"Outra Vida" de Rodrigo Lacerda
Mário Rufino [email protected] Outra vida by Rodrigo Lacerda My rating: 3 of 5 stars
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"Outra Vida" de Rodrigo Lacerda
Mário Rufino [email protected] Outra vida by Rodrigo Lacerda My rating: 3 of 5 stars
“Um lugar chamado Oreja de Perro” de Ivan Thays
“Um lugar chamado Oreja de Perro”
IvánThays
Eucleia Editora
http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=3760
“Cheguei à conclusão de que o pior que nos podia acontecer era acostumarmo-nos à morte, à impunidade, ao horror, ao mal” pag.19
I
Iván Thays constrói um cenário de silêncio, de melancolia e afastamento emocional a tudo o que rodeia o personagem principal. O jornalista em plena decadência profissional e destruído emocionalmente por uma perda irremediável é enviado para uma aldeia pobre, assistida por caminhos quase intransitáveis, que se prepara para assistir a um acontecimento que o jornalista adjectiva como “ridículo intento populista de um presidente que já se vai do governo e cujo partido não tem nenhuma oportunidade nas eleições” pag.15
O presidente é Alejandro Toledo Manrique.
Se acompanhamos o caminho de perda, de deterioração emocional do protagonista, fazemo-lo dentro do contexto sociopolítico do Perú. O Presidente Toledo prepara-se para ser substituído na presidência por Alan García Perez, outrora presidente no período de 1985-1990 e substituído, então, pelo controverso Fujimori.
Dez anos depois, em 2000, Fujimori viria a exilar-se no Japão, após inúmeros escândalos, e renunciar à presidência. Fujimori viria a ser acusado e condenado por violação dos direitos humanos.
É em 2001, após um período de transição, que Alejandro Toledo Manrique é nomeado presidente com uma elevada taxa de popularidade. No momento em que o jornalista se desloca a “Oreja de Perro”, Toledo cumpre o seu último ano de mandato (2001-2006), tem um índice de popularidade muito baixo, e prepara-se para ser substituído.
O jornalista viaja para “Oreja de Perro”. Enquanto a recém-constituída “Comissão da Verdade”, liderada por um professor universitário e filósofo (ou seja, liderada pela teoria), procura o que anuncia – a verdade - o objectivo do jornalista é diferente:
“a mim, o tema que atraía era o do mal. Quer dizer: é isto o ser humano?» pag. 17
A viagem não implica, somente, deslocação física, mas também alteração anímica. Durante o seu percurso, sabemos do desmoronamento do seu casamento através de uma carta deixada pela esposa, da degradação da situação profissional e da dor provocada pela perda do seu filho.
“Começam os primeiros sintomas do mal das montanhas. Dor de cabeça, náuseas, esgotamento, olhos inchados, a indomável carta resplandecente, lábios secos, palpitações nas têmporas. O estômago que se desloca lentamente em círculos. Insónia, não. Insónia, não posso permitir.” Pag.33
Tudo menos a consciência. A consciência implica pensamento, interacção, memória, dor. E a memória é um elemento fulcral no livro de Iván Thays.
“Oreja de Perro” é um tempo suspenso, um purgatório, na transformação do principal personagem do livro. O local sublinha a solidão e, como o próprio jornalista afirma, o barulho das moscas aumenta a sensação de clausura. “Oreja de Perro” é um pequeno lugar, de que, provavelmente, ninguém ouvira falar até a “Comissão da Verdade” o mencionar no seu parecer como palco de atrocidades. Nesse parecer é mencionado a existência de valas comuns e clandestinas. Os ronderos (patrulha camponesa; força de segurança baseada na comunidade) teriam sido os únicos a derrotar o terrorismo sem qualquer ajuda da polícia. Aliás, a localidade não havia sido visitada por qualquer força da autoridade.
“Nunca uma autoridade chegou até cá. Nem sequer um tenente alcaide. Agora o próprio presidente Toledo escolheu a zona para iniciar um programa de distribuição de dinheiro para camponeses” pag.15
Scamarone, o fotógrafo, é o seu companheiro de viagem. Segundo o jornalista, não há qualidade humana que recomende o seu colega. Cínico e detentor de uma retórica de sucesso, Scamarone é descrito como um indivíduo muito baixo, menos de 1,50m, capaz de convencer toda a gente que não era anão. A verborreia com que presenteava os seus interlocutores (ou ouvintes?), sobre viagens e com citações sem sentido, tinha o poder hipnótico sobre quem ouvia. A estatura do fotógrafo é uma metáfora sobre a estatura moral. No entanto, o cinismo de Scamarone terá um papel relevante na saída do limbo em que o jornalista caiu. Ele irá influenciá-lo a recusar a fuga, a dormência emocional, através de uma relação amorosa que, à partida e tal e qual acontecera com Mónica (esposa), se encontra condenada.
