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Marizete,
ontem eu te pedi para voltar e você não ouviu. Sabe por quê? É porque eu esperei você sair, entrar no carro e dirigir por quatro quarteirões. Esperei você parar naquele sinal vermelho que demora demais, ligar o rádio e escutar uma música animada. Inclusive, acho que era funk, afinal das sete até às oito é a hora do funk na sua estação preferida. Enquanto isso, estava em casa aproximando o sofá marrom da janela para sentir a brisa gelada me tocar. Mas, a brisa estava quente e o sofá desconfortável. Totalmente fora do comum para uma segunda-feira à noite. Foi aí que percebi que tudo estava errado e afundei um pouco mais no estofado desconfortável, tentei sumir. Meu peito subitamente estava pesado demais e minha visão escureceu na periferia. Tudo ficou turvo e comecei a chorar, tentando consertar as coisas. Praguejei para a televisão desligada o quanto eu te queria de volta. Olhei para o celular e pensei em tomar coragem e fazer a ligação que talvez fosse a mais importante da minha vida. A ligação que, talvez, pudesse consertar a noite. Mas, joguei o celular pela janela. Mil e quatrocentos reais que ainda nem estavam totalmente pagos voaram pela minha janela, mas não me arrependi. Quando joguei aquele celular pela janela, tentei, na verdade, me livrar de toda a dor que sua partida estava me causando. Tentei arrancar do meu peito todos os sentimentos sufocantes e transferir via bluetooth para a memória interna do telefone, destruir tudo durante a queda. Mas, não funcionou. Continuei sentado no sofá, sentindo uma brisa quente no rosto e um peso descomunal no peito. Minha camisa estava molhada, minha conta do cartão de crédito iria aumentar um pouco mais e você estava no seu carro, ouvindo funk. Provavelmente dançando. E, bom, eu te pedi para voltar das formas mais intensas que consegui pensar durante aquele momento de desespero, mas nenhuma delas chegaria ao seu conhecimento.
Mari && Benjamin in ‘I love Paraisopolis’
Não é assim, Marizete.
Você não pode carregar o mundo nos ombros, nem no coração. Não é todo mundo que dá bom dia que quer teu bem. Então, para de colocar sentimento onde você só acha cordialidade. Uma relação é uma ponte, Marizete, que une duas vidas por algum motivo. E, assim como as pontes não se sustentam só com um pilar, uma relação não dá certo só com uma pessoa se entregando. O que faz a base, Marizete, é a reciprocidade.
Se amarra, Marizete,
que não adianta falar com ele. Quando um não quer, dois não conversam. Dois não ficam juntos. Não existe dois, Marizete.
Desarma, Marizete,
porque não é todo mundo que quer te fazer mal. Sei que você já tropeçou em um monte de gente mau caráter nessa vida, mas existem algumas pessoas que valem a pena. Ou melhor, valem a ave toda. Então, desarma, Marizete, porque ninguém é feliz sozinho.
Cuidado, Marizete
O abraço que te conforta é o mesmo que pode te sufocar.