Um sábio disse uma vez que as lágrimas são as súplicas da alma. Nossas lágrimas podem esconder inúmeras histórias, não importa se sejam elas felizes ou tristes. Um coração machucado traz consigo um imenso conto; reconstruí-lo é algo impossível. A vida pode ensinar para um ser humano que ela é dura da pior maneira possível. Para Regulus, isso estava claro. No final das contas, todos nós somos um emaranhado de fios, buscando um sentido para a conexão de todos eles enquanto vamos desfiando pouco a pouco. Os fios mais frágeis vão se desgastando, se partindo com o tempo, até que reste apenas o mais firme. Porém, mesmo o fio mais firme se parte, lembrando que nós somos duráveis, não eternos. É a lei da natureza, os materiais, mesmo os orgânicos, gastam, acabam no prazo de validade, afinal, tudo tem o seu tempo.
No entanto, há um fator extrínseco ao “prazo de validade” dos fios, chama-se acaso. O acaso pode interferir de várias formas, pode acelerar o desgaste dos fios, ou pode rompê-los todos de uma vez, mas, a parte mais triste é ser obrigado a assistir eles se romperem lentamente, porém, em uma velocidade maior do que deveria. Queria que existisse um modo de desacelerar o desgaste, queria que o acaso não alcançasse ninguém e assim, ainda haveria esperança no meio tempo que os fios suportam, queria que ninguém tivesse de presenciar o momento do acaso onde os fios começam a se partir sem previsão, queria Merlin, que a história de Regulus não tivesse se complicado tanto.
Uma porta no corredor vazio foi avistada através de suas lágrimas e o garoto apenas entrou ali, encostando suas costas na superfície de madeira assim que a fechou quando viu-se na parte de dentro. Os soluços finalmente interromperam seus lábios e escaparam mais livremente. A dor que sentia no peito parecia tornar tudo difícil de respirar. Não sabia quanto tempo ficou ali chorando apenas deixando toda dor vazar através de seus olhos, apenas sentado no chão com o rosto escondido nos joelhos já que abraçava as pernas contra o peito. Sua cabeça doía, os olhos pareciam latejar e o nariz entupido dificultava a respiração. Mas Regulus finalmente notou algo estranho na sala. Havia um espelho no canto da parede. Finalmente dava uma olhada curiosa ao redor do ambiente apenas para ver móveis antigos empoeirados, alguns cobertos com lençóis brancos e outros apenas… quebrados, o que se identificava bastante com esses. Mas seu foco era no espelho que estava mais adiante, para sair dali, afinal, precisava ver se seu rosto estava muito ruim, se a expressão em sua face denunciava o quanto tinha chorado.
Tomando uma respiração profunda, aproximou-se do espelho na intenção de arrumar seus cabelos e limpar um pouco a face, tornar-se mais apresentável antes de ir para o dormitório. Mas ora, dizer que Regulus se assustou com a imagem que viu ali seria o eufemismo do século. Em questão de segundos, não era apenas a sua imagem desgrenhada que encarava, mas sim a figura esguia de Sirius atrás de si. Assustado e com medo de ter sido pego pelo irmão, olhou para trás. A sala estava vazia. No espelho, porém, ao retornar seu olhar, Sirius sorria. Aquele sorriso que ele costumava dar para os amigos após alguma brincadeira aleatória que Regulus observava silenciosamente de sua mesa. O sorriso que o irmão costumava lhe dar quando era menor. Sentiu seus olhos mais uma vez se encherem de lágrimas, mas teve sua surpresa renovada quando olhou para si mesmo e… viu-se mais jovem. O espelho não parecia estar mais refletindo o garoto quebrado, com o rosto manchado pelas lágrimas, vermelho de tanto chorar. Não. Havia sua versão mais jovem, a de quando olhar para o céu e procurar a constelação da estrela do irmão e em seguida a da sua… era sua única preocupação. A versão que tinha tudo, que tinha felicidade, um melhor amigo, um pai e uma mãe que não eram tão ruins. Ah, a saudade.
