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Smoking.
Ele estava fumando o último cigarro mentolado, olhando pela janela.
Estou parando de fumar, pensava enquanto tragava mais fumaça cheia de nicotina. Da janela do apartamento ele conseguia ter uma panorâmica perfeita da cidade e, por isso, não conseguia olhar para dentro, para o quarto vazio com a cama desarrumada e os lençóis ao chão junto com uns estilhaços de alguma coisa que um dia foi inteira. Para que olhar para o vazio quando se pode olhar o tudo?
Apesar de olhar o mundo, esse não olhava para ele. Era cego e surdo para aqueles que gritam na escuridão. E esses olhos não importavam. Os que ele queria deixou em lágrimas e partiram para a rua, sozinhos.
Ele via pela janela a silhueta que carregava os olhos, castanhos, que carregavam o seu mundo. Ela só sabe reclamar, diz que não paro de fumar, que não faço nada certo, que já está cansada… de mim. No seu peito e no chão, os estilhaços fatais do seu último coração, de vidro, cintilavam friamente sob a luz do luar e dos postes de luz.
Um som, um motor. Era o ônibus se aproximando, parando no ponto, levando seu mundo, seu tudo para longe da sua vista panorâmica, para longe. Deixando-o sozinho, no vazio, num quarto vazio, num mundo vazio.
Estou parando de fumar, meu bem, pensava enquanto tragava mais uma vez o último cigarro mentolado. Mas já era tarde demais.
- Ana Suelen