Resenha Gráfica: "Preto no Branco #4" de V/A e "O Andar de Cima" de Francisco Sousa Lobo
PRETO NO BANCO #4
Vários Autores
100 páginas p/b, formato a5, PVP 4€
Ed. Façam Fanzines, Cuspam Martelos
O ANDAR DE CIMA
Francisco Sousa Lobo
20 páginas sépia, formato sub-A4 (21x27 cm), PVP 5€
Ed. Chili Com Carne
No centro de Preto no Branco #4 está um texto breve do Tiago Baptista sobre os Laibach, uma banda industrial/projecto artístico esloveno cuja co-optação de uma estética totalitária para efeitos de crítica política e geral trolanço suscita pausa do articulista — porra, que cativante este imaginário, e tão fatal a sua circulação! A dica que o tipo dos Calhau! que lhe deu em 2009 dá, cinco anos mais tarde, um ensaio de oito páginas onde se fala com algum grau de detalhe dos Laibach no contexto do caos nos Balcãs, sempre com renitência do Tiago porque quando decorria essa história, nos anos 90, ainda ele era puto. Nada disto tem a ver com banda desenhada, mas é peça central do que se faz no Preto no Branco.
Preto no Branco é uma série antológica da Façam Fanzines, Cuspam Martelos, a editora, colectivo, onde o Tiago Baptista e a Catarina Domingues publicam o seu trabalho em bd, ilustração, e fotografia. No início esse selo servia para os zines do Tiago, mas a expansão do catálogo e de uma fiada de relações foi compondo uma dinâmica que extravasa o autor singular. Em Preto no Branco os dois convidam outros autores, e neste número, depois de uma ausência nos bastidores, o Tiago até tem uma história em banda desenhada em que o trabalho da Catarina lampeja brevemente.
O texto sobre os Laibach não é esquisito neste tipo de publicação. Em números anteriores tínhamos ensaios do Tiago sobre os Swans e os Crass onde também se falava da música por via da imagem, de novo uma imagem minimalista, absoluta, desarmante. Preto no Branco acompanha de perto essa austeridade estética, e se os primeiros três números tinham quadrados na capa a lembrar o suprematismo, neste a capa é preta e acartonada, limita-se a apresentar o título a cinzento, e dá mesmo aquela pausa de grande mono.
Não é que estejamos a falar de jarrões de sala; o conjunto é que faz jogo do sério, mesmo quando as histórias são curtas. Fala-se da guerra, de imigração, das crianças maldosas, da psicose, e da casa da Imperatriz. Entre páginas com fotografia, colagens, ou trabalhos de ilustração mais abstractos, pelas quais são responsáveis metade dos autores deste número, temos quem faz bd — Amanda Baeza, Tiago Baptista, Francisco Sousa Lobo, Aleksandar Zograf, André Lemos (este depende da lente que se usa). Paradigmática é a aparição no meio desse grupo do José Lopes, autor mais marginal, veterano num circuito "baixo" da bd portuguesa, um tipo que não via desde o "Há uma Luz que Nunca se Apaga", a mesma bd que o Tiago encontrou numa feira e lhe suscitou o convite. Nesta história reconhece-se o estilo dele, de linha fina a caneta e fundos planos de preto, e não é ovni nenhum, antes parece taco-a-taco com as últimas do Gilbert Hernandez.
A questão dos comebacks de que ninguém dá conta também se pode aplicar ao Francisco Sousa Lobo, embora o mais prudente seja admitir que existiram contributos no suposto intermezzo, mesmo que demasiado insulares para nos apercebermos. Lembro-me de ouvir falar e ler histórias do Lobo no início dos anos zero, e depois nada. Desde o ano passado que o autor nos tem presenteado com uma sequência de trabalhos que expõem um tipo que fritou, deu a volta, e desenha para recompor a sua narrativa.
Pondo de parte O Desenhador Defunto (Chili Com Carne, 2014), a obra mais longa desta sequência recente, que ainda não li, podemos montar um puzzle com as participações de Sousa Lobo em Preto no Branco #4, Crumbs (Kingpin Books), e Zona de Desconforto (Chili Com Carne). A esses junta-se o recém-editado comic a solo, O Andar de Cima, pela Chili Com Carne, coisa para 20 páginas que parecer ser fiel à dimensão dos originais.
O Andar de Cima apresenta, logo no verso da capa, uma fanfarra em forma de logotipos e missivas professorais sobre o Ano do Cérebro, mais uma daquelas buzzwords destinadas a marcar a agenda mediática. No caso em apreço, deu uma palestra na FCT acorrida por estudiosos e "personalidades", mas nada disso interessa muito, porque as meditações do Sousa Lobo são dispersas e inconclusivas, e em nada se aproximam de acta do evento.
O Andar de Cima é narrado na primeira pessoa por um tipo que foi torturado pela PIDE com discos da Amália, som que nunca mais lhe saiu do cérebro, e a espaços se juntou com outros, as vozes do "andar de cima". Fique claro aí que a conversa do homem está longe de suscitar choradinho, porque mesmo com consciência desses sussurros enquanto problema, adverte-nos que não pertence ao grupo das vítimas, mas mais ao dos estóicos ("não sou esquizofrénico, nem uma curiosidade tipo [as do] Oliver Sacks").
N'O Andar de Cima, claro, o protagonista tem que ser velho o suficiente para ter sido apanhado pelos fachos, mas Lobo nasceu em 73. Pode não ser ele. Mas é ele, ainda que tangencialmente. De lembrar que, por exemplo, a história de Zona de Desconforto é autobiográfica a nu, espécie de Art School Confidential com menos tiques e a ir mais fundo: dois dedos de conversa sobre o doutoramento na Goldsmiths e um historial depressivo com um surto psicótico. Não é por acaso que isto nos põe desconfortáveis — ver um gajo desbobinar-se numa bd não é pêra doce —, e somos quase forçados a concluir que aí sim, foda-se, o gajo viveu para contá-la, isto é que é bd. Tanto ele como nós sabemos que não é bem assim, daí as tangentes e as reviravoltas, porque narrar-se é mais do que uma estratégia argumentativa em banda desenhada; é uma estratégia identitária também.
Francisco Sousa Lobo já é como um José Carlos Fernandes virado para dentro, mas ainda não sabemos onde é que a mina da sua vida pessoal vai dar nem se se pode exaurir tão cedo. Certo é que, como em Preto no Branco, e agora lembro-me de trabalhos como o Journal do Fabrice Néaud, contar histórias não é nenhuma função primordial da banda desenhada. História é a forma final da coisa, quer a contes, quer não. Algumas lutam com a página como se o fim fosse uma deadline qualquer, mas trabalhos como Preto no Branco e O Andar de Cima sugerem que a reversibilidade é um factor importante: voltar atrás, rememorar, repisar um raciocínio, nada disso é trabalho parcelar, antes documento dum processo fundamental.