Regulus sentou-se à frente do espelho para admirar as imagens dos jovens garotos Black sorrindo um para o outro como se tivessem acabado de descobrir algo novo na casa gigantesca e tão vazia que viviam. Via em seu olhar a admiração, o amor, o deslumbre pela figura mais velha que… olhava para si da mesma forma. A figura dos pais mais atrás observando os dois garotinhos em nada se pareciam com as pessoas que conhecia agora. Walburga e Orion não tinham de fato mudado, eles provavelmente eram pessoas tão cruéis e ruins naquela época como eram agora… mas aquele Regulus? Ora, ele não enxergava isso como fazia atualmente. Haviam momentos ruins, apenas isso. Agora, tudo se resumia a isso, não foi ao acaso que seus pais passaram a ser vistos como verdadeiramente eram. Não foi ao acaso que perdeu o irmão. As lágrimas voltaram a cair pois o que havia em seu coração era o desejo não apenas de ter aquilo novamente, sabia que isso não era possível, estava muito danificado para exibir uma despreocupação daquela em sua face; mas o desejo de ser aquela criança novamente.
Deixou novamente que as lágrimas caíssem pelos seus olhos azuis, molhando sua pele pálida. Um grito rouco, doloroso foi solto, quebrando o silêncio da sala em uma tentativa falha de colocar para fora sua frustração e toda a dor.
Mas o que Regulus poderia fazer? No final das contas, todos nós somos um emaranhado de fios tentando desembaralhar as coisas que formam nossa mente. Acaso… é uma palavra engraçada; Amor, por sua vez, é uma que pode trazer dor. Mas ambos andam juntos, um ao lado do outro. Queria correr e gritar, queria consertar tudo o que acontecera, queria só uma estrela cadente para fazer tudo ficar bem, para consertar aquele emaranhado de fios que, aos poucos, foi sendo desfiado e levou para longe de si o que seu coração deseja. Sua família.
Essa foi a primeira e única vez que Regulus encontrou tanto a sala em questão, quanto o espelho. Não precisava mais saber o que havia em seu coração pois assustou-se com a verdade na primeira vez que encarou o reflexo do que havia dentro de si.
° · I GOT EVERYTHING I WANTED · — { TASK: MIRROR OF ERISED.
A primeira vez que encontra o espelho é aos 12 anos. No ápice de sua arrogância, quando ainda pensa ser DONO DO MUNDO. (trigger warning: menção/alusão a negligência parental)
I HAD A DREAM I GOT EVERYTHING I WANTED
Acontece sem querer, quando está se escondendo após uma travessura. Perseguido por Filch, Sirius se separa dos amigos, encontrando esconderijo numa sala com mesas e cadeiras empilhadas ao lado dum quadro negro empoeirado. Mas não são os utensílios escolares que chamam-lhe a atenção — na outra extremidade, banhado pelo luar, está um enorme espelho emoldurado em ouro. O objeto o lembra os que decoram o parlor de sua casa: alto, com detalhes elegantes e marcado pelas eras. Não conseguia imaginar porquê alguém o deixaria num local como aquele. Inspeciona a inscrição na parte superior: erised stra ehru oyt ube cafru oyt on wohsi. Semicerra os olhos, pendendo a cabeça para o lado. I show not your face, but your heart's desire. Bufa em escárnio. Encravar uma frase ao contrário num espelho não era o ato poético que seus criadores provavelmente haviam pensado ser. Em fato, era um tanto patético. Poderiam ter, ao menos, usado latim, como nas inscrições das molduras de seus ancestrais, ou francês, como nas caixas de rapé de sua mãe.
De onde estava, não conseguia ver seu reflexo. Os desejos de seu coração, pois bem. Não pensa duas vezes antes de se aproximar. Estava acostumado com objetos enfeitiçados — sua casa possuía uma dezena deles que datavam séculos. Logo, não se surpreende quando, em vez de encontrar o reflexo, se vê uns anos mais velho, trajando um belíssimo casaco de lã batida em verde escuro e o enorme anel com o emblema dos Black no indicador direito; seus amigos também estão ali, os outros três tão BEM-SUCEDIDOS quanto o próprio. Obviamente continua deveras bonito, os cabelos penteados para trás e um sorriso charmoso. Seu desejo e ambição mais profunda, sim: continuar o legado de sua família, tornar-se um bruxo influente. Sua mãe sempre o dissera que, sendo dinheiro antigo e uma linhagem nobre, não precisavam se importar com carreiras ou cargos no ministério, apenas com conexões, dinheiro e influência. Independente da casa que estivesse ou os amigos que fizesse, se tornaria o que fora criado para ser. Ainda melhor.
