre e aquático.
Um amigo que passava por terra deve ter me avistado ali inerte e veio a ter comigo. Aproximou-se, fez um salamaleque exagerado e cheio de graça com o braço seguido de um sorriso e sentou-se. A função então automática mantinha-se, a água ainda ebulicionava a cada mãozada de comida. Então, acompanhado do amigo, podia me prestar novamente ao pensamento. Demo-nos à conversa, nada muito, apenas assuntos triviais do dia-a-dia, coisas particulares e sem apresentarem qualquer importância para serem comentadas em profundidade. Não contei da alucinante experiência por que passei, imaginei que tivesse apenas imaginado, então a segredei para mim. Olhava os peixes e pensava em como eram rápidos, genuinamente aquáticos. Foi quando o Nic, assim se chamava o meu mais novo acompanhante, que já observava a cena junto de mim, disse sem titubeios: “- Olha só como as tartarugas são lerdas, não pegam um pedacinho de bolacha sequer!”. Aí deu-se o estalo! “- As tartarugas são lerdas...? Mas não são os peixes que são rápidos?!”, me perguntei em pensamento e não obtive resposta. Enquanto isso, o Guarda-Rios continuava realizando seus rasantes e mergulhos de caça, vez ou outra surpreendendo Nic e a mim em susto, pelo soar que efetivava. Perguntei ao Nic o porquê de ele achar as tartarugas lentas, ele respondeu peremptório e com segurança: “- É porque elas são um meio termo entre água e terra. Não são nem aquáticas e nem terrestres, são aquático-terrestres, e isso é tudo!”. Pensei: “- Céus!”. Era sutil, era mal fundamentado, era muito menos que empírico, mas ele tinha razão. Os peixes tinham a suas vidas circunscritas ao interior das margens daquele lago, facilmente contornáveis pelos meus passos de andante. Enquanto as tartarugas podiam ir além dá água, e também podiam contornar o lago, mesmo que através de esforço hercúleo. Para elas, comer, ali naquele momento, não era uma questão fundamental de sobrevivência, elas podiam buscar alimento além da água, mas os peixes não.
Na minha comparação daquele ciclo, os peixes eram os mais limitados. Toda a sua realidade era limitada até onde ia a água. Já as tartarugas, embora vagarosas, ou talvez por isso mesmo, viviam em ambos os mundos, tanto no aquático como no terrestre e ainda conheciam os aéreos. O Guarda-Rios encarnava os três aspectos, era, obviamente, aéreo, pois a cada minuto pousava no sumo de uma árvore diferente para avalizar o lago e as suas presas possíveis. Mergulhava com eficácia todas as vezes, vinha à tona sempre com um pequeno peixe em bico, e então pousava às margens para a deglutição. Mesmo embora tanto, com três distintas características, ele não era muito, era, simplesmente, como o peixe e a tartaruga, cada qual com uma realidade mais expandida que o outro, mas todos iguais. Quanto a Nic e a mim, éramos puramente terrestres, mas nos sabíamos vindos da água e também além dos céus, para onde já voltamos algumas vezes. Sabíamo-nos mais que peixes, mesmo embora perecêssemos debaixo d’água. Sabíamo-nos mais que tartarugas, mesmo embora puramente terrestres. Sabíamo-nos mais que um Guarda-Rios, mesmo embora, desde sempre, seja o maior sonho do homem voar. Sabíamo-nos mais que tudo aquilo, mesmo embora nos faltasse muito.
“- Acabou as bolachas” disse para o Nic, ele respondeu “- Ótimo! Estamos atrasados!”. Ele se levantou, uma tartaruga veio à terra, o Guarda-Rios deu seu último mergulho. Nic estendeu a mão em minha direção oferecendo ajuda para eu me erguer, aceitei. Os dois em pé e a tartaruga correu para a água. O Martim-Pescador já havia desaparecido. Caminhando então para o nosso destino já sabido, Nic e eu conversávamos inocentemente sobre o futuro.