Até aquele momento, não havia percebido o quão desconfortável o tecido da camisa se sentia sobre a pele. Um efeito do vinho, certamente, que o tornava sensível ao menor estímulo sensorial… Mas não era como se Soren lembrasse ou mesmo se importasse com tal fato. Estava além desse tipo de noção enquanto o linho, embora macio, fazia-o formigar. Com uma mão ocupada por uma taça de vinho dos sonhos, há muito vazia, tentava passar os pequenos botões pelas casas minúsculas. “ Porra, quem diminuiu esse negócio!? Brincadeira sem graça do caralho ” resmungou, deixando as peças de tamanho padrão escaparem novamente. Obviamente, precisava mudar de método. Levantando o olhar, parou a primeira pessoa a passar do seu lado, segurando-a pelo braço. “ Ei, você pode segurar isso aqui rapidinho? Não deixa ca- Njord!? ” exclamou, o pedido e a taça ficando momentaneamente esquecidos ao perceber quem havia puxado. A surpresa de ver o rosto do rapaz fez com que um riso inesperado deixasse seus lábios e, ainda que não transmitisse muita alegria, também não era de todo seco. Mesmo sob o efeito do álcool feérico, tinha ciência de que os sentimentos entre eles não eram completamente amigáveis, mas estavam ligados, não estavam? E isso, por si só, deveria ser o suficiente para se permitir gostar de vê-lo, como o fazia agora. “ E aí, meu cúmplice! Espero que não tenha feito nada muito errado sem mim. ”
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O transitar pela festa era lento e despreocupado, porque efetivamente não tinha que chegar a nenhum ponto específico. Mesmo sob efeito da bebida feérica, Njord não poderia se dizer eufórico como alguns dos colegas, adotando uma postura blasé em relação aos que o cercavam. Poderia ter apenas permanecido estirado num dos cantos enquanto aguardava o tempo passar e ingeria mais do líquido que faria com que perdesse a noção de onde estava, porém, em dado momento, inevitavelmente foi tomado pelo mal estar que acompanhava a ingestão exagerada de vinho dos sonhos. Caminhando para longe da música e do calor das fogueiras, o príncipe dobrou-se sobre o próprio corpo uma vez, esperando que a onda de náusea voltasse, para que ele pudesse enfim se livrar do conteúdo do estômago. Não demorou, contudo, para que ouvisse a voz conhecida ao fundo – o resmungar de um bêbado, sem que Krastan tivesse identificado do que ele estava reclamando. O resquício de sobriedade que lhe restava avisava para que saísse dali, caminhando para longe do rapaz, afinal, nada de bom tinha advindo das vezes em que se encontraram. Ainda assim, o Westergaard ignorou o instinto, caminhando para perto da figura que ele sabia se tratar de Soren. Sentiu o tatear típico de um ébrio em seu peito, tão logo se aproximou, sentindo, então, o cristal frio em seus dedos. Porém, como não tinha de prestar favor algum ao Fitzherbert, descartando a taça no solo assim que ele lhe entregou. “ Precisando de ajuda? ” falou, uma pitada de malícia e um revirar de olhos, enquanto indicava a camisa molhada, possivelmente por vinho — qual a dificuldade em tirar a roupa, afinal? Foi a fala seguinte que fez com que o sorriso morresse na boca do filho de Hans. Mesmo embriagado, a insinuação despertou pânico em alguma parte de seu cérebro. “ Cale a porra da boca, Soren ” disse, seco e baixo, olhando uma vez por sobre o ombro. “ Pode ter mais alguém ouvindo. Mas o que sabe sobre discrição? Até sua irmã está me perguntando coisas ”