I HAD A DREAM I GOT EVERYTHING I WANTED; NOT WHAT YOU'D THINK.
A segunda vez que encontra o espelho é numa madrugada quando os sons de seu walkman não são o suficiente para acalmar os ânimos. É a última semana de aula de seu QUINTO ANO, e não consegue suportar a ansiedade que o toma ao pensar em retornar para casa. Retornara do natal para a casa dos Potter com tantas cicatrizes que fora impossível escondê-las. “Eu as chamo de cicatrizes de batalha.” Dissera frente os olhares espantados, se forçando a sorrir; agradecera quando nenhum de seus amigos insistira no assunto. Era fácil ignorar seus problemas quando se aventurava nos Potter, se afogar nos mimos de Euphemia e Fleamont. “Traidor do sangue, abominação, vergonha do meu sangue”. Entre os Potter, não era nenhum deles — apenas Sirius com uma jaqueta legal. E não desejava por outra coisa.
Desliza para fora do salão comunal com passos rápidos e silenciosos, deixando a memória o guiar sob o brilho fraco das tocheiras. Em sua agitação, esquecera-se de se apossar do mapa e quando está se esquivando pelos corredores depara-se com Madame Nora. A gatinha mia impertinentemente, e Sirius sabe que não demorará para Filch aparecer — é nesse momento que uma porta se materializa alguns passos à sua frente e o garoto lembra-se de mostrar a língua ao felino antes de se esconder na Sala Precisa. Mas o quarto não somente o resgatara, mas atendera seus anseios: no meio do cômodo está o enorme espelho. Apesar dos feixes do luar iluminando o espelho, não há janelas aparentes; estão somente ele e o objeto ali.
Umedece os lábios e se aproxima com passos morosos, as mãos descansando ao lado do corpo. Não consegue segurar a gargalhada cínica que deixa seus lábios, ou impedir a leve tremedeira de seus dedos. O reflexo mostra-o alguns anos mais novo, os cabelos bem arrumados para trás e um sorriso esbanjando arrogância. É acompanhado de outras três figuras. Walburga com seu elegante vestido branco de organdi com detalhes de renda, uma herança da era Eduardiana bem mantida; Orion com seu casaco verde escuro, frouxamente ajustado; e Regulus, em seus meros dez anos, os olhos azuis claros ainda cheios de brilho, trajando as roupas escolhidas pela matriarca. Fantasmas de seu aniversário de onze anos — a última vez que lembra-se de ter visto o sorriso modesto de sua mãe. Aquela versão de sua família existia apenas em suas memórias. Passara anos engodando a si mesmo, desesperadamente se apegando à fantasmas. Preso num momento perdido no fluxo do tempo. Não era fácil viver em ignorância nos Potter; era conveniente. Os Potter o haviam tomado como segundo filho há muitos anos, preenchendo os espaços vazios sobre móveis com fotografias que aconchegavam sua figura entre eles. Como um feitiço, deixava a afabilidade das xícaras de chocolate quente e as risadas em volta do crepitar da lareira abafar os gritos desesperados de seu coração. A necessidade insaciável duma criança perdida em querer ser amada. “Maybe I’m not build for love” Sussurra uma vez.
Se agacha, encarando os próprios olhos cinzas como a prata que adornava as paredes daquela casa desgastada. “Quando você vai crescer?”
IF I KNEW IT ALL THEN, WOULD I DO IT AGAIN?
