Me pego sozinho, deitado em minha cama olhando o teto, com uma imensa nuvem de pensamentos vazios que me apavoram como vultos. Tenho passado os últimos dias em branco, como se estivesse virando páginas vazias de um grande livro sem nenhum conteúdo, mas rumando a caminho do final. Por um instante me vejo como se eu estivesse terminado o ensino médio ontem, como se todo esse lapso temporal, todo espaço de tempo que vivi estivesse estagnado. Me vejo hoje ainda sem emprego, sem o aclamado vínculo afetivo, sem a faculdade, me vejo apenas de mãos a abanar, como se eu olhasse pra um futuro desejando conquistas... Mas não, eu sou este almejado futuro, e a resultante falha mútua, eu sou o estrago, sou a fissura no solo, a rachadura em um vidro, sou a farpa das madeiras, a gota de sangue que se esvai pelo chão... Sou apenas um nada, conformado com o inconformável, ou apenas sou um vulto, ainda que apavorante, pego no ar por entre meus pensamentos, enquanto olho o teto de minha casa deitado em minha cama em meio ao silêncio e a amplitude de um "ser" e o pesar de um "não" ser.