Do chão do metrô
Não estou seguro sobre minhas habilidades de descrever um ambiente. Compreendo que para o leitor é fundamental ambientar-se no espaço em que transcorre a história. Agora mesmo vos escrevo do chão do vagão do metrô, a essa hora da noite não há tanta gente voltando pra casa, mas também não há banco vago.
O chão não é muito confortável, é verdade, e certamente também não é o lugar mais limpo, mas já sentei em chãos piores. Não há muita gente de pé, de tal modo que não chego a ser um incomodo e pra atrapalhar ainda menos, me encontro na extremidade final do segundo vagão, alguns centímetros antes da intersecção móvel entre os vagões.
Essa área é boa para viajar sentado porque não é passagem pra porta e também porque os apoios para as mãos são poucos e mal posicionados; isso sem contar a plataforma móvel entre um vagão e outro, que proporciona uma verdadeira experiência de surf sobre trilhos. Ninguém quer estar aqui.
A perspectiva daqui de baixo não é lá uma maravilha, mas também não é desprovida de interesse. Com exceção dos que estão igualmente sentados, a vista padrão se manifesta em pé e pernas.
Se não resisto a curiosidade e sou impelido a conhecer a face do sapato que me intriga, ou da perna que me instiga, levanto ligeiro o olhar e logo deixou de estar oculto, torno a baixar a vista e retorno ao anonimato. Olhe pra cima no angulo errado e dará de cara com uma bunda. E que bunda farta e oprimida essa que encontrei nesse jeans tirânico. Constrangedor.
Voltando aos pés, me parece que cada um conta uma história. Acredito até que possa dizer muito sobre o dono, mas ainda não sou um especialista em sapatologia pós moderna e esse é só um devaneio biruta sem pretensões.
Você já foi julgado pelo seu sapato?