Costumavam ser próximos, ele e Walburga — chamá-la de mãe se tornara estranho e amargo mesmo em seus pensamentos. Costumava sentar no piano, tocando as partituras favoritas da mulher enquanto essa bordava. Por vezes adicionaria notas ou inventaria palavras numa música somente para fazê-la sorrir, e ela o repreenderia em tons suaves, o dando um afago na cabeleira escura (antes de exigir que recomeçasse a sessão, dessa vez sem gracinhas). A contaria os sussurros que ouvia durante as reuniões familiares, a deixando à par dos segredos de convidados importantes. Costumava sentar na cadeira de Orion em seu escritório, ouvindo as lições sobre seus ancestrais e aprendendo sobre feitiços que os manteriam seguros. Pediria ao alfaiate para costurar miniaturas dos casacos do homem. Mas aprende sobre amor quando segura Regulus em seus braços pela primeira vez. Ele mesmo era um bebê na época, sentado no colo de Walburga na cama, e o recém-nascido ajeitado em seus braços pelos adultos. Quando os olhos cor de vidro o encaram, aquele ser tão pequenininho e indefeso, jura nunca deixar nada acontecer com ele — teria feito um voto perpétuo se soubesse o quê era. Sorriria largamente enquanto ouvia Regulus o contar sobre as estrelas e aprenderia coisas difíceis somente para contar ao irmão, o ensinar. Sempre gostara de ser elogiado, que dependessem dele; o centro das atenções.
Desde que entende-se por gente é colocado num pedestal. Um principezinho em seu palácio, apontando o dedo e exigindo o quê queria; mas se aventurara no desconhecido, para além dos muros que o aconchegavam e a crença em sua grandeza o levara à acreditar que podia mudar o mundo. E qual criança pensaria o contrário? Mesmo quando as paredes daquela casa perderam sua quentura, quando as palavras tornaram-se álgidas, se recusara a aceitar a verdade. Barganhara com sua própria vida, vivendo em meias verdades, enxergando as atitudes dos progenitores com lentes cor-de-rosa e culpando suas próprias atitudes, colocando e se em seus pensamentos e medindo suas falas. Teimosia, rebeldia, bravura — no fim, a cólera que prosseguira fora nada além de birras de criança, uma revolta oriunda do ressentimento que se formava em seu coração. As paredes estavam queimando e suas amarras se desmanchando. Queria acreditar que era o revolucionário que ousara contrariar as tradições antiquadas da classe a qual pertencia; mas a verdade era menos ornamentada. As injúrias ecoam pelas paredes esverdeadas, e a maldição destrói a última linha segurando a frágil tela que se tornou — mas se recusa a implorar misericórdia. As palavras haviam sido trocadas, e as feridas estavam abertas: não importava quanto almejasse pelos reflexos dum espelho velho, suas mãos estavam atadas. Não podia salvá-los, queria amá-los mas não podia. Talvez estivesse fadado a almejar as coisas que não podia ter; esfomear em sua ganância por um tempo que se passara; morrer em sua sede de simpatia. Eles haviam montado a guilhotina, mas não morreria no desespero dum amor que não poderia ter.
Quando se arrasta pelas ruas de Belgravia até Lambeth Bridge, encontra refúgio sob a passagem ao lado da escadaria. o vento álgido e salgado do Tâmisa surrupiando os sons de suas lamúrias. Despido da inocência de sua juventude e de orgulho estilhaçado, apenas o medo o envolta na escuridão. “My dear, você esquece quantos anos tem.” Tio Alphard havia o dito uma vez. “Uma criança com mais responsabilidade que deveria ter.”
Aprendera sobre cada detalhe daquela casa. As maçanetas de serpente em honra a Salazar Slytherin; os ornamentos de gesso e porcelanas com o emblema da família; cada um dos nomes e rostos exibidos na tapeçaria bordada em fios de ouro. Costumava ter o maior quarto na casa, com uma vista sobrepondo Grosvenor Gardens. Agora, todos os pertences alojavam menos da metade do quarto de James — e jamais se arrependeria. Aceitara ter agido por aqueles que amava e que o amavam de volta. Se desfizera de seus fantasmas. As angústias que ainda o atormentam não são pela vida que abandonou. Na amargura, tornara-se apenas metade da pessoa que costumava ser: perdera aquele que o ensinara a amar, a única pessoa que jurara nunca machucar. Em sua ânsia em proteger Regulus e delírios dum refúgio, acabara o deixando para trás; se soubesse exatamente onde errara, se soubesse as palavras certas que o fariam entender, barganharia uma vez mais com sua própria vida.
