Entrevista com Ney Matiel Pires, ufólogo pioneiro que pesquisou o caso Antonio Carlos Ferreira - parte 2
Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga
P – O Ferreira era solteiro na época?
R – No primeiro contato era. Mas logo depois ele se casou. E os padrinhos foram eu e o delegado Wilson Lopes. A Maria de Lourdes foi a madrinha.
P – Então vocês ficaram amigos da família?
R – O Ferreira não saía de casa. Ele vinha até nós, não precisávamos ir atrás dele. E sempre que ele vinha em casa eu morria de rir, porque ele era muito introvertido. Eu o deixava um pouquinho de castigo. Dizia: “Senta Antonio.” Ele sentava. Passava um tempo, eu ia lá e perguntava: “Aconteceu alguma coisa Antonio?” E ele dizia: “É, o disco voador desceu.” Aí que ele começava. Era com saca-rolhas que você tinha que tirar as coisas dele.
R (Maria de Lourdes) – Faz tempo que não vemos o filhinho dele, o Fernando, que nasceu pouco depois do casamento. Hoje ele já deve estar moço.
P – Ele se casou uns seis meses depois do primeiro sequestro.
R – É, por aí.
P – E a mulher terrena dele entendeu o que aconteceu? Não houve problemas?
R – Nesse aspecto não.
P – Quantos filhos ele teve com essa mulher?
R – Só o Fernando. Quando ficou moleque, o Fernando começou a contar que via uns homenzinhos.
P – O menino também?
R – É.
P – Quantos anos ele deve ter agora?
R – Uns 22 anos.
R (Maria de Lourdes) – Ele era muito envergonhado. Nós chegávamos lá, ele se escondia.
R – O menino era pior do que o pai, se escondia de nós. Parecia um bicho.
P – O Ferreira era muito pobre.
R (Maria de Lourdes) – E analfabeto.
R – Depois é que se tornou Guarda Municipal.
P – Ele continua analfabeto até hoje?
R – Continua. Era pedreiro, mas não sei se continua sendo.
P – Sendo ele analfabeto, logicamente não lia nenhum livro de ficção científica nem nada.
R – Não. Ele disse que só uma vez tinha assistido a um filme de discos voadores na televisão.
R (Maria de Lourdes) – Ele não gostava de assistir essas coisas. E o Ney fazia questão de mantê-lo afastado de qualquer influência externa.
P – Não deixava ele assistir nem ouvir nada.
R – E como era a vida do Ferreira?
P – Ele trabalhou de servente de pedreiro por uns tempos. Morava numa casa pequenina. A casa dele toda era a metade desta sala.
R (Maria de Lourdes) – Tinha só uma janelinha de dar dó. Queríamos que os direitos autorais do Livro Branco dos Discos Voadores fosse para o Ferreira, mas o Bühler doou tudo à Casa da Mãe Solteira do Rio de Janeiro, uma entidade que ele nem conhecia. Deveria ter ajudado o Ferreira porque ele morava em condições precárias.
A modesta e precária residência de Antonio Carlos Ferreira (casa dos sogros). Ney Matiel Pires está ao lado de Antonio e do filhinho deste, Fernando. Foto de Walter Karl Bühler, publicada em seu Livro Branco dos Discos Voadores.
R – Eu falei para o Bühler doar para não dizerem que estávamos ganhando dinheiro em cima do livro.
R (Maria de Lourdes) – Ele não tinha nada. Fomos nós que demos uma bicicleta a ele.
R – A Maria de Lourdes doava roupa usada para ele. A camisa que os ETs queimaram era minha, eu é que havia dado de presente a ele. Era uma camisa que eu só havia usado uma ou duas vezes mas que não me servia mais porque como tinha parado de fumar, havia engordado uns 30 quilos.
R (Maria de Lourdes) – Ele era magrinho que nem um palito. Pesava 64 quilos.
R – Cheguei a quase 90 quilos.
P – Como a camisa do Ferreira foi queimada?
