Vestiu o casaco, sua cidade não era fria, nunca foi, o frio vinha da substância de dentro de si, aquele frio que se apodera da alma e se reflete no corpo. Passou a mão nos cabelos repetidamente como se estivesse a expulsar algo que se apoderava dela, aquela angústia explicável. Sentou na cama, calçou as sandálias e levantou. Após o ritual de quase exorcismo para levantar da cama, tomou coragem para urinar, sentindo uma leve dor notou que a demora fez mal a sua bexiga, num súbito interesse por si mesma resolve ser saudável, ainda que as 3 da manhã não houvesse conseguido dormir. Foi a cozinha, tentou não fazer barulho, impossível, casa pequena, barulhos grandes. Olhou a geladeira, achocolatado, não tinha outra opção. Não era um momento muito farto, pensou em quantos conservantes tinha aquele achocolatado, o que era um absurdo para quem de vez em quando fumava um cigarro com mais de 4000 e não sei quantas substancias, pensou, o que comeria? Pão e achocolatado. Havia um picadinho pronto congelado na geladeira, pensou nas indústrias de carne e toda aquela história trash que já sabemos. Parecia bonito talvez não saudável...mas bonito. Naquele momento desistiu de ser saudável, queria apenas ser sem fome. E acabar com o inconveniente de ser um inconveniente. Preparou o lanche, entrou rápido no quarto. Aquele era seu único reino. Saboreou com muito alívio aquele pão com picadinho gelado, parecia a melhor coisa do mundo.