Meditaste já em quanto nos desconhecemos? Vemo-nos e não nos vemos. Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si.
Bernardo Soares (Fernando Pessoa) in Livro do Desassossego
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Meditaste já em quanto nos desconhecemos? Vemo-nos e não nos vemos. Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si.
Bernardo Soares (Fernando Pessoa) in Livro do Desassossego
Sartre errou. Não, não são os outros. O inferno somos nós. O que é o outro se não uma extensão do que sou eu? Eles dependem fatalmente de nós; os formatamos e montamos na vastidão dos espaços mentais, nós os fazemos e desmanchamos à nossa própria imagem. Errôneo fazer distinção. O que há entre o que vejo no outro e o que encontro em mim é uma linha que, de tão tênue, quase inexiste. O outro é um reflexo exato de suas próprias falhas, das suas dores, desejos, frustrações, amores. É fácil apontar para frente, mas bem analise e veja: está dentro.
4/2019
Dia 13: O crime de ser um cara legal
Hoje eu vi o cara. Vi de longe, saindo do mercado com ela, carregando as sacolas mais pesadas, abrindo a porta do carro, todo atencioso. E sabe o que é o pior, mano? O cara parece ser legal pra caralho. Ele não tem cara de babaca, não tem jeito de escroto, não tem nada que me dê o direito de odiar o maluco com propriedade. E isso acaba comigo, cara. Acaba.
Eu queria, do fundo do meu coração, que ele fosse um completo idiota. Queria que ele tratasse ela mal, que ele esquecesse o aniversário dela, que ele fosse um daqueles caras que só pensam neles mesmos. Porque aí, bicho, eu teria uma missão. Eu seria o herói injustiçado, o cara que sabe valorizar o que ele joga fora. Mas não... o destino resolveu me foder com requintes de crueldade e colocou um cara bacana no caminho dela.
É uma inveja doentia, sabe? Eu fico olhando e pensando: "Por que ele?". O que ele tem que eu não tenho? Será que ele entende as piadas internas dela? Será que ele sabe que ela odeia coentro mas adora pimenta? Pelo jeito que ele olhou pra ela enquanto fechava o porta-malas, ele sabe, cara. Ele sabe e ele cuida. E eu sou só o espectador dessa cena doméstica perfeita que eu projetei pra mim mil vezes.
Odeio o fato de não poder odiá-lo. Eu me sinto um lixo por querer que o relacionamento deles desse errado só pra eu ter uma chance. Que tipo de monstro torce contra a felicidade de quem ama, né? Mas a real é que dói ver que ela tá em boas mãos. Porque se ela estivesse mal, eu teria um pretexto pra voltar. Como ela tá bem, eu só tenho o meu exílio.
Eu sou o cara que sobrou na cadeira elétrica da rejeição, assistindo o "cara legal" levar o prêmio que eu achei que era meu.
Desce outra, cara. Hoje a bondade alheia me deixou com um gosto de cinza na boca.
A história da humanidade é a história de um período em que o ‘ego’ (o eu) fora o responsável por todas as suas conquistas. De outro modo, agora é o “outro” que deve mover a humanidade em todas elas.
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O Outro
Voto fiz de não usar ouro
e só beber água da talha,
não me fazer com navalha
até que pudesse ser outro.
Outro que bem seria
nascendo de mim novamente,
por tanto, subi à vertente
de onde correm meus dias.
Trancei o cabelo no escuro,
passei o que um homem passa
e sem ser outro nessa farsa
não me basto, não me iludo.
Para em outro me tornar
inda que no sempre corpo,
como se obstinado morto
teimasse por mim respirar,
tornei as noites tranqüilas
em turvas missas contrárias,
minha camisa procelária
sozinha flutua e se agita.
Meu dinheiro anda calado
sumido em bolsos de abismo,
mas todo o prejuízo
é ainda eu ser meu contrário.
Pois, contrário, não é ser outro!
é se abnegar em avesso,
é sempre o mesmo arremedo
sustentando o seu aborto.
De tudo o que o homem precisa
até ontem eu fui tribuno.
Hoje, mais passo jejuno
por não querer tais divisas.
Persigo o outro no espelho:
similimum, silêncio e virtude.
Por mais que em virgília estude,
fogem as feições com o segredo.
Ser outro nasceu de-repente
ou foi tijolo sob tijolo?
desde o instante mais novo
que a vida se dá de presente?
Aquele, o Alheio, na sala.
O que torna a mobília radiante,
quem, no desmazelo do instante
me tira parcelas da alma
(que de resto, tão mesquinha,
ao outro se converteu.
Nunca mais escureceu
e nem apagou sua luzinha).
Mas alma não é nada, não é o mar,
e nem mora mais aqui no peito.
Almas, têm o grave defeito
de dissolver, ou desfolhar.
Agora que o outro está pronto
sem as asas, sem a música,
simples em sua túnica
de terminal abandono,
então que foi tão chamado
para ser o que quase fui,
naturalmente ele flui
mais fremente que passado,
mais dono daquela fome
que eu tinha desperdiçado.
O outro está do meu lado
e experimenta meu nome.
E solta um gesto dobrado
e injustamente sem uso.
Repõe, com um só parafuso,
meu ombro decepcionado;
derrama algumas lágrimas
tão bobamente retidas,
que ao serem permitidas
só molharam umas páginas.
Escuta os órgãos noturnos
resolvendo a sua pasta,
e nem mesmo se afasta
se grita o coração no escuro.
Onde orgulho e talento
e as altas torres acesas,
o outro recolhe estranhezas
que foram ritmo e alento.
E depois de escadaria
que levam a quartos de fúria,
e suportar a penúria
de quantas salas sombrias,
o outro bate em paredes
que nunca serão abertas
por essas imagens desertas
em extremo estado de sede.
Somente quer ir embora,
aquele que me ensaiou
(o outro nem me abraçou,
uma vez aqui de fora).
Abriu asas dormentes
e se foi, por sobre os telhados,
e porque assim machucado
se afastou também para sempre.
Volto a mim mesmo, sereno,
ciente de não ter mais cura.
E bebo, com alegria obscura
desse meu, sozinho veneno.
- Helena Ortiz.
Não aguento mais ter que me preocupar com isso