“ E pensar que nem era para eu ter ido nessa excursão… ” resmungou, ostentando expressão casmurra. Aabava de deixar o gabinete de Merlim, dessa vez, sentindo a injustiça da convocação, afinal, mal tinha aproveitado o passeio e não tinha percebido que todos estavam sendo chamados à sala do Diretor. O pico de adrenalina das emoções recentes, contudo, já começava a fazer efeito. Antes mesmo de chegar à sala de jogos, foi obrigado a parar, sentindo um aperto no peito, o qual converteu suas feições numa careta de dor e obrigou o príncipe a se arquear, buscando por ar. Não tinha percebido que estava acompanhado, tendo o feito somente quando levantou os olhos e deu de cara com Soren. O Westergaard foi tomada mais uma vez pela fúria — aparentemente, havia algo no rapaz que despertava sua maldição com força, já que não era a primeira vez que se viam naquela situação. Agora, havia um segredo mais sendo compartilhado pelos dois, nenhum dos quais Njord gostaria que viesse à tona. Sem pensar muito, o príncipe caminhou até onde o outro estava, puxando-o pelo colarinho para que pudesse olhar diretamente em seus olhos castanho enquanto falava, os rostos a poucos centímetros. “ Você não viu nada, entendeu? Nada ”
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Descontrole era algo tão familiar ao Fitzherbert quanto machucar — dois pontos que ilustravam o peso que a ironia exercia em sua vida, desafiando o pretenso futuro como herói. Naquele exato momento, por exemplo, deveria se sentir mal, nervoso, no mínimo aparentar um pouco mais de remorso do que realmente sentia. Como esperado de um mocinho, o desaparecimento de Ali devia ser o suficiente para suscitar tais emoções. Devia, mas não era. Em outras palavras: não se arrependida de um único golpe dispensado ao filho de Aladdin. Que as consequências de suas ações se revelassem muito mais graves do que normalmente seriam, então, não passava de rotina. Acostumou-se com a falta de controle, em ser culpado. Ao encontrar Njord, entretanto, começou a ponderar a possibilidade de estar sendo leviano na leitura da situação. Sabia que o rapaz havia sido interrogado por Merlin e, caso sua expressão miserável estivesse ligada ao episódio, a experiência não havia sido agradável. O rosto do Westergaard era uma versão menos intensa, embora não exatamente amena, da que ostentava no parque. Distraído e miserável, não pareceu notar a aproximação de Soren até estarem próximos — provavelmente próximos demais, dada a fúria estampada nas íris azuladas ao se fixarem nele. Mais rápido do que uma pessoa obviamente debilitada poderia, e aliada a surpresa desse fato por si só, as mãos firmes de Njord agarraram abruptamente seu colarinho. Para o crédito do filho de Eugene, ele não cedeu um passo ante a investida. Pelo contrário, encarou o outro com o olhar duro, embora os lábios desenhassem uma curva preguiçosa. “ Ow, easy…” disse, mas a pressão exercida por seus dedos ao segurar os punhos do príncipe, não transmitiam calma ou gentileza. “ Não era bem nesse contexto que nos imaginei nessa posição, então se puder me largar… ” Puxando os braços para baixo a fim de se liberar, ignorou o quão gélida era a pele sob suas palmas. No momento, aquele tipo de observação não tinha parte em suas provocações. “ Talvez eu me veja disposto a fazer vista grossa ao que quer que queira, mas você teria que me dar uma dica do que exatamente. ” Nesse ponto, seu tom começou a modular, tornando-se cada vez mais distante do sorriso oferecido e próximo da seriedade nos olhos escuros. “ Está se referindo ao que vi logo ali? Ou talvez no parque… Quem sabe seja sobre onde vi nosso amigo em comum pela última vez? Ah, claro ” declarou como se finalmente tivesse entendido, rindo ao inclinar a cabeça levemente para trás. “ Essa ameaça de merda que está tentando jogar pra cima de mim agora? Com certeza deve ser isso ” constatou. Manter o controle, para Soren, claramente possuía significado mais amplo do que para maioria, pois ainda compartilhando do mesmo fôlego que Njord, adicionou. “ Por que essa é a única resposta possível para que isso ” enfatizou, indicando o espaço mínimo entre eles. “ Não acabe mal pra mim e você. A não ser, é claro, que suas mãos em mim tenham outra motivação. ”