Foto da frente da camisa atingida mostrando dois dos furos. Foto de Walter Karl Bühler, publicada em seu Livro Branco dos Discos Voadores.
Ney Matiel Pires exibe a camisa de Antonio Carlos Ferreira, queimada pelos ETs. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.
R – Ele se encontrava na cama dele deitado, e ao se levantar deu de cara com esse hominho que segurava um tubo e por meio dele projetava essa luz que queimou a camisa. Queimou a camisa mas não queimou a pele.
P – Mas por que esse hominho teria atirado nele?
R – Acho que foi uma espécie de luz paralisante, já que logo depois ele se sentiu paralisado. E o raio resvalou na folhinha, queimando parte dela. Daí o Ferreira foi sequestrado, tirado de dentro da casa.
Nas fotos de Walter Bühler, publicadas em seu Livro Branco dos Discos Voadores, o calendário chamuscado e os detalhes das três folhas atingidas. Em foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga, Ney Matiel Pires exibe a folhinha de Antonio Carlos Ferreira, queimada pelos ETs.
P – O senhor confirma que os seres descritos pelo Ferreira eram verdes?
R – A pele era verde.
Desenhos falados, feitos por Ney Matiel Pires, sobre o caso de Antonio Carlos Ferreira. Ufonauta de uniforme, fora do Disco Voador. Note o emblema no uniforme do ufonauta. Em 5, ufonauta de pele verde. Em 6, ufonauta de pele marrom. Desenhos publicados em Livro Branco dos Discos Voadores, de Walter Karl Bühler.
P – O João Rodrigues Silva também disse que os seres eram verdes. Dentro da ufologia há esse estereótipo do humanóide verde, que até ficou como uma pecha, uma espécie de marca, de nomenclatura, ou seja, chamar os ETs de homenzinhos verdes.
R – Isso porque ainda não maduraram.
P – Mas até que ponto esses seres verdes não poderiam estar correlacionados com essa tendência de muitos considerarem eles como seres verdes? Ou o senhor acha que os seres eram mesmo dessa cor?
R – Bom, eu tenho a descrição dele sob hipnose, então creio que realmente os seres eram verdes. Já essa mulher com quem ele manteve relações sexuais não tinha a pele verde, e sim marrom. Ela era diferente. O cabelo era ligeiramente avermelhado.
Desenho de Antonio Carlos Ferreira retratando a ufonauta feia de cabelo vermelho, publicado no Livro Branco dos Discos Voadores.
P – Na sua opinião, qual seria a natureza desses seres?
R – Posteriormente cheguei à conclusão de que os seres eram robôs.
P – Quando foi a última vez em que o Ferreira foi sequestrado?
R – Em 1986, num sábado. Ele ficou sumido das 10h30 às 18 horas, aliás foi o mais longo de todos. Todos os outros aconteceram à noite ou de madrugada, mas esse foi no período da manhã, um pouco antes do almoço.
P – O que fizeram com ele nesse período?
R – O mesmo de sempre. Deram um líquido para ele beber, tiraram amostras de sangue dele e outras coisas.
Retratos falados dos ufonautas vistos por Antonio Carlos Ferreira. Em 1, a ufonauta desnuda. Em 2 e 3, ufonauta marrom (2), verde (3), tendo ao lado os respectivos perfis da cabeça. Em 4 e 5, os robôs andróides, frontal (4) e de perfil (5). Em 6, permenor do extremo do braço dos robôs, conforme observou a testemunha durante o primeiro encontro. Desenhos publicados em Livro Branco dos Discos Voadores, de Walter Karl Bühler.
P – Ele apresenta algum tipo de marca no corpo?
R – No primeiro contato fizeram uma marca no lado esquerdo dele, um círculo com uma espécie de cruz. Posteriormente não teve mais nada, a não ser um sinal de picada na veia.
P – O símbolo que o Ferreira viu não lembra uma suástica?
R – Lembra. É estranho.
O símbolo nos uniformes dos ETs era idêntico à suástica nazista. Desenho de Ney Matiel Pires, de seus arquivos.
