O silêncio do lado de dentro começava a se quebrar tal como a Rainha Noite chegara lá fora. Enquanto tudo no exterior da casa estava quieto, pois enfim escureçera, era dentro da casa que a vida começava a retornar. Ou, ao menos, o tipo de vida que apenas a Morte pudera fornecer.
Havia uma cama no quarto, é verdade. Gostavam de brincar nela, em seus dias de prazer onde só saiam pelo tempo necessário para se alimentar, antes de voltar para casa. Estratégica, ela estava posicionada de tal forma que certo ponto e canto do quarto jamais fosse abençoado pela luz do sol. E ali, é claro, estava o belo caixão negro onde ele descansava de noite. Era belo, retangular, de uma madeira negra que brilhava mais do que o próprio ouro. As empunhaduras eram de uma prata escurecida que deixava a peça parecendo um belo ornamento da casa, ao invés do lugar onde um morto deveria repousar. Contrastava com os belos móveis de madeira natural, os belos tapetes e as cortinas mas, ah, combinava bem demais com tudo. O tamanho, é claro, era demais para uma pessoa só mas o suficiente para ele. Gostava de ter espaço para se mexer, se desejasse. A seda negra que recobria o inteiror do caixão só o deixava ainda melhor e mais confortável. Mas nada nele era melhor do que a presença de Gavrik, para deixar ao noite deveras melhor.
Não compara um caixão para dois de propósito. Como já dito, Sasha gostava de ter espaço pois, por diversas vezes, era inquieto demais enquanto dormia. Ainda que seu sono, na maioria das vezes, o entorpecesse a tal ponto de parecer o cadáver que ele realmente era. Mas ah, que conveniência era aquela! Já que possuia lugar, por que não dividi-lo com aquele que, afinal, era sua melhor companhia? Mais do que uma vez por semana, isto quando não o faziam todos os dias, Gabriel dividira aquele espaço consigo. Dormiam de lado, entrelaçados um ao outro, por vezes conversando por horas quando o Torpe falhava e os pegar. Outras delas, tal como a noite que findara agora, passavam simplesmente aproveitando unha e carne da pele macia que recostava sobre as deles. Um prazer que o sexo jamais pudera trazer, nem quando estavam vivos. Sentiam as pernas se entrelaçar, os quadris colados se roçarem, corpos apertados e desesperados enquanto gemiam e tomavam mais o sangue um do outro com urgência, o prazer tomando conta de cada pequena parte de si. Depois, ao sentir o corpo estremecer quando atingiam o ápice daquele delicioso Ato, trocavam beijos, palavras e caricias e por fim se entregavam ao sono. Mantendo-se assim, pelados, sem nada a não ser suas peles pálidas e perfeitas para aquecer a do Amado.
E foi daquela maneira que Sasha acordou. Sentou-se descabelado, meio grogue, demorando um tempo para perceber onde estava e o que estava acontecendo. A memória, é claro, não demorou a se refrescar, quando vira o corpo nu de Gabriel ao lado do seu, o braço musculoso do mais jovem ainda em volta de sua cintura. Ele o moveu, delicado, é claro, antes de se levantar e esticar as pernas e os braços. Ah, sempre se sentia de bom humor após uma noite como aquela. E por mais que já ansiasse pela companhia e Gabriel, deixou que ele dormisse mais. Não se preocupou em fechar o caixão, já que estava de noite, apenas colocando roupas leves e amarrando metade dos cabelos em um rabo de Cavalo. Depois de descansar, de ter uma noite maravilhosa, era hora de saír. Tinha fome. Tinha muita fome e precisava repor as energias perdidas durante o Sono do dia anterior. Além do que, bem... tinha mais uma boca para alimentar.
Pela hora a casa já estava vazia, exceto pelos dois que se encontravam ali. Myra sempre fora muito regrada com seus horários e por vezes ia se alimentar antes deles. Por isso, Sasha sabia que a voz e os gritos que ouvia agora, vindos do que parecia ser uma sala vazia nos porões da mansão, não eram os gritos de uma vítima que sua Amada Criadora buscou. Era dele. Seu pequeno e sofredor amado, que estava preso a aparentemente ansioso pela próxima presa. Gritava alto, palavras sem sentido em meio a halucinações que só ele conheceria. Implorava por alivio, queria e chamava o nome de Sasha por entre seus delírios como se se agarrasse a seus pés e pedisse para findar todo aquele sofrimento. Ah, meu Pequeno Amado... em breve você voltara ao normal, e para mim. Sasha sabia disso. E sem preocupação alguma, dando um último beijo nos lábios de Gavrik, Aleksandr deixou a casa, arrumando seu casaco e seu chapéu, partindo para a deliciosa caçada do dia.
Na casa, do lado de dentro, não restava mais nada nem ninguém a não ser um Gabriel embalado pelo sono, e a voz alta que gritava, ecoando pela casa inteira, pedindo por socorro e alivio, uma absolvição para seu corpo e sua alma.