Sobre o Museu Afro Brasil
Eu confesso que estava ansiosa. O Museu Afro Brasil era um dos top 5 lugares que gostaria de conhecer logo. No meio do Parque do Ibirapuera, quase me distraí com a paisagem. Mas quando entrei fui muito bem recebida por um segurança que tirou várias fotos minha na entrada do museu.
Entendi porque o Museu Afro existe em São Paulo: por ser a mais cosmopolita do país, ela concentra uma diversidade de visitantes muito grande. A questão é que isso limita também a visita: além de mim, só encontrei com mais duas pessoas negras (um jovem e uma senhora), que pareciam visitantes (estavam circulando e sem o uniforme da equipe que vi lá dentro). Em compensação, vi crianças, adolescentes e grupos de turistas orientais. E como sabemos, isso é importante para a luta contra o racismo: mais pessoas devem conhecer a nossa história também. Só me preocupa como ela é conduzida...
Percebi que o museu, como todo museu, mais levanta pontos a serem aprofundados do que abrange a vastidão que é a presença dos povos africanos no Brasil. Fiquei feliz ao perceber que muito do que vi foi trazido do nordeste (Maranhão, Bahia, Sergipe, Maceió...). Mas se você espera uma experiência incômoda e revolucionária.... Tenha calma. O que você vai encontrar são muitas obras lindíssimas, fotos estonteantes e imagens de um passado negro que muito me lembrou os breves capítulos dos livros de história, quando abordavam “o povo negro nos tempos de hoje” – considerando que concluí o ensino médio em 2006, tá?
Contudo, não posso negar que me emocionei. A exposição de jóias e artigos usados como indumentárias em rituais de religiões de matrizes africanas me encheram os olhos (a louca da biju). Mas sabia que a reprodução da caravela era o que meu coração mais queria ver!
Preciso citar que é uma visita longa e interessantíssima. Separei O DIA para essa visita e creio que foi a melhor escolha que fiz. Cheguei cedo, almocei pelo parque e passei a tarde no museu! Como optei pela visita não guiada (que pode ser agendada no site) fui surpreendida pela magnitude no museu e pela QUANTIDADE DE OBRAS!!! São muitas. Muitos questionamentos suscitaram em mim...
Quando entrei na secção da caravela, estava de costas e fiquei parada quando a vi. As lágrimas brotaram. Foi como quando vi os ferros de passar roupa, pesados, grosseiros. Minha vó contou várias vezes como eles funcionavam para mim. Me emociono só de lembrar. Perto da caravela estão os instrumentos que eram usados para tortura dos escravizados. E eu tive que interromper bruscamente a visita nesse momento. Como moradora de Salvador, eu sabia de várias estórias espalhadas pela cidade e arredores. Justamente por isso, pensava já estar acostumada com esse tipo de energia e que lidaria bem com essa visita. Mas não. Eu desabei com os instrumentos que vi e pouco consegui ler a respeito. Em uma das paredes está o famoso poema de Castro Alves, “O Navio Negreiro”, que escuto desde os meus tempos de escola e só de ler o primeiro verso, “Stamos em alto mar”, minhas lágrimas embaçaram minhas vistas. Esse momento foi o mais intenso da visita. Penso que levarei um tempo para esquecer (será?) as imagens que vi.
Foi tão desnorteador que precisei sentar ao sair dessa secção, ir ao banheiro e levei o resto da visita tentando resgatar a empolgação do início. Não que seja algo ruim, mas essas lembranças (que EU não vivi, mas que carrego da minha ancestralidade) me atingiram como uma foice. Ah! Existe uma exibição de ferramentas usadas no trabalho de escravizados, na parte de tecnologia. Mesmo quando eu olhava para essas ferramentas de trabalho eu pensava em tortura. E não é difícil compreender o porquê.
Considero que houve pouco destaque para as mulheres negras da nossa história. Nitidamente, o museu carece de investimento e modernização.
Recomendo a visita de tênis (o que eu não fiz) e um celular com excelente câmera. Muito tempo e disposição para fuçar cada canto e ler cada texto exposto, também se faz necessário. Garrafa de água cheia é importante. Voltaria? Sim, mas não por agora. Ah! Tem acessibilidade! Talvez seja um bom passeio a ser feito acompanhadx, justamente para fomentar conversas e impressões. Crushs paulistas, fica aí a dica! <3