Histérica à frente de Hogwarts
Como é de conhecimento geral, ou ao menos se espera ser, desde setembro passado Lidiya von Ward-Lowenstein foi nomeada diretora da ilustre Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Aqueles que acompanham nossa seção de política também devem se lembrar que Lidiya, então diretora da casa da Sonserina, compartilhava do favoritismo com Cassian Westfall, ambos fortes candidatos a ocupar o lugar deixado pelo ex-diretor Magnus Campbell. No entanto, o que ninguém imaginava, acompanhando ou não as movimentações políticas atuais, era que essa escolha colocaria Hogwarts sob a direção de alguém com comportamento tão volátil.
A morte do filho do Ministro da Magia — já visto como um Ex-Ministro por muitos, devido ao seu desaparecimento — parece ter sido o golpe final que levou Campbell a abandonar seu posto e comprar uma passagem só de ida para a França. Desde então, o “fantasma” do garoto, figurativamente, parece ter deixado, tal um poltergeist, o gabinete da direção de Hogwarts virado de cabeça para baixo.
Talvez seja por isso que Lidiya, ao assumir a direção, tenha feito um discurso que, segundo alguns membros do conselho escolar, foi considerado “exagerado e deliberadamente alarmista”, deixando muitos alunos apreensivos com sua segurança. Para ilustrar, seu primeiro ato como diretora, antes mesmo da abertura oficial do ano letivo, foi cancelar todas as parcerias de estágio realizadas ao longo do período escolar, alegando que era “arriscado demais que os alunos deixassem Hogwarts para estagiar entre as aulas”.
Estaria ela temendo que “a Foice” pudesse aparecer para sequestrar o responsável pelo cafezinho do gabinete do ministro? Ou talvez tivessem mais interesse no tratador de vermes-cegos da Reserva de Proteção? Que perigo estariam eles enfrentando em seus “importantíssimos” postos de estágio? No entanto, a proibição da diretora, que fez sobrancelhas se levantarem tão logo a informação avançou os muros da escola, foi apenas o primeiro sinal de alerta.
Por razões ainda obscuras, Lidiya causou um grande tumulto entre professores e alunos já na primeira semana do ano letivo. Sem qualquer aviso, ao fim da tarde do dia 2 de setembro, ela encerrou abruptamente uma feira estudantil que acontecia na área externa de Hogwarts e ordenou que todos retornassem ao castelo com urgência. Após o incidente, segundo nossas fontes, Lidiya ainda exigiu a presença de ao menos meia dúzia de aurores, que, tão logo chegaram, rapidamente deixaram o local. Para nós, isso só pode significar uma coisa: pa-ra-noi-a.
Não muito tempo depois, demonstrando mais uma vez seu apreço por exageros, a senhora Ward-Lowenstein despontou como uma das primeiras figuras de nossa sociedade a dar crédito aos rumores fantasiosos de que “bestas misteriosas” estariam atacando bruxos e bruxas por toda a Grã-Bretanha. Na época, segundo informações que nos chegaram, uma simples travessura juvenil — impulsionada apenas pela efervescência típica da adolescência — parece ter desencadeado uma reação sem precedentes na distinta diretora. O motivo? Sua crença de que monstros pavorosos jamais vistos circulavam os terrenos da escola.
Na manhã seguinte a essa escapadela noturna de alguns alunos, o café da manhã foi marcado por mais um discurso alarmista de Lidiya. Repleto de reprimendas monumentais, a “fala” da diretora foi acompanhada de decretos rigorosos de toque de recolher e uma série de medidas disciplinadoras dignas de um tirano. A cereja do bolo parece ter sido uma “entrevista” dada por ela a um novo jornaleco estudantil, obtido por nós em Hogsmeade. Nela, a diretora insinuava que os alunos “só podiam ter titica de trasgo na cabeça” por terem dado vazão a suas pulsões mais inocentes, a disposição para o desconhecido e desbravamento.
A “linha dura” imposta pela diretora, em vez de suavizar, só atingiu novos extremos após os incidentes de 31 de outubro. Apesar de as causas ainda não estarem totalmente esclarecidas — tudo indica que se tratam de fatores naturais —, os ataques de bandos enfurecidos de cava-charcos, pocotós e até arpéus, embora tenham deixado poucas vítimas entre os bruxos, parecem ter afetado gravemente a sanidade da diretora.
Isso ficou especialmente claro quando, cerca de vinte dias depois, ela se ausentou da escola em um dos momentos mais críticos da história recente da instituição: a invasão e o subsequente ataque terrorista perpetrado por um bando furioso de veela. Como todos sabem, as criaturas exigiam parte dos terrenos da escola, e a ausência da diretora só as enfureceu ainda mais, colocando em risco a vida de todos os presentes. “E Lidiya, onde estava?”, vocês devem estar se perguntando desde então. Bem, nós descobrimos. Ela estava no Ministério da Magia, exigindo a presença de mais oficiais do Departamento de Execução das Leis da Magia nos terrenos de Hogwarts.
Neste ano, a situação se repetiu. Enquanto os alunos participavam de uma saudável competição de inverno perto do Lago Negro — evento que só foi mantido após insistentes pedidos à diretora —, um quid pro quo envolvendo um centauro eclodiu nas proximidades da floresta. Coube aos aurores de plantão nos terrenos resolverem o impasse, enquanto Lidiya estava sabe-se lá onde. E sua resposta? Confinar os alunos no castelo de forma definitiva e requisitar cada vez mais aurores e oficiais para proteger a escola.
Com tempo demais para ir atrapalhar o trabalho alheio, e tempo de menos para cumprir o seu, Lidiya von Ward-Lowenstein tem se demonstrado cada vez mais despreparada, fraca e histérica. Alguns e algumas de vocês talvez pensem ser exagero nosso, mas pergunto-lhes se tudo o que foi identificado na postura da digníssima senhora, em suas constantes crises nervosas, não caracteriza uma neurose fóbica e uma falta de controle de seus atos e emoções.
E saibam que isso não é apenas opinião nossa. Ao que tudo indica, o próprio Departamento de Educação Mágica do Ministério tem passado por maus bocados com a diretora. Uma fonte interna do departamento nos revelou que a última comissão enviada a Hogwarts, com a incumbência de acertar detalhes da participação dos alunos em um grande evento musical que se aproxima, foi expulsa dos terrenos da escola aos gritos da senhora Ward-Lowenstein. “Ponham-se para fora! Vocês estão loucos! Rua!”, dizem que ela esbravejava ao achincalhá-los terrenos adentro.
Deixemos, então, ao destino o encargo de provar quem está certo ou errado nessa história. Enquanto isso, nossos filhos e filhas permanecem confinados nos corredores de pedra de Hogwarts, questionando o propósito de tudo isso em suas jornadas. Surgem, porém, indagações. Será esse clima de terra arrasada, reavivando fantasmas do passado, que desejamos incutir na próxima geração? E que tipo de pesquisadores, ministeriais, aurores e outros grandes bruxos formaremos se, em uma fase tão crucial de suas vidas, aprenderem a temer um jogo chinfrim de fumaça e espelhos?