Resenha Gráfica: "Oasis 1" e "X-Files: Slime and Bugs" de Josephin Ritschel
Não tenho o mérito de descobrir tudo. Foi o Rudolfo que descobriu a Josephin Ritschel, cujo site bonitinho atestava saber como se faz a maionese, mas percebi que era a mim que ela estava a piscar o olho. Isto porque com tantas adaptações e remixes de cartoons por aí, ora com o Dragonball, as Tartarugas Ninja, os Transformers, e até o memético Bartkira (Simpsons+Akira), havia na loja dela um zine sobre os X-Files.
Os Ficheiros Secretos. Isto para mim representava o upgrade da mão-na-mão nostálgica. Via com assiduidade, comentava, vi o filme... depois acho que mudei de escola. Já mais velho, revi até a chamada "mitologia" de uma fiada — o conjunto dos episódios em que o Mulder e a Scully não vão às aldeias resolver mistérios e se dedicam estritamente ao combate àqueles extraterrestres e conspiradores que lhes querem mal. Qualquer pessoa com o mínimo de afeição à serie argumentará que os X-Files não precisam de fan fiction, porque o segundo filme, tardio, espécie de afterthought, já faz esse esforço. A Josephin Ritschel fez-se ao piso, usou os nomes e as parecenças, cagou e andou, ninguém a processou.
Porque é que uma artista alemã com um trabalho nitidamente "gráfico" que o It's Nice That adianta ser, e com razão, mais dedicado a espaços imersivos e arquitectura modernista, se investe nos X-Files? Pelo carcanhol? Como ela não tem Tumblr nem fandom para minar, pus o raciocínio de parte e li o outro zine que encomendei, Oasis 1: Last Grain. Espécie de thriller com laivos de absurdo, trata afinal de uma corporação nos moldes da terrível Monsanto e dos seus efeitos na reprodução de sementes geneticamente modificadas. A acção passa-se num futuro próximo onde o monopólio global dos eco-gangsters foi mais longe, e o primeiro número acaba com a promessa duma continuação a ter lugar numa estação espacial, no futuro distante.
Afinal, pondo de lado os temas, o que une o trabalho da Josephin Ritschel é o espaço sombrio e exótico — casas modernistas, sim, mas mais importante é o isolamento destas, comidas pela paisagem sombria e escandinava. Desenhando com lápis que recobre toda a superfície da página, ela usa texturas para cima e para baixo, do 30H ao 1000B. A figura humana tem pose hierática, como um Sim, e os seus contornos perdem para o investimento atmosférico. O desenho ainda sugere um falhanço qualquer utilizado como vantagem, como se fosse uma elaboração de um desenho mais infantil, resolvida pela noção básica de isometria. Em Oasis as figuras são genéricas e escasseiam os planos aproximados, mas em X-Files não parecem nada inocentes as cabeçorras do Duchovny e da Anderson, como que desenhadas à vista.
Temos que falar de uma escala pós-humana para certo tipo de artistas, que se desinteressam de ter a figura humana ao centro da acção visual. O interesse materialista da Ritschel tem mais a ver com a composição na página e a carga onírica, e menos com a exploração fetichista, como a do Yuichi Yokoyama no Garden, onde um grupo vai andando pelo jardim e encontrando objectos em séries, o que é um fartote de rir (a sério!). Depois de ler Oasis percebe-se que o zine de X-Files, que afinal acaba em forma de piada, cumpre objectivos de apropriação estética. Nele ela atravessa todos os clichés do monster of the week com precisão atonal: temos acesso ao crime misterioso; ao memorável edifício brutalista; ao momento eureka junto ao gabinete de curiosidades do Mulder; à cena de crime povoada de feds; ao motel suburbano onde nunca se chega a passar pelas brasas porque há uma reviravolta no caso.
Cada cliché de X-Files é executado na perfeição, como se fosse um storyboard do episódio. Explora-se a pobreza da televisão, onde se regressa circularmente aos mesmos sítios. Os diálogos aparecem no limite da vinheta, no mecanismo geralmente usado para narração, como se se atropelassem, como se alguém estivesse a ler em voz alta uma história "de género" e se recusasse a dar o devido ênfase aos catalisadores de acção. Em Oasis já há balões, mas são rígidos e propositadamente verbosos. O facto de toda a história de Oasis ser previsível atira também para a graça de um filme de série b, onde a awkwardness abre releituras a uma audiência mais sabidona.
No final de X-Files percebi que o zine que tinha nas mãos era já uma quarta edição, de 50 exemplares (de 2013, quando o zine foi lançado em 2011). Pensei no produto que tinha em mãos, e olhando para Oasis, tive sérias dúvidas sobre o papel das editoras. Cada vez mais há autores deste tipo, capazes de fazer a embalagem toda com afinco profissional. Oasis 1 é aliás um comic regular como outro qualquer, embora a encadernação a linha sugira um método artesanal, o que só o enriquece. Procuramos, afinal, qualquer coisa mais especial. A Josephin teve a simpatia de devolver dinheiro dos portes, fazer chegar o envelope em três dias, e ainda forrar a coisa com extras (um poster e um jornal Kuti onde participou). O seu próximo lançamento é uma republicação de Solitude, a sair pela editora italiana Canicola, o que talvez lhe vá dando "acesso aos mercados". Sei que o essencial já está feito.
JM