II
“Fui eu que permaneci enclausurado na sua morte” pag. 104
No dia em que parte para “Oreja de Perro”, o jornalista lê a notícia do homem que havia ficado amnésico após um trágico acidente que vitimara a mulher e o filho. Ele tivera oportunidade de o entrevistar e, em consequência, perceber o vazio da sua memória. Durante a sua estadia na aldeia, ele nunca esquece a situação desse homem. Por isso, algum tempo mais tarde, tenta convencer o Editor do seu jornal a deixá-lo entrevistá-lo, novamente. Tinha passado um mês e, devido à velocidade da informação, esse acidente pertencia a um passado distante. O autor apresenta-nos outro tipo de esquecimento. Já não é aquele que a quantidade de tempo “enterra”, mas um outro tipo de esquecimento: a velocidade de informação nova submerge a mais antiga Na segunda entrevista, o homem afirma não ocupar a sua memória com factos do passado, mas com informação recente, mais ou menos relevante, como citações de Shakespeare ou língua chinesa. Ele contou-lhe o que a professora de chinês lhe havia dito quando se lamentou pela falta de memória:
(…) Não tens que lamentar-te pela amnésia. A memória é uma espia. Tu conseguiste livrar-te dela, conseguiste extraviar-te da tua espia” pag.90
Sem memória tudo desaparece: o filho, a história, as emoções, a aprendizagem. E tudo se repete, renovadamente. O jornalista e o país precisam de recordar, de não esquecer a sua história de forma a construir um futuro com menos vícios do passado. A memória, no livro de Thays, é indissociável da culpa e da forma como se pode lidar com ela.
O jornalista parte para “Oreja de Perro” carregando o peso da sua memória. Tal como o país, ele está preso ao passado e tem muitas feridas por sarar.
A violência no Peru, como em todos os locais, alimenta-se do medo e envolve as suas raízes na ignorância:
“A tua mãe sabe ler?, perguntou-me um dia o polícia.
Sim, sabe, respondi. É professora
Isso é fodido, disse ele. Saber ler nestes sítios é fodido” pag.185
Muitas pessoas foram raptadas pelos militares para serem interrogadas, torturadas e mortas. Mas ele não se deslocou até ali por causa desse sofrimento, mas para escrever sobre o acontecimento político. E o paralelismo entre o país e o personagem não cessa com a incapacidade de esquecer o passado e construir um futuro: A escrita da carta de resposta à esposa e a chegada do presidente Toledo são dois acontecimentos por realizar. Tudo é constantemente adiado. Ambas as situações, ao acontecerem, implicam a tangibilidade do presente, a concretização da realidade que o personagem individual (jornalista) e a personagem colectiva (povo) sabem ser inevitável.
A imparcialidade/distância é colocada em causa quando ele se envolve com Jazmín, natural de “Oreja de Perro”, grávida devido à (hipotética) violação por um sargento. A miscigenação da população com a atrocidade militar é, assim, concretizada numa geração futura. Ele sabe que a sua envolvência com Jazmin não pode ser duradoura, e prenuncia: “ Seria mais fiel dizer que Jazmín é, e isso nota-se a léguas, uma dessas raparigas a quem vai suceder alguma coisa na vida. Ou melhor, como tinha dito o meu pai, uma rapariga de que há que fugir de imediato porque depressa se meterá numa alhada” pag.39
Jazmín assumia ser a mãe e o pai daquela criança. Nada queria da figura militar que havia raptado e torturado e morto a sua mãe (ascendência).
III
“O antónimo ideal da memória deve ser a imaginação, fantasiar, fazer ficção. Não a amnésia”
O caminho para a aceitação, para a Verdade, é um caminho difícil e talvez utópico tanto para o personagem individual (jornalista) como para o personagem colectivo (o país)
Iván Thays utiliza uma prosa seca de adjectivos, com frases curtas, que nos remete para a escrita jornalística. A utilização de apontamentos, que ele escreve no seu caderno, é um recurso narrativo que confirma essa vontade de manter o registo jornalístico.