R (Maria de Lourdes) – Ele tinha sido orientado pelos seres a bordar aquele símbolo em todas as roupas dele. Aí o Ney ia me pedir que bordasse quando lhe falei: “Ah não, não vem que não tem.” Eu não tinha tempo. Vivia numa correria danada. Aí como não tinha tempo de bordar na roupa, o símbolo apareceu no peito dele. Você se lembra disso Ney?
R – Não era bem uma tatuagem porque depois de um tempo sumiu. Tinha sido gravado com uma técnica desconhecida, que não usava tinta. A marca foi feita diretamente na pele. O local estava como que queimado, um pouco mais escuro do que a pele. Bati uma foto com a luz ultravioleta e o infravermelho mas não captei nada.
P – O Ferreira era fácil ou difícil de ser hipnotizado?
R – Às vezes era difícil. Um dia peguei o Álvaro Fernandes e dei uma dura nele. Não estava aceitando a forma como ele conduzia a regressão, pois o Ferreira estava falando coisas, mas em estado semiconsciente. Numa outra sessão, o Fernandes deixou o Ferreira totalmente inconsciente e se retirou da sala junto com os demais. Só ficaram o Bühler e eu. Comecei a fazer as perguntas para o Ferreira, ao mesmo tempo em que sentia uma coisa esquisita, um mal-estar, como se estivesse sendo observado. E o Bühler nada de fazer perguntas. De repente, o Ferreira desatou a se lembrar de tudo, da caverna com as naves, inclusive das naves de guerra, e de ter ido até a Lua, onde os seres tinham uma base. Em suma, foi a melhor sessão de todas. Fiquei besta de ver até onde foi essa regressão. Foi uma pena que os demais não estivessem presentes.
Antonio Carlos Ferreira sendo hipnotizado por Walter Karl Bühler, Ney Matiel Pires e Álvaro Fernandes. Foto original dos arquivos de Ney Matiel Pires.
R (Maria de Lourdes) – Cheguei lá mas a porta estava fechada, não quis interromper. Foi nesse dia que você perguntou por que ele havia sido escolhido?
P – O que ele respondeu?
R – Que ele tinha capacidade.
P – Ele teria desenvolvido alguma capacidade paranormal?
R – Talvez, a capacidade seria essa.
P – Ele falava de fenômenos que aconteciam espontaneamente na casa dele.
R – Aconteciam várias vezes, pelo menos era o que ele contava. Ele alegou também que chegava a tomar choque quando punha a mão em umas placas de metal da rua, enquanto o colega dele não sentia nada. Ele também falava que puseram um negócio no braço dele. E quando coloquei o magnetômetro sobre o braço, a agulha oscilou.
P – Ele exagerava algumas vezes?
R – Não. De qualquer forma, eu estava sempre com um pé atrás.
P – O senhor era o mais céptico do grupo?
R – Mais céptico não digo, metódico sim. Queria saber todas as minúcias.
Eventos ligados à tarde de sessão de hipnose de Antônio Carlos Ferreira. Em 3, a assistência da sessão: D. Geny Lisboa, Paulo de Castro, Ney Matiel Pires e Maria de Lourdes, Álvaro Fernandes, Walter Bühler e Lourney de Faria Pires. Foto publicada em Livro Branco dos Discos Voadores.
P – E o Álvaro Fernandes?
R (Maria de Lourdes) – O Fernandes não se envolvia com ufologia.
P – Não se envolvia?
R – Não, ele era apenas um parapsicólogo.
R (Maria de Lourdes) – Ele não sabia praticamente nada de ufologia. Mas era ótimo parapsicólogo.
P – Excelente hipnólogo.
R – Mas ele não tinha fundado o grupo AURA em São José do Rio Preto?
P – Não, ele não.
R (Maria de Lourdes) – Foi o Paulo de Castro, dono de uma farmácia.
