Não escrevi nem uma linha. Eu não conseguia organizar os meus pensamentos dentro de, provavelmente, uma das rotinas mais pesadas que já vivi. Todos os nossos dias começaram bem antes do sol e terminaram bem depois de ele estar do outro lado do mundo. A gente virou plural, não tenho como escrever como se a rotina, a empatia, a dor, a falta de respeito, o excesso de amor ou como se tudo tivesse passado fosse só meu. A gente compartilhou tudo de tudo e sofreu e chorou e ralou o corpo inteiro. A gente se moeu pra deixar de alguma forma alguma coisa dEle bem firme por todo canto. Desde a rua, a igreja e o orfanato nosso esgotamento valia a pena quando ouvíamos risadas altas no meio de devocionais criativos, quando riamos de olhinhos vesgos e de passos curtos descompensados, quando imitávamos sotaques e mostrávamos que a cor de pele branca não é a única bonita do mundo e aí valia a pena de novo quando recebíamos os abraços diários e oferecíamos nossos beijos. Foi assim que, em quinze dias, conhecemos um tipo diferente de liberdade. Acho que minha noção de liberdade aumentou quando vi um rosto marcado de corrente de bicicleta me dizer sorrindo que estava perdoando o padrasto que deixou a cicatriz, quando ouvi de uma voz, já sem raiva, a promessa de que o pai malvado teria outra chance, quando os pedidos pra que eu não fosse embora viraram lágrimas e me moeram de novo e quando subi no ônibus deixando um pedaço meu pra trás. Foi aquele momento, completamente cheia de amor, que eu cresci mais livre. Senti amor mútuo, desapego. Senti a falta de importância que o dinheiro, o quarto sem porta, a privada sem tampa e o chuveiro sem box tinham. Não importava o cansaço de três ou quatro horas de sono que tivemos por noite, nem a acusação de que o trabalho tinha sido insuficiente, nem a estrada longa que nos faltava. Nada importava além do amor que nos enchia. E o amor não era só maior ele nos cobria. Cobria o cansaço e a ofensa, cobria qualquer coisa que tentava nos impedir de ter asas maiores e mais coloridas. Vi no meio da dor três tons de azul e dois de amarelo que cobriam tudo e me faziam querer mais e me faziam saber que eu já tenho tudo o que me importa. Em três segundos senti o mundo inteiro e o que nos cerca, santo santo, santo é o Senhor dos exércitos, toda a terra está cheia da sua glória. Que o verdadeiro amor nos transborde, nos aumente as asas e nos dê o privilégio de alcançar o mundo. Gratidão e só. "E, acima de tudo, tenham amor. Pois o amor une todas as coisas" Colossenses 3.14