[Texto publicado na Revista da GOL em fevereiro de 2024]
Enquanto a venda de livros aumenta e as grandes livrarias fecham as portas, a gente se pergunta quais os novos caminhos da indústria editorial. Entre clubes de assinaturas e espaços especializados, uma coisa é certa: a curadoria personalizada nunca esteve tão em alta
“Quero um livro que conte a história de alguém que saiu do nada e conquistou tudo”, pediu o homem. Pensando em algumas biografias com esse tipo de narrativa, as livreiras sugeriram “Esforços olímpicos”, em que a autora Anelise Chen narra a trajetória de uma imigrante taiwanesa que usa o esporte como metáfora para refletir o que é vencer e o que significa desistir. “Gostei, vou levar”, disse, satisfeito, o leitor, passeando entre as prateleiras dedicadas a Oriente Médio, Ásia e Imigrantes deslocados da livraria Aigo, inaugurada no fim de julho em São Paulo. Se tivesse sido aberta há cinco anos, dizem as proprietárias, teria sido ainda mais desafiador encher as seções com a curadoria atual. Boa parte do acervo da loja, que se define como migrante diaspórica, é de livros lançados recentemente.
“Só para ficar em um exemplo, ‘A vegetariana’ (Todavia), da coreana Han Kang, que ganhou o Man Booker International Prize, um importante prêmio literário internacional, em 2016, foi provavelmente o primeiro livro coreano traduzido para o português que nós lemos. A partir de leituras como essa a gente pôde se reconectar com um país que apenas conhecíamos de segunda mão”, diz Agatha Kim, 38 anos, sócia da Aigo ao lado de Yara Hwang, 37, e de Paulina Cho, 32. Filhas de imigrantes coreanos, as três cresceram no Bom Retiro, deixaram o bairro e agora retornam ao local para ressignificar a relação com as suas origens e empreender, apostando na curadoria cada vez mais especializada e no atendimento ainda mais próximo do leitor. Por todo o espaço, há cartões escritos à mão pela equipe e por visitantes da vizinhança com indicações de leitura, uma prática comum em livrarias de bairro em outros países.
“Ler nos coloca em contato com a vida íntima daqueles que seriam nossos conterrâneos, vizinhos e amigos se nossas famílias não tivessem emigrado. E nos faz querer que mais pessoas tenham essa experiência”, continua Agatha, que, assim como Yara e Paulina, não era do mercado editorial e deixou um emprego na área de publicidade para cuidar do novo negócio. Elas também estão aos poucos trazendo livros em outros idiomas para suas prateleiras, para ampliar o acesso a quem não tem o português como primeira língua. “A ideia é expandir as narrativas literárias”, contam as sócias, que costumam receber pessoas de todos os lugares do Brasil e de fora, principalmente aos sábados, quando o movimento é maior. As estudantes Ana Paula Jacobson, 25 anos, e Giovanna Pires, 26, de São Paulo, aproveitaram o fim de semana para conhecer a livraria e aprovaram a visita. “Amei a experiência. O espaço passa uma sensação muito afetiva, é possível sentir o esforço que fazem para se conectar com a comunidade local de leitores e receber as pessoas”, diz Giovanna, que levou três publicações para casa. Ana Paula, que nunca tinha estado em uma livraria independente antes, comprou dois títulos por indicação das sócias.
A livraria de 60 m² fica no Centro Comercial do Bom Retiro, uma galeria com projeto do arquiteto polonês Lucjan Korngold inaugurada na década de 1960 onde estão instalados cafés, salões de cabeleireiro, brechós e restaurantes como o Prato Grego. Muita gente acaba passando por lá rumo à Feira do Bom Retiro ou incentivada pela cultura do k-pop. Para André Conti, editor e sócio da Todavia, esse movimento faz parte de uma tendência mais geral da indústria do livro no Brasil. “No caso de autoras e autores coreanos, temos visto a popularização dessa cultura por aqui, seja pela música, pelos doramas [espécie de novela], por onde for, então é natural que se publique também a literatura daquele país”, diz ele, lembrando que outras editoras vinham fazendo isso anteriormente – o próprio "A Vegetariana" teve uma edição pela Devir.
