Oi, não tão querido caroço...
Te escrevo porque vejo na escrita uma forma de expurgo, foi assim que coloquei pra fora – mesmo que em doses homeopáticas – relacionamentos construtivos e tóxicos, sensações que de outra forma não saberia explicar nem pra mim. Porque no fundo a gente espera e quer uma explicação.
Fui criada assim: esperando explicações enquanto puxava a barra da saia da minha mãe, perguntando o porquê entre a louça suja e a histeria que nos apontavam. A água e o sabão escorriam das suas mãos, o silêncio soava como uma bolha estourada no ar.
Sei também como você se criou, mas esse por que eu entendi apenas recentemente. Você foi filho da omissão, da falta de autocuidado, da carência de escuta que desenvolvi ao longo de anos e de uma severa intoxicação ancestral. Não escutava o meu corpo e passava por cima dele com um trator, depois jogava agrotóxicos e colhia as ervas daninhas.
Danada e danosa, eu vivia para os outros – mesmo quando era chamada de egoísta. Me doava, me permitia, mas só se fosse pelos outros. Sentia um medo enorme de me jogar porque não sabia o que em mim encontraria. O buraco parecia ser tão fundo que eu tinha medo de não voltar.
Daí quando finalmente resolvi me escavar – escavar a minha terra-corpo, eu me deparei com você pequeno caroço. Que hoje já não está tão pequeno assim... e apesar de não amadurecer, sei que vai entender a minha recusa – QUERO QUE SAIA DE MIM!
Porque a realidade é que você está aqui agora nesse momento pra me sugar, sugar a minha energia. Sim, você me trouxe – e ainda traz – muita dor, cultiva em mim apatia. Te sentir hoje me faz lembrar dessa omissão e do pudor, dessa forma distorcida que me vi durante anos no espelho.
Sinto falta também do vermelho. O meu sangue não desce há meses – voltou, mas parou de novo e você só cresce, caroço. Odiava os meus ciclos, a minha “menstruação” e só hoje percebo como tinha dificuldade com a renovação. E esse ódio que tinha ultrapassava o nojo, eu odiava ser mulher.
E joguei tudo isso pra mim mesma (jogaram!), esse ódio por mim mesma, engolindo falas e orgasmos, sentindo raiva e recebendo falos sem consciência, às vezes sem consentimento. E me deglutindo gerei você, mas sim, preciso que pare de crescer!
Você... que se construiu do meu lado esquerdo.
Lado do feminino, dizem. E todos dizem desde cedo:
Acontece que eu tenho fé... só que nesses dias ando bem cansada de dor – e com fé, tendo que dar conta de tudo ao meu redor – e com fé, silenciosa – com fé, pequeno condor distraído e desajustado – com fé e com febre, com os pés descalços.
E tudo vai pulsando e inflamando no meu corpo: rosto, glândulas, existência. Você é essa matéria barrenta e turva, então peço que saia.
“Noites mal dormidas, irritação, fadiga, indisposição” – é isso que você tem causado, pareço até uma propaganda de enfermidade. Então só peço que vá! Sem peso, sem culpa, pois chega de cristianismo materializando ódio no meu corpo, soprando grosso na minha nuca. Me enchendo de arrependimentos. Pois saiba que não me arrependo mais, aconteceu como tinha que acontecer, sem julgamentos. Tenho tentado – e com fé, com muita gratidão e sentimento.
Acontece que como você bem sabe dei pra escutar meu corpo nesses últimos dois anos e meio. Foram anos intensos – e continua sendo, porque a intensidade como você também sabe é pré-requisito pra minha existência, mesmo a tendo negado tanto. Por isso você fermentou, caroço.
Mas agora peço que se vá – sem dor de partida, sem dor de apego, se possível sem dor, que por enquanto tem sido toda minha. Vá...
Preste atenção, caroço: se é pra sair machucando – se não tiver outra alternativa, pode ir também (eu encaro), apenas quero que se vá... Não sou serva sua, sou minha seiva agora. Não quero mais simbioses contigo...
E me darei amparo com afetos, banhos, folhas sagradas, cores alaranjadas, muito verde – verde pulsante e escuro, com energia solar e saberes de lua, como tenho me dado, apenas entenda que não sou – nem nunca fui – sua.
Você não me pertence, caroço, eu não sou sua mãe e cansei de esquivar. Meus pés estão gelados, minhas costas cansadas e as minhas pernas pesadas. Não quero cirurgia, não quero bisturis de uma medicina apática que nem entende como você se criou, que só quer “sanar, prescrever, medicar” e amputar.
Sei da sua jornada, "pequeno",
porque um dia ela também foi a minha,
mas também sei do meu voo.
E quero voar sozinha...
Caroço, vá! Volte pra terra
e permita se nascer de novo,
de outra forma,
de outro jeito...
Isso é crescer,
parece que dói,
mas não precisa doer.
Crescer é só ir.
Então vá,
caroço,
me deixe
seguir...