Ao longo do livro, deslocamo-nos para um mundo com características próprias: Uma grávida que fala com os anjos e antevê o futuro, o acidentado que memoriza Shakespeare. Mas, sobretudo, somos transportados para um mundo que necessita de redenção, de um recomeço, de não esquecer a sua história, mas ultrapassar as dificuldades e despertar com lucidez para um novo dia.
“O mais arrepiante não é a foto. O mais arrepiante é que, quando a tirei, a ninguém importava um caralho que uns cães estivessem a comer os miolos dos mortos. Não era foto nem para primeira página, não era nada, estávamos acostumados a isso. Isso era o que me dava medo” Pag.222
“Oreja de Perro” pode ser o cão violentamente pontapeado pelo militar e defendido timidamente pelos populares, ou pode ser, pelo contrário, o cão magro e de cauda cortada que se passeia defronte do jornalista parecendo que se ri até o jornalista pensar, animado, que as coisas não têm de ser tão más. Podem ser melhor.
Mário Rufino
Un Lugar Llamado Oreja de Perro by Ivan Thays My rating: 3 of 5 stars View all my reviews
...ainda "O Longo Inverno"
Gosto do livro e gosto da autora.
Genuínos.
http://oplanetalivro.blogspot.com/2011/11/conversa-com-ruta-sepetys-sobre-o-longo.html
"Os Óculos de Ouro" de Giorgio Bassani (Pnet Literatura)
Os Óculos de Ouro
Giorgio Bassani
Quetzal
http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=4322
Depois de ter lido “O filho do desconhecido” de Allan Hollinghurst sobre a homossexualidade, aceitação e memória, eis que a leitura de “Os óculos de ouro”, de Giorgio Bassani, apresenta, também, alguns destes assuntos, embora abordados de forma diferente.
A obra de Bassani, escrita anos antes de “Um filho do desconhecido” de Hollinghurst, foi construída sobre a perspectiva de uma só voz, de um narrador, que nos alerta não conseguir ser fiável devido à incapacidade da memória reter os factos ao longo dos anos.
“Foi em 1919, logo a seguir à outra guerra. Por razões de idade, só tenho para oferecer uma imagem vaga e confusa dessa época” Pág. 7
A visão dos acontecimentos é próxima e parcial, tanto no aspecto afectivo como na amplitude da capacidade de observação. A cronologia da história sofre diversas elipses.
Contextualizado por uma época de convulsão política, onde Mussolini vai ganhando poder e o fascismo instala-se, Bassani aborda a problemática da aceitação e capacidade de viver com a diferença.
Dr Athos Fadigati, sobre quem incide a atenção, é um ottorrinolaringolista sem vícios aparentes, de aspecto paternal e olhos curiosos por trás dos óculos de ouro. Chegou a Ferrara (cidade onde Giorgio Bassani cresceu) e depressa ascendeu socialmente tratando das gargantas de duas gerações, pais e filhos. É aceite pelos clubes mais importantes e admirado pela população. Curiosamente, a sua desgraça começa pela boca, pela voz, daqueles a quem tratou.
Como qualquer boato, a voz inicial não é identificável. Quando ele sai do comportamento padrão da “alta-sociedade”, começa a ser alvo de comentários desde a sala de espera do seu consultório até às últimas palavras de qualquer casal no leito matrimonial. O que viria a marcá-lo, no entanto, não seria a possível homossexualidade; o que viria a colocá-lo fora dos rituais e companhia das pessoas que tanto prezava seria a demonstração social de tais hábitos. A sua vida sexual era vista como vício nefasto que deveria manter-se privado. Lentamente, a sua vida foi sendo cada vez mais limitada.
“Sim-diziam- agora que o seu segredo já não era segredo, agora que tudo era claro, tinha-se finalmente compreendido como lidar com ele. De dia, à luz do sol, dar-lhe grandes chapeladas; à noite, nem que fosse empurrado ventre com ventre pela multidão da Via San Romano, mostrar que não o conheciam. Tal como Fredric March no Doutor Jekyll, o doutor Fadigati tinha duas vidas. Mas quem é que não as tem?” Pag.20
O eu-narrativo ajuda, neste caso, à criação e manutenção da distância entre a narrativa e as características psicológicas do médico. Pouco se sabe dele, mas muito se especula. Só muito tarde temos a sua voz e nunca temos a sua opinião directa sobre o que se passa. Tudo isto apesar de haver alguma aceitação por parte da personagem que nos conta a história. É a sua inércia e dependência que o impossibilitará de reagir à mesquinhez social.
