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Milly Lacombe: "Futebol será o último lugar onde machismo vai acabar"
O futebol pelas lentes de gênero será o principal tema do próximo programa DR Com Demori, que recebe a colunista, comentarista e jornalista esportiva Milly Lacombe. Na entrevista, a escritora reflete sobre sua trajetória pessoal e profissional, fala sobre episódio que viveu de “cancelamento” nas redes sociais e comenta os desafios de ser mulher no universo do futebol – meio esportivo…
Patricia Abravanel ataca Fernanda Lima após críticas a Silvio Santos
Patricia Abravanel ataca Fernanda Lima após críticas a Silvio Santos
A apresentadora Fernanda Lima voltou a criticar Silvio Santos. Em sua conta no Instagram, ela reproduziu um trecho do texto de Milly Lacombe, publicado no jornal Folha de S. Paulo, em que a jornalista repreende o dono do SBT por seus recentes comentários machistas. Filha de Silvio Santos, Patricia Abravanel foi ao post e saiu em defesa do pai. “Nossa @fernandalimaoficial, estou com a maior…
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Reaprendendo a Andar
Bruna quer andar. Todos os dias, num esforço sem precedentes, tenta ficar de pé. Onze meses de vida e o invejável ímpeto de se apoiar nas próprias pernas e sair pelo mundo. Largada no sofá da sala, observo. Amparada por minha irmã, um passinho depois do outro, braços estendidos para cima a fim de obter das mãos da mãe o suporte necessário para o passeio ao redor da mesa, lá vai ela. "Onde Bruna quer ir? Para que a pressa?", penso, ainda catatônica, no sofá da sala. E imagino o dia em que Bruna andará para a escola, para o cinema, para a praia, para o mundo - por hora limitado pelas paredes de casa. Imagino o dia em que Bruna, sem lembrar dos suados e trêmulos passeios ao redor da mesa da sala, passará correndo pelos melhores anos da sua vida. Atrás de Bruna, para evitar contratempos, vai uma tribo. Todos preocupados com o inevitável tombo, que nunca é grande quando se tem cinquenta centímetros. Os grandes tombos estão reservados para depois de 1,60 metro. Alheia a tudo, Bruna para, escaneia o universo à sua volta, se esforça para ganhar um pouco de liberdade e, finalmente, andar. Mas, insegura e trêmula, não consegue soltar a mão da mãe. Temporariamente conformada, retoma a volta olímpica apoiada em seu adulto de segurança. E eu, do sofá, observo a aventura e penso que, na vida, talvez tenhamos que reaprender a andar mais vezes do que gostaríamos - e sem o adulto de conveniência indo atrás. Bruna, muito provavelmente, e por mais que projetamos, terá que, mais cedo do que tarde, também reaprender a andar. Penso na minha vida e vejo que tive que reaprender a andar quando, aos dezesseis anos, beijei outra mulher na boca e descobri que jamais seria feliz mentindo sobre minha sexualidade. O que eu entendia como certo passou a ser errado e meu mundo ficou de ponta-cabeça. Sozinha, me amparei na parede e, passo após passo, reaprendi a andar. Tive que reaprender a andar quando contei à minha mãe que era gay e a vi bater a porta e me negar por mais de quatro anos. E tive que reaprender a andar brutalmente quando meu pai morreu e levou com ele o que eu entendia por porto seguro. Mas, talvez de forma ainda mais cruel, tive que reaprender a andar depois de duas dolorosas separações, maiores dores da minha vida. Porque, ao contrário da morte, uma separação não nos faz enterrar ninguém. O verdadeiro amor não acaba, não se desintegra, não deixa de existir - simplesmente muda de status. Por isso, as separações, salvo raríssimas exceções, são sempre infinitamente mais dolorosas do que a morte. Deixamos para trás a rotina, uma história de amor, domingos largados na cama, risos abafados pelos lençóis, visitas à família que passou a ser nossa e que aprendemos a amar, idas ao veterinário com os cachorros que, ao perceberem onde estão indo, teimam em se esconder pelo carro nos abrigando a encenar um verdadeiro teatro de vozes para conseguir recuperá-los, corridas no parque sábado de manhã, viagens de fim de semana. Aquela pessoa que por anos acordou e dormiu do seu lado, a pessoa para a qual você fazia confidências e saladas, para quem você comprava cerveja e xampu, não está mais lá, a um telefonema de distância, acesso amplo e irrestrito, pele encostada na sua noite noite após noite. E, por mais que saibamos que aquela específica história tinha chegado ao fim, por mais que tenhamos agora um outro amor a disparar o coração e a nos fazer sorrir, acabar com um roteiro que foi tão bem escrito é como morrer sem ter o que enterrar, sem ter um corpo sobre o qual chorar, sem ter uma alma para velar. Mas talvez o que definitivamente destinga a ruptura da morte seja a característica solitária que tem a dor da separação, uma dor que é só sua: não há com quem lembrar das idas ao supermercado, das brigas pelo título do filme alugado no sábado à noite, dos almoços de domingo na casa da sogra, do dia que o óleo do carro quase mudou de estado físico, da tarde que você apertou o andar errado e acabou entrando no apartamento do vizinho, da noite que o box do chuveiro explodiu. Não há com quem lembrar das triviais e essenciais banalidades do que um dia foi uma rotina. E você tem que engolir as homenagens. Trata-se de uma morte para a qual não cabe eulógia. Estendo meus braços para cima e não encontro uma mão para me guiar ao redor da mesa da sala. Deito novamente no sofá e entendo que, dessa vez, é só comigo. Perna trêmula e completamente insegura, tento ficar de pé. Todos os dias. Até conseguir resgatar, em algum tipo de memória celular, aquele ímpeto para sair pela vida andando com desenvoltura. Um pequeno passo depois do outro, lá vai você. Com sorte, em pouco tempo estará correndo, brisa batendo no rosto, inteira para o novo, e inevitável, tombo. Porque a vida é o que acontece exatamente nos infindáveis, empolgantes e memoráveis segundos que antecedem o próximo tropeço. Mas Bruna ainda não sabe de nada disso. Domingo passado, Bruna deu os dois primeiros passos da sua vida.