Lygia
Como contam a maioria das histórias, minha primeira paixão foi uma nua mulher que eu via debruçada na varanda pela janela do meu quarto. Se mostrava-se por prazer ou inocência, não sei. O que sei é que me despontavam ânsias de toques vê-la tomando a brisa fresca do fim de tarde, bela e risonha. Para mim, era o mais maravilhoso ser humano em que já botei os olhos. Eu tinha uns doze anos; ela não mais que vinte.
Mudei-me. Agora de minha janela só via uns gatos preguiçosos que passavam o dia esticados ao sol. Talvez fosse melhor assim; se minha mãe descobrisse que eu vivia a espreitar uma jovem vulgar, cheia de sortilégio para aqueles que botassem os olhos em seu corpo desnudo, brilhante, me bateria muito com a vara e me faria ajoelhar no milho. Antiquada, a minha mãe.
Cresci. Cursava artes. Mamãe já morria de desgosto: a única filha metida na vagabundagem da incerteza artística, com vagabundos e drogados rebeldes; isso a deixava arrancando os cabelos. Mas eu apenas pintava e produzia meus elementos, meus gostos. Não metia-me com movimentos, protestos, polêmicas, não queria ali o meu registro. Bastava-me a própria arte como refúgio.
Belo dia aquele foi, ah! se foi. Meu Mestre do curso trouxe-nos uma modelo para auxiliar nas aulas de anatomia, facilitar o desenho; e qual não foi minha surpresa ao deparar-me com aquela mesma moça que eu vivia a observar pela janela. Senti meu coração dar saltos pirotécnicos dentro do peito.
A mim, parecia que nunca havia usado roupas em toda sua vida, pois chegou com o corpo envolto em apenas um robe de seda, nada mais. Um sorriso perpassou meu semblante quando seu olhar pousou no meu. Ela sim, sorriu aquele belo sorriso cheio de dentes brancos bonitos. Era linda!
Pus-me a desenhá-la, assim como meus colegas, todos homens animalescamente cultos, que a desnudariam por inteiro se assim já não estivesse; esqueciam de mim como mulher. Por exceção ao Mestre, eu era como os cavaletes e quadros: objetos inanimados e silenciosos, sem vontade própria ou talento inato para as artes. À frente deles, no centro da sala, é que existia uma mulher de verdade. Quase que automaticamente, a desenhei na varanda florida que costumava passar as tardes em seu estado natural, como lembrava minha doce memória. Não desviava os olhos da tela; e quando o fazia, pegava os olhos dela fixos em mim – pois já conhecia de cor suas curvas e cores, mesmo depois de tantos anos.
Pintei vorazmente, como se estivesse devorando aquela criatura majestosa, pedaço por pedaço, até que cheguei ao fim: não havia um detalhe que eu precisasse acrescentar. Lavei minhas mãos e braços, e meus pincéis. Aguardei. Meu Mestre olhava com interesse para mim, eu lhe respondi com uma piscadela. Ele era um homem diferente, ainda bem. Mas eu sentia outro olhar me queimando: o da mulher nua. Curiosa, com um quê de diversão, ela me encarava, e meu coração saltava, virava, torcia de ansiedade. O nervosismo passou a ser terror: que acharia ela da minha produção? Gritaria comigo por descobrir o meu ofício de espiã mirim? Riria? Me acusaria?
O quando que antes me parecia pura poesia agora era uma denúncia do meu pecado terrível. Perdida em pensamentos, voltei a mim para acompanhar meus colegas mostrando suas produções. Reproduções, melhor dizendo. A Mulher parecia entediada diante de sua imagem como Deusa, burguesa despreocupada, uma figura romantizada dos padrões clássicos. Chegara minha vez. Eu tremia e ela sorria aquele doce sorriso novamente, permiti sorrir de volta. Seu olhar se iluminou. Os meus colegas, antes desinteressados pela minha presença, correram a ver meu quadro, visto de longe como o escolhido pela modelo. Meu Mestre elogiava meu trabalho com entusiasmo, mas eu não ouvia suas palavras: a moça vinha em minha direção.
– Fico imaginando qual foi a inspiração para tal esplêndida figura. Posso ficar com ela?
Era toda dela, assim como meu coração.
Foi uma loucura tamanha que até hoje perco o fôlego lembrando do nosso tempo. Seu nome era Lygia e contava 32 anos: era escultora, escritora e boa de memória. Contou-me que via meu rostinho curioso a espreitar pela janela à procura de sua visão esplendorosa. Tomamos café no dia seguinte, no outro um copo de vinho. Na outra semana fomos ao teatro, ver a peça que ela escrevera para os jovens do movimento das artes cênicas, comemos uma coisa qualquer nos bares noturnos e, por fim berrei seu batom cor de vinho no meu vermelho sangue. Assim que meus lábios tocaram o daquela transcendental criatura, pude escutar, em minha cabeça, os gritos histéricos de minha mãe. Sorri. Ao diabo com ela.
Lygia e eu fomos morar em um sobradinho de esquina quando terminei a faculdade. O dia todo era arte, ela era minha musa lambuzada em argila e tinta, e eu era o artista, três vezes mais sujo em busca da perfeição da obra. Vivíamos sob o disfarce das melhores amigas que viviam juntas, solteironas e artistas (homem nenhum queria mulher com opinião própria, muito menos independência), mas nossos amigos íntimos conheciam nosso pequeno segredo e o guardavam com suas vidas. Nunca irei esquecer da compaixão e cumplicidade dos meus bons e velhos amigos.
O tempo passa. Lá pelos quarenta anos dela, começamos a reunir uma garotada órfã que aparecia pelo bairro querendo aprender os ofícios artísticos. Foi o meio que arranjamos de ter filhos à época, e foi maravilhoso. Ela era uma professora exímia, incrível em suas faculdades mentais e serena para passar as teorias de arte, as teorias musicais, para aquelas criaturinhas abandonadas por Deus. Assim vivemos nossa vida, tudo ia e vinha e estávamos lá, sempre no meio do furacão, porque Lygia era louca, insaciável e eu não me cansava dela.
Ela, de fato, vivia nua pela casa quando estávamos sós. Assim foi até a velhice. Nem velha como sou consigo deixar de amar seu corpo e o seu ser, como se fosse eternamente aquela menininha de doze a espiá-la pela janela. Um amor para toda a vida.












