‘FEMINÍSSIMAS’. O QUE É O FEMINISMO NO SÉCULO XXI. Por Diego QS
O que é o feminismo? Tem sentido usar este conceito hoje em dia, ou quiçá esteja já desfasado e tenhamos que falar dum “pós-feminismo” ou algo polo estilo? Isto é ao que nos remite Feminíssimas, a última produçom de De Ste Xeito na que se pom em questionamento o conceito de “feminismo”.
Esta obra nom poderia fazer-se há 5 anos, nem dentro de 5 anos, porque o debate sobre este conceito está agora mesmo neste ponto a nível social. Poderia dizer-se que esta temática está na moda e que polo qual está obra é oportunista quiçá, mas isso seria nom entender em absoluto o que é a obra e o que é o teatro. O teatro, além de ser o lugar do entretimento, deve ser o lugar da reflexom; os debates sociais devem-se levar ao palco para revolver as mentes des espectadories (algo disto dizia Brecht e umhes quantes mais), e é isto o que fai Carrodeguas ao conceber a dramaturgia desta peça.
De primeiras apresentam-se-nos as duas grandes formas antagónicas de entender o feminismo, personificadas em Bea e Ruka, umha liberal e umha radical. No meio delas coloca-se-nos a umha pessoa nom binária, Gabi. Estas três pessoas atopam-se para participar num Congresso Feminista em Vigo, três amigues da adolescência que levavam mais dumha década sem se ver, só sabiam ês umhes des outres polo que publicavam nas redes sociais. Ês três alugam um piso em Vigo para passar juntes a noite anterior ao Congresso. Nessa noite, através dumha longa ceia e a sua posterior conversa e desfase, ponhem em questionamento a identidade, a amizade e o feminismo.
Cenicamente vemos ao mesmo tempo essa ceia no piso e as suas respetivas conferências do dia seguinte, umha convençom facilmente identificável polo público através da peça polo uso dum micro de pé nos momentos pertencentes ao Congresso. Podemos assim distinguir de primeiras dous níveis na história: o presente do piso e o nível proléptico do Congresso. Ainda que indo mais lá podemos distinguir também um nível extradiegético, quando falam as própias atrizes, bem sobre a obra como narraçom, bem sobre a realidade, ou bem para dar umha explicaçom informativa “de enciclopédia”; e também um nível analéptico, ao que pertenceriam as lembranças que som narradas ou diretamente encenadas.
Ao começo a construçom das personagens, e por conseguinte da história, semelha estereotípica, semelha quase umha paródia desse debate social, mas logo a cousa complica-se. O traspasso do debate dialético entre congressistas a umha conversa de amigues durante umha ceia fai que as discrepâncias entre questons ideológicas se levem ao pessoal, apresentando-se umha nova pergunta que inevitavelmente se acaba por fazer ê espetadore: que prevalece, a amizade ou a ideologia? Nesta obra, a amizade. Sinto-o polo spoiler.
Mas isto há de o explicar um chisco. Ao começo da ceia as discusons som as mínimas e típicas: contraposiçons da vida cotiá entre esquerda e direita em questons como se comer verduras “recicladas” dum contedor ou pedir comida a domicílio. Quando vai passando a noite a dicotomia entre esquerda e direita entre elus vai-se fazendo mais complexa. Bea solta a bomba de que está a esperar umha criança que está a ser gestada por outra mulher, um bebê de miles de euros comprado na Europa do Leste, algo que Ruka nom pode permitir ideologicamente. Gabi solta a bomba de que nom é umha mulher, algo que fai florescer o transfundo transfóbico do radicalismo de Ruka. E mais adiante descobre-se-nos que aquela radical que se colocara no rol de crítica feminista, a única das três que era “feminista de verdade”, resultou ser proprietária dum piso em Portonovo herdado de seu pai que arrendava a turistas.
A contraposiçom entre as três formas de entender o feminismo e a anulaçom das ideias dumhe coas doutre fam que apareça nas mentes do público a pergunta que move este espetáculo, essa pergunta que está na sociedade e ninguém sabe contestar: que é o feminismo? Fazendo-nos ver que a dia de hoje “feminismo” nom é mais que um significante baleiro. Como algo pode ser duas cousas contrárias ao mesmo tempo? E ao final ê que está no meio é ê mais avançade, ê que dá o passo a rejeitar o conceito de “feminismo” porque a dia de hoje está obsoleto.
Esta dicotomia ideológica rompe-se coas desgraças pessoais, as individuais e as partilhadas, e som justo estas desgraças que se contam e lembram as que fam que nom se deixem de falar. Dende as desgraças passadas como o primeiro aborto de Bea, que passárom juntes, ou como Bea tivo de buscar-se a vida no trabalho sexual, ou como a Ruka a violava seu pai dende pequena naquel piso de Portonovo, que ês outres dues nom sabem, ou como estas três pessoas se juntaram no instituto porque eram as marginadas, as marimachos, as feminíssimas; até as duas grandes desgraças atuais: o cancro de Gabi, coa parte positiva de que lhe vam extirpar esses peitos que tanta disforia lhe dam, e a ELA do marido de Bea, com toda a soidade futura que conleva para ela. Ao final som estes problemas mundanos os que fam que se aceitem, e que por fim Ruka se dirija a Gabi co género neutro.
Esta obra removeu-me bastante e reabriu velhos debates internos em mim nos que havia tempo que nom pensava. E isto leva-me ao seguinte: a quem remove isto? Como umha pessoa privilegiada que nunca se questionou a sua identidade, ou melhor dito, nunca tivo a necessidade de fazê-lo, que nunca viviu de forma precária, que nunca a atacárom socialmente, etc. receberá esta peça? Nom o sei, a verdade, nem é que me interesse muito. Nom me interessa a gente privilegiada. Interessam-me Bea, Gabi e Ruka. Interessa-me a nível social que se questionem os significantes baleiros como “feminismo”, e que isto se leve ao palco. Este espetáculo situa-se no momento histórico perfeito, nom por oportunista, senom porque este debate dialético existe na sociedade, e o teatro está para questionar estes debates.
Coordinación do blog O Galiñeiro: Afonso Becerra de Becerreá.