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Ele ainda não tinha decidido sobre sentir nada além de pavor em relação ao que havia acontecido com Alizayd. Mesmo que tivesse uma amizade instável com o rapaz, baseada em puro interesse, Njord não cogitaria tirar a vida do mesmo nem nos piores dias. Não duvidava que isso não tivesse passado pela cabeça de Ali, no entanto – era visível que tinha se despido de qualquer remorso há bastante tempo. O Westergaard era um homem de palavras, muito antes de ser um homem de ação. Sua reputação vilanesca certamente seria incrementada se o ocorrido viesse a público, mas a interferência da Diegese, uma prisão e uma pena bastante dura também viriam a galope, algo que preferiria evitar. Enquanto ele era a prole de um vilão que sequer existia para protegê-lo, Soren era o brilhante filho da rainha-sol Rapunzel. Estava evidente quem levaria a culpa, e era o que levava o príncipe a tomar medidas drásticas, desesperadas. O outro era mais forte do que tinha se permitido reparar, e enfraquecido pela doença, Njord sentiu seu aperto ceder enquanto os pulsos eram envolvidos. Ter o Fitzherbert constatando, em primeira mão, como sua pele estava fria, apenas daria mais munição para que espalhasse o relato de que, além de um assassino, o filho de Hans era também um moribundo. Para completar, o desgraçado estava… sorrindo? O herdeiro gostaria de arrancar aquele sorriso do rosto dele a socos, enquanto encarava a boca alheia fixamente, dois segundos antes de explodir. “ Você me pede calma? ” perguntou com indignação, deixando escapar breve riso histérico. Por mais que o sulista fosse conhecido por seu controle e frieza, nos últimos dias tudo vinha desabando ao ponto de fazer com que se equiparasse a um qualquer em termos de planejamento. “ Puta que pariu, Soren, ao menos está levando isso a sério? A gente tá fodido! ” chacoalhou uma vez, finalmente soltando a gola alheia para passar a mão no cabelo, exasperado, por ter apontado que tinha outras intenções com o contato — o que talvez não fosse mentira, mas naquele momento, não era preciso que o Westergaard tivesse isso a atravessar a mente. Respirava com dificuldade enquanto pensava, mas ganhou tempo suficiente para deixar que o herdeiro de Corona esquecesse que tinha presenciado pelo menos dois momentos de fragilidade seus. Seria melhor se focasse no principal, garantindo que ele não contaria nada a Merlin durante o interrogatório. “ Se alguém ficar sabendo… Depois disso… Dele não ter voltado para as carruagens… ” frisou, levantando o olhar “ Acabou ” mesmo que estivessem sozinhos na sala, Njord mantinha o tom baixo, aproveitando-se da proximidade, e torcendo para que ninguém decifrasse suas falas. Talvez não fosse minimamente útil ameaçar o Fitzherbert, já que isso apenas arrancaria mais de seu deboche, mas o olhar era intenso enquanto fixado no mais novo. “ Vão pensar que sumimos com os outros. Caramba, não que a gente tenha sumido com ele, você sabe, você estava lá, mas —” se interrompeu, bufando, o ar pesado enquanto ele engolia em seco, apenas para se assegurar de que estavam na mesma linha de pensamento. “ Não tenho certeza se estava respirando na última vez que o vimos ”
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Era uma inversão de papéis absurda que experimentava no momento. Ao passo que Njord explodia, o anileno mantinha sua posição com tranquilidade forçada — comportamento deveras atípico para ambos. Em anos de uma amizade superficial, baseada em interesses e elos em comum, não recordava já ter testemunhado tamanho destempero no outro. Não era mera revolta que via nas írises gélidas, era medo. A constatação o pegou de surpresa, fazendo sua confiança vacilar. Nunca teve o Westergaard como exemplo de honra e benevolência, pelo contrário, via-o pelo que era: o epítome da arrogância e egoísmo. Achava-o interessante exatamente por isso — inclusive, preferia