Assim chegamos à 2ª geração, aos filhos dos pais que começaram a frequentar o seu consultório, sem termos uma ideia sólida das características da personagem que motiva a narração. A nossa imagem do médico baseia-se em boatos, factos incompletos, conclusões falíveis, pois o que nos é dado a conhecer é, aproximadamente, o que a 2ª geração conhecia na época dos seus pais. Só quando ele começa a acompanhá-los, em viagem para Bolonha devido aos estudos, é que começamos a conhecê-lo melhor. E são estas constantes viagens que vão originar a queda definitiva de Dr. Athos Fadigati.
Numa dessas deslocações, Deliliers, elemento fulcral na queda do médico, pergunta-lhe: “ «Deixe lá o estrume, doutor», escarneceu, « e fale-nos antes daqueles dois rapazes da horta de que gostava tanto. O que faziam, todos juntos?» Fadigati estremeceu" Pag.”41
O respeito que lhe era tido devido à sua posição social, ao facto de ter tratado dos pais e deles também, vai decaindo até a um nível difícil de suportar.
“Era esquisito de ver e até penoso: quanto mais Nino e Deliliers multiplicavam as grosserias em relação a ele, mas Fadigati se agitava na vã tentativa de ganhar simpatias” Pág. 44
Após mais uma elipse temporal na narrativa, deparamo-nos com o que denominam de «amizade escandalosa» entre ele e Deliliers.
A deterioração emocional é gradual até ao desfecho. Só o narrador mantinha algum respeito por ele.
“ Eu ao menos não o tinha ludibriado. Em vez de me associar a aquém o traía e explorava, havia sido capaz de resistir, de conservar por ele um mínimo de respeito” Pág. 78
O médico é dominado por uma atitude passiva e reactiva. A sua inadaptação ao tipo de comportamento social onde impera a censura e o boato causa constrangimento ao leitor.
A dignidade é posta em causa tanto no aspecto emocional como no aspecto físico. Mas a intolerância não se resume à sexualidade. O fascismo impõe-se e fala-se na promulgação das leis raciais. A preocupação entre a família do narrador é cada vez maior porque, apesar de serem defensores da ideologia vigente (fascismo), vêem que podem ser muito prejudicados por serem judeus. E a antiga crispação com os cristãos renasce:
“(…) eu sentia nascer o antigo e atávico ódio do judeu em relação a tudo o que fosse cristão, ortodoxo, em suma: goi” pag. 100
Georgio Bassani arquitectou um romance onde a intolerância é o tema-chave. Numa época de convulsões ideológicas (socialismo vs fascismo), religiosas (judaísmo vs cristianismo), sexuais (heterossexualidade vs homossexualidade) a harmonização entre ideias, crenças e escolhas sexuais revela-se incompatível.
Ao longo das 126 páginas que compõem este livro, o leitor é confrontado com a incapacidade de uma comunidade de lidar com as diferenças entre os seus elementos. O senso comum, que não passa de uma média aritmética da vontade, esmaga o individual. Dr. Athos Fadigati é uma vítima da sociedade e da sua incapacidade de reagir perante tais agressões.
Mário Rufino [email protected]
“Uma Vasta e Deserta Paisagem”
“Uma Vasta e Deserta Paisagem”
Kjell Askildsen
Edições Ahab
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=545039
Kjell Askildsen é um predador de silêncios.
Quando tudo se cala e o homem é obrigado a lidar consigo mesmo, a culpa emerge, a solidão instala-se e a vida torna-se quase intolerável. A inevitabilidade do aparecimento da ausência, da instalação do “Nada”, é um peso árduo de suportar. É este vazio que o autor consegue captar de forma sublime tanto em “Uma vasta e deserta paisagem” (Ahab Edições) como em “Um repentino pensamento libertador” (Ahab Edições).