A terceira vez em que encontra o espelho é na sala de aula inutilizada. E apesar das nuvens encobrirem o luar, desprovendo o cômodo de luz, sabe que o objeto está lá. A tentação de encará-lo uma vez mais é alucinante — esgotaria suas dúvidas e pavores ou se deleitaria, uma última vez, numa ilusão. Mas nenhum bem qualquer uma das opções o faria. Estava começando a coletar os pedaços de quem era. Conhecia os desejos profundos de seu coração, os encava todas as noites em seus pesadelos e sonhos. Mas aprendera a abrir mão de seus almejos, abandonar os anseios pela realidade crua. Talvez nunca conseguisse o quê desejava, mas sempre teria o quê precisava. E isso era o suficiente.
Desde sua infância, Severus sempre teve medo do bicho-papão — para que não saísse na rua durante a noite, Tobias gostava de aterrorizá-lo com a ideia de que, caso aprontasse, um monstro assustador o pegaria para si. E, pelas barbas de Merlin, ele morria de medo. Quando cresceu, entendeu quê não existia nenhum bicho aterrorizante, mas sim, pessoas tão aterrorizantes quanto qualquer história de terror; seu pai era aterrorizante. Em Hogwarts, seu bicho-papão nunca chegou a se materializar na sua frente. Deveria tê-lo enfrentado em uma das aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas, mas nunca o fez, fugiu, como um covarde; naquele fatídico dia, o rapaz fingira estar doente e, comprometido com a própria mentira, bebericara de inúmeras poções achadiças. Embora ele fosse um tanto imprevisível, a imprevisibilidade também o assustava. O quê seria seu bicho-papão? James e seus amigos lhe pendurando pelas pernas no meio do saguão? Ou seria Lily Evans morta? Ou, simplesmente, o seu pai. De qualquer maneira, Severus jamais se colocaria em um lugar como aquele, não viraria piada na frente de uma classe inteira, não mais.
Hoje em dia, já não pensa mais assim. Talvez seu bicho-papão fosse o Espelho de Osejed; um desejo tão profundo que o aterrorizaria para sempre. Nunca foi um menino de muitos desejos, seus pais fizeram questão de esmagar suas esperanças de um futuro melhor — então, tristemente, nunca foi sonhador. Também supunha a respeito do quê apareceria no tão magnífico espelho. Com sorte, seria ele, morto. E, supondo que não quisesse morrer tanto assim, o espelho o mostraria os marotos, também mortos. Ou não, quem sabe o mostrasse abraçando a ex-melhor amiga? Eram tantas suposições que sua cabeça chegava a doer.
Quando parou de frente para o espelho, cabelos bagunçados, olheiras escuras debaixo dos olhos e roupas meio amassadas, Snape quis correr para longe, correr até acabar o ar de seus pulmões, correr até desmaiar de cansaço. Mas, não pode, não conseguiu. Suas pernas pareciam blocos de tijolo, duras e imóveis. Caso algo ou alguém o atacasse, ele estaria ferrado. Fechou os olhos com força, evitando qualquer coisa que pudesse aparecer naquele objeto mágico. O pior de tudo era: Severus já havia encarado muita coisa pior do quê um espelhinho estúpido.
Em uma súbita coragem, o rapaz abriu os olhos. E lá estava seu mais profundo desejo.
Snape, criança, com seus longos cabelos — que haviam sido cortados anos depois por conta de piadinhas infelizes — e um belíssimo sorriso no rosto e roupas enlameadas. Atrás da criança, ele conseguia ver um cenário aconchegante; grama bem verde, árvores grandes e saudáveis, algumas borboletas voando por todas as direções. E, do seu lado, uma menininha ruiva que tão bem conhecia, rindo, com as roupas também enlameadas.
Não soube dizer se seu maior desejo era a amizade de Lily ou, de uma forma intragável, dizer que seu maior desejo era voltar no tempo, viver novamente os anos em que foi mais alegre. Despido de palavras e apenas com início de lágrimas nos olhos, Severus precisou dar as costas ao espelho e respirar profundamente, enquanto aguentava aquele soco no estômago.
Sentiu ódio, raiva, de si mesmo, de Lily, dos pais, de Hogwarts, do mundo.