R – A ideia foi do Castro. Meu filho era amigo do filho dele, o Paulão. O Castro então me convidou para formar um grupo de ufologia junto com ele. E na primeira reunião do grupo, o Patero esteve presente. O Patero contou a história de seu sequestro que já conhecíamos pela imprensa e a partir de então começamos a nos reunir. Eu cuidava da parte de pesquisa. Depois a coisa esfriou um pouco, aí eu fiquei no meu canto, nunca mais apareci por lá. Há uns quatro anos atrás, quando o editor da revista UFO Ademar José Gevaerd esteve por aqui, ele foi dar uma palestra lá e telefonou para mim: “Ô Ney, eu estou aqui. Vem se encontrar comigo.” E acabei indo. Lá encontrei de novo a turma usando a camiseta do grupo AURA, agora sob o comando do Álvaro Fernandes. Soube então que ele que havia reativado o grupo.
P – Havia muita gente mística no grupo?
R – Havia. Sempre há.
P – Certa vez, lá pelo ano de 1988, eu vi o Ferreira num programa de televisão do Ney Gonçalves Dias, na TV Bandeirantes.
R – Pelo que eu fiquei sabendo, ele foi só a esse programa e mais tarde a um outro. Das duas outras vezes que tentaram levá-lo eu não deixei. Na terceira vez eu estava lá no Rio de Janeiro quando quiseram levá-lo. Aí meu filho me telefonou, me contou o que estava acontecendo, e eu telefonei para o delegado Wilson Lopes, que tinha muita influência sobre o Ferreira, e pedi que não deixasse que ele fosse. Tentei evitar ao máximo que o expusessem na televisão, mas numa dessas vezes o Álvaro Fernandes conseguiu levá-lo, que foi essa que você mencionou, na TV Bandeirantes. E lá na Bandeirantes o ridicularizaram. Chegaram a cortar o microfone quando tentou falar. Ele nem percebeu o ridículo a que foi exposto, tão inocente que era, coitado. Mas parece que pelo menos deram um cachezinho para ele.
P – Qual foi a última vez que os senhores viram o Ferreira?
R – Desde que nos mudamos para esta casa, há uns três anos. Quando eu era químico da Estação de Tratamento de Água aqui de Mirassol e morava na outra casa que ficava na rua João Caetano de Almeida, o Ferreira sempre ia lá quando ocorria alguma emergência. Mas depois que nos mudamos, perdemos o contato com ele. E o Ferreira deixou a primeira mulher e se casou com outra, e essa outra não quer nem ouvir falar em OVNI. Quando chega uma turma de pesquisadores lá, principalmente se tem uma mulher bonita no meio, ela fica se mordendo.
R (Maria de Lourdes) – O Ferreira tinha um péssimo gosto para mulheres. Vai gostar de mulher feia assim lá longe. A primeira mulher dele, a Jandira, era dez anos mais velha do que ele, muito feia, horrível.
P – Era parecida com a mulher extraterrestre com quem ele manteve relações sexuais?
R (Maria de Lourdes) – Não, a extraterrestre era mais bonita.
R – Resumindo. Aquela mulher espantava os ETs, de tão feia que era.
R (Maria de Lourdes) – A mulher-ET tinha cheiro de peixe.
R – Não era ela. Era o óleo que passavam no corpo dele que tinha esse cheiro esquisito. Em todos os casos em que ocorreram relações sexuais há menção a esse óleo.
P – Qual seria a finalidade desses seres? O senhor teria alguma teoria?
R – Creio que eles vêm nos acompanhando desde a Pré-história, desde o aparecimento do homem, e que portanto são os responsáveis diretos pela nossa evolução. Eles seriam o tal do elo perdido que os cientistas procuram.
P – O senhor é da mesma linha do Bühler, que acreditava que os ETs eram bonzinhos?
R – Pode ser que haja alguns tipos bonzinhos. Mas há outros que são agressivos, que só querem nos usar como se fôssemos objetos.
Não deixe de ler a primeira parte desta entrevista com Ney Matiel Pires aqui no blog.
Assista a entrevista completa (dividida em quatro partes) de Ney Matiel Pires a Cláudio Tsuyoshi Suenaga e Pablo Villarrubia Mauso no Canal de Cláudio Suenaga no YouTube:
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