Domingos são estranhos.
Júlia estava olhando para o céu as cinco horas da manhã. Chovia e o dia começava a despontar. Não parecia um clima de chuva, ela pensava, porque tudo estava claro e quase azulado. Preferiria que o céu estivesse limpo, fazia tempo que não apreciava o amanhecer. A obrigação de dormir todos os dias era um empecilho, no final das contas. Um gemido a tirou de seus pensamentos: seu companheiro de noite murmurou algo e ajeitou-se melhor na cama. Júlia não conhecia Lucas direito; ele era amigo de uma amiga da amiga dela, se conheceram num barzinho às cinco horas da tarde de um domingo. E novamente, em um domingo, duas semanas depois, lá estava ele deitado ao seu lado depois de uma hora ininterrupta de sexo.
Ela não conseguia – e não queria – dormir. Perto de alguém desconhecido, sem confiança, ela não dormia. Dormir é como morrer por algumas horas e despertar de uma de terra de sonhos mais verdadeiros do que a própria realidade, isto é, um momento especial. Júlia levantou-se. Perambulou pelo quarto procurando suas roupas, ou melhor, seu pijama confortável. Não sentia a mínima vontade ou intenção de parecer sexy e desejável. Tinha a consciência de não ser uma garota bonita, que também não era feia. Ao menos tomei banho, ela pensou, sorrindo para si mesma. E mesmo que ele acordasse querendo mais, ela sabia que suas roupas talvez criassem uma barreira àquela situação. Homens, às vezes, eram irritantemente imprevisíveis em seus desejos. Que se dane, ela pensou. Colocando algumas roupas de lado, sentou-se na cadeira e puxou suas folhas de desenho. Era interessante para ela registrar os rapazes e mocinhas que passavam pela sua cama.
Algumas pessoas colecionavam tampinhas, outras figurinhas. Júlia colecionava amantes, na espera alucinada, desalentada, de que algum dia todas as páginas de seu bloco de desenhos fossem preenchidas por uma figura eternizada em grafite, todos os dias a mesma figura em posições diferentes, expressões diferentes, sonhos diferentes. Não foi dessa vez Júlia, ainda bem. Até lá, o prazer de ter um companheiro sonolento por uma noite sequer dá para o gasto para quem aprecia (nem todas) as noites solitárias e barulhentas numa cidade comum, e que de vez em quando, precisa do calor humano para aguentar madrugada afora em um quartinho pequeno no quarto andar de um prédio velho.











