˛ ⠀ ⠀ * ⠀ ⠀ 𝐌𝐈𝐑𝐑𝐎𝐑 𝐎𝐅 𝐄𝐑𝐈𝐒𝐄𝐃 〳 𝐓𝐀𝐒𝐊 𝟎𝟏 ˛
erised stra ehru oyt ube cafru oyt on wohsi .
Desde sua infância, Severus sempre teve medo do bicho-papão — para que não saísse na rua durante a noite, Tobias gostava de aterrorizá-lo com a ideia de que, caso aprontasse, um monstro assustador o pegaria para si. E, pelas barbas de Merlin, ele morria de medo. Quando cresceu, entendeu quê não existia nenhum bicho aterrorizante, mas sim, pessoas tão aterrorizantes quanto qualquer história de terror; seu pai era aterrorizante. Em Hogwarts, seu bicho-papão nunca chegou a se materializar na sua frente. Deveria tê-lo enfrentado em uma das aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas, mas nunca o fez, fugiu, como um covarde; naquele fatídico dia, o rapaz fingira estar doente e, comprometido com a própria mentira, bebericara de inúmeras poções achadiças. Embora ele fosse um tanto imprevisível, a imprevisibilidade também o assustava. O quê seria seu bicho-papão? James e seus amigos lhe pendurando pelas pernas no meio do saguão? Ou seria Lily Evans morta? Ou, simplesmente, o seu pai. De qualquer maneira, Severus jamais se colocaria em um lugar como aquele, não viraria piada na frente de uma classe inteira, não mais.
Hoje em dia, já não pensa mais assim. Talvez seu bicho-papão fosse o Espelho de Osejed; um desejo tão profundo que o aterrorizaria para sempre. Nunca foi um menino de muitos desejos, seus pais fizeram questão de esmagar suas esperanças de um futuro melhor — então, tristemente, nunca foi sonhador. Também supunha a respeito do quê apareceria no tão magnífico espelho. Com sorte, seria ele, morto. E, supondo que não quisesse morrer tanto assim, o espelho o mostraria os marotos, também mortos. Ou não, quem sabe o mostrasse abraçando a ex-melhor amiga? Eram tantas suposições que sua cabeça chegava a doer.
Quando parou de frente para o espelho, cabelos bagunçados, olheiras escuras debaixo dos olhos e roupas meio amassadas, Snape quis correr para longe, correr até acabar o ar de seus pulmões, correr até desmaiar de cansaço. Mas, não pode, não conseguiu. Suas pernas pareciam blocos de tijolo, duras e imóveis. Caso algo ou alguém o atacasse, ele estaria ferrado. Fechou os olhos com força, evitando qualquer coisa que pudesse aparecer naquele objeto mágico. O pior de tudo era: Severus já havia encarado muita coisa pior do quê um espelhinho estúpido.
Em uma súbita coragem, o rapaz abriu os olhos. E lá estava seu mais profundo desejo.
Snape, criança, com seus longos cabelos — que haviam sido cortados anos depois por conta de piadinhas infelizes — e um belíssimo sorriso no rosto e roupas enlameadas. Atrás da criança, ele conseguia ver um cenário aconchegante; grama bem verde, árvores grandes e saudáveis, algumas borboletas voando por todas as direções. E, do seu lado, uma menininha ruiva que tão bem conhecia, rindo, com as roupas também enlameadas.
Não soube dizer se seu maior desejo era a amizade de Lily ou, de uma forma intragável, dizer que seu maior desejo era voltar no tempo, viver novamente os anos em que foi mais alegre. Despido de palavras e apenas com início de lágrimas nos olhos, Severus precisou dar as costas ao espelho e respirar profundamente, enquanto aguentava aquele soco no estômago.
Sentiu ódio, raiva, de si mesmo, de Lily, dos pais, de Hogwarts, do mundo.