Assim como as donas da Aigo, o advogado Leo Wojdyslawsk, 50 anos, também contou com uma consultoria especializada antes de ingressar no mercado editorial e apostou em um local emblemático para abrir, em dezembro de 2022, a Eiffel, que ocupa uma loja térrea no prédio de mesmo nome assinado por Oscar Niemeyer na Praça da República, região central da capital paulista. Acostumado a frequentar o edifício, sonhava ver ali uma livraria independente focada em arquitetura, urbanismo, design e paisagismo, até que decidiu ele mesmo concretizar a ideia. “Liguei para vários clientes do mercado editorial para mapear o setor e muitos me deram força, mas outros disseram que eu não teria retorno. Não sei quem é mais meu amigo”, brinca Leo, que hoje reúne 4.500 títulos no acervo e enxerga o momento atual com otimismo. “A boa surpresa é que as pessoas estão voltando a ler sobre arquitetura e foi possível perceber que havia uma carência nesse nicho com o fechamento da livraria que funcionava dentro da sede do IAB/SP (Instituto de Arquitetos do Brasil), aqui no Centro.”
Mais do que um lugar onde se vendem livros, a livraria é um espaço de encontros, descobertas e de conexões reais entre as pessoas, algo que ficou ainda mais claro depois da pandemia do Coronavírus que afetou a economia de modo geral e manteve as lojas de portas fechadas por um longo período. Segundo uma pesquisa feita pela Nielsen Bookscan, conhecida como Painel do Varejo de Livros no Brasil, divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), houve um crescimento de 8,33% no faturamento do mercado editorial brasileiro em 2022, em comparação a 2021. Já um balanço divulgado pelo SNEL em setembro mostra que 2023 não foi um ano tão bom quanto o anterior, mas os números seguem animadores. Em 2022 houve um número alto tanto de faturamento quanto de volume de livros comercializados devido principalmente ao fenômeno dos álbuns de figurinha da Copa do Mundo. O 9º Painel do Varejo de Livros no Brasil de 2023 mostra um volume 16,96% menor e uma queda de 11,41% na arrecadação para o setor.
Mesmo diante dos obstáculos, os empresários do setor se mostram resilientes e permanecem investindo, o que tem colaborado com o aquecimento do mercado.
Desde o segundo semestre de 2021, as livrarias físicas estão se recuperando e voltando a crescer. Em 2022, foram inauguradas cerca de 100 novas livrarias no Brasil – no mesmo ano em que a Bienal Internacional do Livro de São Paulo bateu recorde de público, com mais de 660 mil pessoas. A Bienal do Rio, em 2023, reuniu mais de 600 mil pessoas que levaram para casa cerca de 5,5 milhões de livros, uma média de nove títulos por visitante, de acordo com a organização.
Isso mostra que, se o brasileiro passou a ler mais durante a pandemia, a tendência é que mantenha o hábito da leitura daqui para a frente.
Beneficiados com o isolamento e a consequente procura por mais livros, os clubes de assinatura tiveram um aumento significativo em seus números a partir de 2020. Um exemplo é a TAG, que chegou a dobrar de tamanho e alcançar quase 70 mil associados. Fundada em 2014, a empresa tinha 10 mil assinantes em 2016 e hoje conta com aproximadamente 30 mil leitores. Em quase uma década de funcionamento, já enviou mais de 3 milhões de caixinhas e passou recentemente por uma fusão, anunciada em agosto, com a Dois Pontos, criada em 2021 como a primeira livraria 100% virtual do Brasil, com forte presença em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte e 150 mil títulos em seu portfólio. “A estimativa, com a fusão, é de faturar entre R$ 45 milhões e R$ 50 milhões anualmente a partir de 2024”, afirma Rafaela Pechansky, publisher da TAG.
As últimas pesquisas de venda do setor editorial de 2022, promovida pelo SNEL, CBL e Nielsen, apontam para um aumento da participação das livrarias virtuais nas compras gerais de livros para o patamar de 35% do mercado. Foi a primeira vez que a venda por e-commerce ultrapassou a de livrarias físicas. “Sabemos que isso é reflexo da consolidação da Amazon como vendedora de livros no Brasil e que esse foi um movimento acelerado pela pandemia que preocupa o setor livreiro por conta da política de preços praticada por essas empresas, usando o livro como produto de entrada do cliente na plataforma”, analisa Ana Rocha, diretora de operações da TAG-Dois Pontos.
A desvalorização do produto livro para aquisição de clientes é uma prática que prejudica a saúde das livrarias. Ao mesmo tempo, continua Ana, no mesmo período, se observou nos grandes centros o nascimento de livrarias de rua com foco em atendimento ao leitor, qualidade de curadoria e cuidado com os espaços. “Há uma valorização desse serviço do livreiro e do cuidado que as livrarias dedicadas têm, muito diferente do que vemos nas lojas que vendem tudo onde o verdadeiro serviço oferecido é o de logística.”
