Enquanto esperava o anfitrião na soleira da porta, Mortimer percebeu que parecia bem mais confiante do que o normal após sua estadia na Inglaterra. Também, depois de tudo o que havia passado em Oxford - todos os “quase peguei uma DST”, os “não sei onde eu tava, não sei onde eu acordei, mas ainda bem que eu tô em casa”, e os “tenho um dia pra completar um trabalho que eu procrastinei por um mês” -, era de se esperar que amadurecesse.
Claro, ainda era o mesmo garoto introvertido de antes. Só não era tão inseguro comparado à alguns meses atrás. Talvez fosse o efeito do que tinha visto na sociedade secreta, ou até mesmo o fato de ter sido convocado a participar dela, mas sabia que ver seu antigo amigo em coma numa cama é algo que muda as pessoas.
“Hi.” Cumprimentou Forseti com um pequeno sorriso, estendendo a mão para que o outro apertasse. “Nice hair.” Adicionou, apontando para o cabelo do anfitrião.
Vagando pela festa, Mortimer avistou uma figura alta e forte andando com uma cara irritada em sua direção. Ele conhecia muito bem aquele rosto, e tentou dar meia volta antes que fosse tarde demais. Infelizmente, a casa estava apinhada de gente, e Kieran o alcançou com suas pernas ágeis.
“Oh no. Oh no. Oh no, no, no.” Repetiu pra si mesmo, de forma que só ele conseguisse ouvir. Quando sentiu a mão apertar em seu ombro, parou no lugar em silêncio, vendo que não tinha mais saída.
VINTE ANOS ░ PREPARATÓRIO ░ FC LOGAN LERMAN
░ MUTANTE ░ FISIOLOGIA DE FANTASMA ░
𝒕𝒓𝒂𝒊𝒕𝒔
criativo, inteligente, direto/prático.
bom senso crítico, quieto, introvertido
esnobe, fechado, teimoso, orgulhoso, dramático.
𝒑𝒂𝒔𝒔𝒂𝒅𝒐
A família Whittaker se parecia com qualquer outro morador de Hidden Hills que se mudou para lá antes da febre das celebridades. Os que tinham dinheiro antigo, e um patrimônio grande demais para cogitarem se mudar de lá. Portanto, optaram por tolerar os novos ricos e seus delírios de grandeza, com as formas gradualmente mais humilhantes de gastar seu dinheiro. Como toda boa história de mistério, os pais desapareceram, deixando seu filho mais novo sozinho, sob a guarda meticulosa de sua madrinha: a governanta.
Anos se passaram desde o trágico desaparecimento dos pais, que simplesmente não voltaram para casa após um dia de trabalho. O garoto se tornou um jovem adulto com seus vinte anos, exatamente o que o avô esperava, diga-se de passagem, uma decepção. Quieto e reservado, intelectual e estranhamente fissurado em coisas que não eram muito apropriadas para alguém de sua idade. Aliás, contato com as pessoas de sua idade nunca foi algo que ele gostava muito, por mais que o avô fizesse diversas tentativas de estimulá-lo através de suas famosas festas.
Havia algo trágico em um garoto tão jovem morando sozinho em uma casa enorme cujas únicas companhias são sua madrinha, a funcionária, e o avô, um boçal. Mortimer, por sua vez, era muito pálido e melancólico, carregava consigo um ar de morte por onde quer que passava. Era a impressão que ele parecia achar de si mesmo, nunca perguntou a ninguém, mas considerando o bullying que sofreu por anos devido a seu comportamento anormal... Poderia ser considerado correto em algum nível.
Sabia contar até 50 em três línguas aos seis anos, e foi a primeira indicação de que era mais inteligente do que a maioria das pessoas de sua idade. Gostava de ler filosofia e obras da Escola de Frankfurt, além de devorar livros de história consideravelmente grandes para saber detalhes sórdidos de coisas que mentiam nas salas de aula. Ele sabia coisas da Guerra Fria, a influencia americana nas ditaduras da américa latina, e como os europeus massacraram quase toda a população nativa dos países que colonizaram. Era quase como se ele estivesse lá, as prateleiras da biblioteca de sua casa tinham diários de todos os tipos, de pessoas que estiveram presentes em diversos momentos históricos. Foi a única lembrança que restou de seu pai.
De sua mãe, Mortimer aprendeu a identificar flores, ervas e plantas. Ele sabia a forma certa de manter tulipas até em um clima quente como a Califórnia, e qual plantas eram capazes de matar alguém sem deixar rastros. Não que ela tenha tido tempo de ensinar alguma dessas coisas para Mortimer, de fato, mas deixou para trás livros der jardinagem e plantas. Ele jamais admitiria para alguém, em sã consciência, mas... De alguma forma, era como se seus pais tivessem organizado pistas antes de desaparecer. Pequenos totens de sua afeição pelo filho, coisas para que ele se lembrasse deles quando já não estivessem mais lá.
Quando se formou do high school, foi um alívio. Passou seu ensino médio inteiro em uma escola privada e cara demais para o nível de intelecto dos colegas de Mortimer, se alguém perguntasse a ele. Óbvio, ninguém perguntaria, afinal, não é como se ele tivesse algum amigo ou alguém próximo. Existia um limite para as pessoas, ninguém podia nascer tão inteligente e rico, e ao mesmo tempo com habilidades sociais inatas. É por isso que o avô de Mortimer era tão burro quanto um baby boomer bem instruído e educado nas melhores escolas de ensino podia ser. Inteligente o suficiente para a maioria da população, mas terrivelmente egocêntrico e ignorante.
Deixou tudo para trás. Madrinha, avô, diários, livraria, mapas e jardins. Ele morava na Califórnia, mas odiava o mar e a areia. Trocou tudo pelo céu frio britânico sem pestanejar, e fez seu caminho por entre os corredores de Oxford. Lá, encontrou pessoas como ele: inteligentes, arrogantes, e com dinheiro até onde o tubo anal alcançava dentro do corpo humano. Era de se esperar, considerando quanto tempo passavam sentados em suas enormes pilhas de dinheiro.
𝒑𝒓𝒆𝒔𝒆𝒏𝒕𝒆
Mortimer deveria ter ficado feliz, era tudo o que ele sempre quis. Finalmente fez amigos, se é que podia chamá-los de amigos. Até foi selecionado para uma sociedade secreta do campus, apesar de ser americano, sua família era old money o suficiente para que os ingleses desconsiderassem isso. Passava os fins de semana cercado discutindo as nuances homoeróticas de Oscar Wilde e Bosie, com todas as drogas e garrafas de bebidas caras que o dinheiro podia comprar.
Quando se viu ao fim do ano letivo, já tinha tolerância suficiente para derrubar um boi e altamente imunizado a DSTs. Sua carreira como pesquisador alçava voo, considerando seu intelecto e sua memória. Todavia, foi forçado a voltar para casa quando soube da trágica morte de sua madrinha. Seu avô estava ficando gagá e tão ruim quanto um boomer pode ficar, forçando Mortimer a tomar a difícil decisão de voltar para casa.
Agora que está de volta a Calabasas, Mortimer decidiu cursar um ano do Preparatório no instituto até decidir o que fazer de sua vida de agora em diante.
“Gregory’s here,” she says quietly, taking a small sip from the champagne, “I know I snagged his file but I don’t remember what it said. Did you read it?”