A Arte de Empurrar Pedras (ou como ser um "Agente Estrangeiro" no Conforto do Lar)
Parece que o mundo se transformou num gigantesco ensaio de coreografia russa, onde o passo principal consiste em olhar para o lado enquanto alguém é levado pela polícia. A cineasta Julia Loktev, com o timing de quem prevê tempestades num deserto, decidiu filmar jornalistas em Moscovo pouco antes de o "não-conflito" (ou "operação de jardinagem geopolítica") na Ucrânia começar. O resultado? Um guia prático sobre como ser considerado um terrorista por apenas dizer... coisas.
O Rótulo de Estimação: "Agente Estrangeiro"
Na Rússia, o Kremlin decidiu ressuscitar a moda vintage da era soviética: o selo de "agente estrangeiro". É um conceito fascinante. Imagine que você acorda, toma o seu café, e o Estado decide que você é um espião, não porque tenha microfilmes escondidos no sapato, mas porque cometeu o erro crasso de... documentar a realidade.
É a versão estatal do bullying de liceu: "Tu não pertences aqui, vai-te sentar na mesa dos 'suspeitos' com os teus amigos que gostam de direitos humanos".
A Dieta Histórica: Só Açúcar, Por Favor
Mas a verdadeira pérola desta comédia trágica vem dos tribunais. Quando a organização Memorial — que se atrevia a lembrar que a história russa teve uns quantos milhões de "soluços" autoritários — foi encerrada, a lógica do juiz foi de uma clareza cristalina: "Porque é que havemos de ter vergonha da nossa história?"
É uma proposta pedagógica inovadora. A história deve ser como um perfil de Instagram: só filtros, praias paradisíacas e vitórias gloriosas. Se houve GULAGs ou repressão? Delete. Se houve escravatura ou segregação? Report as spam.
O mais delicioso é ver como esta moda de "limpeza histórica" atravessa o Atlântico com a agilidade de um algoritmo. De um lado, o Kremlin quer apagar o que não brilha; do outro, vozes nos EUA perguntam: "Porque é que o Smithsonian tem de falar de coisas chatas como a escravatura? Falem só das partes em que fomos incríveis!". É o Globalismo da Amnésia: uma frente unida contra o desconforto de ter memória.
Sísifo com Wi-Fi
Loktev compara os jornalistas a Sísifo. É uma analogia injusta para o grego. Sísifo, pelo menos, não tinha de fazer um livestream enquanto a pedra o esmagava, nem corria o risco de a pedra ser classificada como "extremista" pela procuradoria-geral.
A lição que fica, dizem-nos, é que devemos "encontrar alegria na resistência". É uma ideia romântica: rir enquanto o canal de televisão é fechado e temos de fugir para os Países Baixos para poder dizer que o céu é azul sem ser preso por "difamação das forças aéreas".
Resumo da Nova Ordem Mundial do Jornalismo:
Se quiser ser jornalista... Na Rússia Nos EUA (Versão "Update")
Ocupação Agente Estrangeiro / Terrorista Inimigo do Povo / "Fake News"
História Permitida Apenas vitórias de 1945 Apenas o que for "agradável"
Destino Final Amesterdão ou Prisão Cancelamento ou suspensão do programa
No fundo, o filme de Loktev é um espelho. E, como todos os espelhos em tempos de autoritarismo, corre o risco de ser partido porque a imagem que reflete não está a usar o filtro de "coisas agradáveis" que o governo recomendou.












