Em paz
"Saciada a sede de escrever ia para a cama, sorrindo antecipadamente ao pensamento sobre o dia seguinte; o que lhe enviaria Deus para copiar?"
Nikolai Gógol, "O Capote"; desenho de Ludwig Meidner.

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Em paz
"Saciada a sede de escrever ia para a cama, sorrindo antecipadamente ao pensamento sobre o dia seguinte; o que lhe enviaria Deus para copiar?"
Nikolai Gógol, "O Capote"; desenho de Ludwig Meidner.
Livro de dezembro
Vamos ler "O Capote", para alguns o melhor conto do escritor. Foi publicado em 1842.
Festa
"Via-se que os funcionários já estavam reunidos havia muito e já tinham tomado a primeira rodada de chá. Akádi Akákievitch, depois de pendurar, ele próprio, o seu capote, entrou na sala e cintilou-lhe à vista, de chofre, uma mistura de velas, funcionários, cachimbos, meas de jogo, espantou-lhe o ouvido uma confusão de conversas que soavam de todos os lados, de barulho de cadeiras arrastadas."
Nikolai Gógol, "O Capote"; pintura de Vladimir Egorovic Makovsky.
O capote
"É de referir que o capote de Akáki Akḱievitch também servia de gozo aos funcionários: até privaram o pobre capote do seu nome próprio, passando a chamar-lhe de «roupão». De facto o agasalho era de constituição um tanto estranha: a gola reduzia-se a cada ano que passava, sendo que servia para remendos indispensáveis noutras partes, remendos esses que, de feios e malfeitos, não revelavam a arte do alfaiate."
Nikolai Gógol, "O Capote"; Renato Rascel em "Il Cappotto", realizado por Alberto Lattuada em 1952.
"Bateu o pé, levantou a voz até uma nota tão alta que qualquer um teria medo, e não só Akáki Akákievitch. Combalido, Akáki Akákievitch cambaleou, o corpo todo a tremer, sem se aguentar nas pernas: se os guardas não tivessem acudido e não o tivessem agarrado, cairia redondo no chão."
Nikolai Gógol, "O Capote"; ilustração de Vasilisa Aristova.
O alfaiate
"Akáki Akákievitch atravessou a cozinha sem ser visto pela própria dona da casa e entrou no quarto onde se lhe deparou Petróvitch sentado em cima de uma mesa larga de madeira tosca, com as pernas dobradas à maneira de um paxá turco."
Nikolai Gógol, "O Capote"; alfaiates londrinos a trabalhar, meados do século 20.
O fantasma
"É o teu capote que eu quero! Não fizeste nada pelo meu e ainda por cima me deste uma ensaboadela... pois... então agora passa para cá o teu capote!"
Nikolai Gógol, "O Capote"; ilustração de Vasilisa Aristova.
Medicina
"Graças ao generoso contributo do clima petersburguense, a doença desenvolveu-se com maior rapidez do que seria de prever, pelo que, quando chegou o médico e lhe apalpou o pulso, nada mais achou a fazer do que receitar-lhe uma compressa, unicamente para o doente não ficar privado da ajuda benéfica da medicina; de resto anunciou-lhe de imediato uma morte eminente para dali a dia e meio."
Nikolai Gógol, "O Capote"; gravura de Pietro Annigoni.