Jane
Costumavam chamá-la de Jane, mulher do homem macaco. No começo eu ria um pouco e falava “que horror!”, mas não sabia quem era. Perguntei porque a chamavam desse jeito; recebi várias respostas diferentes, mas todas concentradas na aparência dela. “Ela é feia, tem dentes tortos, é gorda, peluda, mulher do Tarzan”. Antes eu achava que a chamavam de Jane porque era seu nome, depois… Achei que teria relação com aquele filme da infância. Mas não tinha absolutamente nada a ver, nem um, nem outro, como vim a descobrir pelos meus amigos.
Eu parei de rir das piadas, dos comentários. Virei a chata. Pedia para chamarem-na pelo nome, mas não faziam isso. E eu me perguntava “por que estão atacando essa garota, sendo que nem falam com ela? Eles nem a conhecem…”. Ela era meio chata, metida a sabidona, fresca. Mas não entendo porque isso justificaria o apelido, porque, definitivamente, não justificava.
Éramos colegas, ficamos amigas. Passamos a conversar por causa de um trabalho. Ela era uma pessoa legal, talentosa, tinha unhas belíssimas, um cabelo sedoso e levemente oleoso, mas bonito. E daí me perguntavam porque eu era amiga da Jane. E eu dizia que ela era legal, que conversávamos às vezes, e eles apenas davam de ombros; não importava realmente.
O ano se passou e ela parou de ser alvo de piadas e comentários. Passaram, aos poucos, a chamá-la pelo nome. Ainda a achavam chata, mas agora a conheciam um pouco melhor. Isso é como uma história de superação assistida. Eu não sei se ela sabia do apelido, no entanto foram mais de duas vezes que a vi sair da sala chorando. Nunca perguntei, nem me meti. Sabia que ela tinha alguns problemas na vida pessoal, de qualquer forma. Ficava imaginando se ela agia com uma postura forte e íntegra no colégio, e se desabava quando chegava em casa, escondida da família. Sei que hoje ela se superou: cursa a faculdade dos sonhos, tem um hobbie maravilhoso e está 100 vezes mais segura de si.
Eu sei também que ela, agora mulher, ainda não é bonita. Não tem um corpo incrível. Mas tem uma autoestima invejável, um amor novo pelo corpo que tem e pelo que faz com ele. Uma segurança nos passos da carreira e romance controlado nos relacionamentos. Nem melhor, nem pior: uma pessoa por ela mesma, que sobreviveu um pequeno atentado na vida pré adulta, sem a menor necessidade de sofrê-lo e saiu, sozinha, com os próprios pés descalços, do meio dos escombros e trilhou seu caminho para fora do sofrimento amontoado entre os seres à sua volta.
Jane, a rainha dos macacos, líder do bando ancestral, forte, independente, carinhosa com seus semelhantes, misericordiosa. Jane, a que superou o passado pela glória de um futuro sem pessoas fracas de espírito no caminho; os que passam por ela são apenas brisas em seu cabelo longo, fazem cócegas em seu pescoço, mas não cortam como facas, não chegam nem a atingir com força seus cabelos a ponto de fazê-los esvoaçar atrás de si. Jane, a rainha. Jane, a mulher. Os macacos a respeitam, mas nunca o homem: é mais fácil fazê-lo arrastar-se sob seus pés do que convencê-los a respeitá-la. E é isso que eles tem feito, ultimamente.