O Brasil conta hoje com 2.972 livrarias físicas espalhadas pelos cinco cantos do país, de acordo com a 5ª edição do Anuário Nacional de Livrarias, lançado em agosto de 2023 pela Associação Nacional de Livrarias (ANL). No intervalo de uma década, entre 2013 e 2023, a queda no número de livrarias no país foi de 1,8%, um declínio considerado mínimo por Marcus Teles, presidente da ANL. De acordo com os dados do anuário, que tem por objetivo mapear a localização das livrarias e identificá-las, além de contribuir para ações empresariais futuras de investimento no setor livreiro, a região Sudeste lidera com 1.814 espaços, seguida por Sul (561), Nordeste (334), Centro-Oeste (165) e Norte (98). Foram considerados dados entre o segundo semestre de 2022 e o primeiro semestre de 2023 – desde então, houve uma movimentação no setor com a confirmação do decreto de falência da Livraria Cultura, a Saraiva fechando diversos endereços e a Travessa, com lojas no Rio e em SP, indo na direção contrária.
“Nos últimos dois anos abrimos cinco novas unidades, o que levou a um aumento significativo do faturamento. Fazendo um exercício de considerar apenas as unidades já existentes verificamos que os bons números de 2019 se mantiveram”, avalia Rui Campos, que fundou a Travessa em 1975. Segundo ele, de setembro de 2022 a setembro de 2023 a empresa vendeu 1,5 milhão de livros e teve um faturamento de R$ 110 milhões. “Assistimos a grandes mudanças no setor com o desaparecimento de empresas que se tornaram inviáveis por estratégias equivocadas e o surgimento ou crescimento de outras mais adaptáveis aos tempos atuais”, diz. “Todo esse poder de mobilização que o livro suscita nos alerta para operações de e-commerce que o utilizam para atrair novos clientes, mas que comprometem a sustentabilidade desse mercado que não pode prescindir das livrarias, que é onde o encontro entre o leitor e o livro se dá.”
Outro veterano do setor, Samuel Seibel, que fundou a Livraria da Vila em 1985 no bairro paulistano da Vila Madalena, relaciona a longevidade do negócio à experiência do cliente em loja. “Oferecer acolhimento ao leitor é o nosso dia a dia”, afirma. “Nos últimos anos, com a saída dessas empresas, vemos que um número razoável de novas livrarias de uma loja só, independentes, se espalharam, não só em São Paulo, mas em vários lugares. Elas já nascem com essa vocação natural – são pessoas que têm no livro uma paixão como nós temos, mas pensando em vender títulos só para mulheres, como a Gato Sem Rabo, por exemplo, pensando em um público mais específico. O que tem em comum hoje no mercado é isso, essa certeza de que o atendimento pessoal é fundamental no nosso setor.”
Referência em Porto Alegre quando se fala em livraria independente, a Baleia se especializou em temáticas de gênero, sexualidade e direitos humanos. Foi fundada em 2014 pela jornalista e produtora cultural catarinense Nanni Rios, que já havia trabalhado na Câmara Catarinense do Livro, atuando em feiras e eventos literários por todo o estado, e na gaúcha L&PM Editores, como editora de mídias sociais, e decidiu abrir um espaço que fosse “diferente das lojas convencionais”. “Queria algo como uma biblioteca de casa, sem o ar comercial das livrarias que eu conhecia”, conta. Saiu, então, em busca de móveis usados, sofás e tapetes, dispensou o balcão e criou um lugar totalmente voltado para as conversas sobre livros e o contato com autores e autoras. A livraria precisou se reinventar na pandemia e está sem sede fixa desde agosto de 2022, quando passou a funcionar dentro de um trailer. A previsão é inaugurar a loja nova, no Centro Histórico da capital gaúcha, em janeiro de 2024 e assim retomar o modelo de negócio original. “Foi o que sempre garantiu à Baleia o seu diferencial, que é estar conectada à produção literária contemporânea por meio de encontros e eventos na loja e fora dela”, diz Nanni, que, assim como tantos livreiros pelo país, continua investindo em curadoria especializada, clubes de leitura e na relação humanizada como principais estratégias – algo que o leitor sempre desejou e que agora finalmente está encontrando em muitas livrarias.