aquela versão, pois detectar o mínimo de consciência em sua face, provou-se desconfortavelmente inquietante. A súbita preocupação do sulista funcionava como um holofote projetado sobre seus defeitos. Se Njord estava tendo uma reação mais adequada à situação, o que poderia dizer de si mesmo? O aperto sobre os pulsos alheios estreitou então, o sentimento de raiva aumentando a cada segundo que passava naquela posição cativa. A calma autoimposta e mal disfarçada pelo sarcasmo, teve fim no instante em que foi liberado com uma sacudida, como se fosse a porra de um moleque. “ Só vamos estar fodidos se continuar com esse show, porra! ” As palmas foram de encontro ao peito arfante a sua frente sem perder tempo, empurrando-o para longe de si. Quem diria. Não mentira ao dizer que imaginara cena semelhante os envolvendo, embora sob contexto diverso, no qual afastá-lo não era prioridade. Contudo, a faísca em seus olhos ao encará-lo não era em nada parecida com a que ostentava em imaginação, e Soren teve que conter o ímpeto de rosnar para as palavras ditas. Tinha plena ciência do que fizeram, do que fizera; e o que fez, a seu ver, fora o necessário. Os dedos longos se ocuparam com a própria gola, enfim a ajeitando com pouca delicadeza — traço que talvez devesse adotar para lidar com o surto do príncipe, mas que era incapaz. “ Quem nos deduraria? O Ali? Bom, aqui ele não ‘tá. A não ser que você dê nos dentes, ninguém vai descobrir nada. ” A rispidez e ironia fazia com que soasse insensível até para os próprios ouvidos, porém, não deixava de ser verdade. Na Ilha, as opções tinham sido bastante simples: era Ali ou eles. Não se arrependia da escolha feita, não podia se forçar a tanto, principalmente quando sabia que não haviam ido tão longe quanto o imrense parecia acreditar. Queria dizer que o desaparecimento do filho de Aladdin estava mais a favor deles que contra, entretanto, novamente se segurou. Havia visto a fragilidade em seu olhar, o temor tingindo suas palavras trôpegas — algo alarmante em alguém reconhecidamente eloquente —, e apesar de genioso, o Fitzherbert não era um completo idiota. Engolindo parte de sua irritação, aproximou-se novamente do moreno, travando seus olhares. “ Nós não matamos ninguém, corte essa merda agora ” disse, resoluto. “ Ele nem era humano, Njord. Uma surra não ia matar alguém como ele, pelo Narrador! Estou lisonjeado que tenha nossas habilidades em alta conta, mas ele estava bastante vivo quando o deixamos lá. ” Claro, tinham deixado o aprendiz desacordado em meio a um parque que distribuía brinquedos amaldiçoados, vulnerável a vingança de qualquer uma de suas vítimas que desejassem tirar proveito da oportunidade e… Os pensamentos não ajudavam em nada seu estado de espírito, assim, dispensou-os com um menear. Já se encontrava num humor instável pelos questionamentos do príncipe, não se deixaria afundar naquilo. Portanto, foi num impulso que adicionou. “ Eu senti que ele estava vivo, então faça um favor a nós dois e esqueça esse assunto. Isso nunca aconteceu. ” A exposição, mesmo que sutil, da sua estranha e mórbida ligação com a morte, fez com que procurasse as írises em busca de compreensão. Não costumava falar de seus dons singulares, e não começaria ali, mas esperava que a sinceridade imposta na fala o convencesse — bem, pelo menos no momento. Felizmente, prolongar a conversa estava fora de cogitação, visto que a voz de Merlin começou a tilintar em sua mente, avisando da proximidade de seu interrogatório. Com a destra, segurou o ombro do Westergaard num gesto enganosamente camarada, depositando um breve tapa em seguida. “ Agora que já estamos conversados, talvez seja melhor procurar algo para lhe aquecer ” sugeriu, permitindo-se vocalizar detalhe outrora ignorado. “ Eu me ofereceria, mas tenho algumas perguntas despretensiosas a responder. Bis später, meine liebe. ”