Askildsen escreve o necessário e nada mais. Ao deixar de dizer o que se intui, ao conseguir um (quase) perfeito equilíbrio entre o dito e o não-dito, o autor consegue mostrar o horror que o ser humano sente pelo vazio. A história que nos é contada é um instante essencial na vida do (s) interveniente (s), onde os conflitos permanecem irresolúveis. O leitor percebe que há mais aquém e além do que é mostrado. As várias histórias que compõem “Uma vasta e deserta paisagem” são estupendas criações literárias, onde o autor consegue no formato de narrativa curta capturar a angústia da solidão e a incapacidade de percebermos integralmente quem é o “Outro”
Em “Não sou assim, não sou assim”, o narrador não consegue ter uma conversa sobre amor, amizade, ou seja, não consegue sair de si e ir ao encontro do seu interlocutor. Essa Alteridade é-lhe ofensiva.
“ E quando, para cúmulo de tudo isto, começou a falar de amor, decidi dar por terminada a minha visita. Há muito pouco amor no mundo, disse ele, tem de haver mais amor pelo próximo. Era confrangedor. Quem é o próximo?, perguntei eu, e o que é o amor?” Pag.23.
Esta postura é sublinhada, também, em “O estimulante funeral de Johannes”, onde observamos a aversão a sentimentos e atenção alheias. A passividade perante os acontecimentos e sentimentos, condizentes com o estatuto de observador não vinculado, é a condição desejada por grande parte das personagens de Askildsen.
Em “O jóquer”, o narrador tem necessidade de sair de casa (acontecimento) para poder observar e concluir que nada é aquilo que pensava. Antes de sair, ele afirma: “ Talvez tenha sido esse o motivo, a chuva suave e o silêncio, o certo é que aconteceu o que acontece de vez em quando: cai sobre nós um vazio enorme, como se a própria falta de sentido da existência entrasse por nós adentro e se estendesse como uma imensa e despida paisagem” Pág.57
E é quando deixa de ser interveniente directo e passa a espectador que consegue apreender a essência de toda a estrutura física e emocional que o rodeia.
Askildsen incide o seu olhar sobre o espaço que reside entre as pessoas, as brechas de cada relação, o silêncio que mora nas frases e o vazio implementado pela efemeridade da Vida.
Mário Rufino [email protected]
“Por Este Mundo Acima” de Patrícia Reis
“Por Este Mundo Acima”
Patrícia Reis
http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=3454
I
“A amizade é um amor transfigurador e potente. É uma arma.”
Pag. 127
Patrícia Reis oferece-nos um livro optimista, onde a amizade é a verdadeira reconstrução num mundo destruído. No seu 6º romance, transporta-nos para um mundo pós apocalipse e arruinado em estruturas e emoções. A sobrevivência é imperiosa e o Homem regride à sua condição de animal.
Nas primeiras páginas, a autora demonstra que existem relações produtivas e explícitas (intertexto) com outros textos. Neste caso, existem relações identificadas com textos de Fausto, «Por este rio acima», e com Brecht, «Do pobre B.B.». Por ser um livro que aborda directamente o papel da literatura na sociedade, existem outras aproximações a outros autores com a subtileza exigida, ou não, pela própria autora. “Por este mundo acima” é um livro que dialoga com a literatura; não é fechado em si mesmo, mas antes abre possibilidades de leituras a outros livros. De outra forma, pode-se afirmar que existe abertura do texto ao pensamento sobre a historicidade e sociedade onde o Homem se insere e influencia.
A narração é sobretudo psicológica e não pude deixar de me lembrar de “Fome” de Knut Hamsun e de “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago (Saramago começa, no entanto, com uma impossibilidade, ao contrário de Patrícia Reis). Assim sendo, a narração ocorre na 1ª pessoa do singular. Esta perspectiva confere uma maior proximidade do leitor ao pensamento do personagem Eduardo (principal narrador). A sua visão sobre as outras personagens será a nossa, também, uma vez que não existe uma entidade omnisciente e concretizada numa 3ª pessoa. No entanto, através da estratégia narrativa de uso de cartas/apontamentos (aqui temos o diferimento da mensagem que abordaremos mais à frente) a autora dá-nos a oportunidade de estarmos mais próximos das emoções e ideias de uma entidade essencial no livro: Sofia. É sobre ela, não exclusivamente mas principalmente, que incide o espírito de tolerância das outras personagens, individualmente e como grupo. É por este meio que descobrimos os acontecimentos da sua vida que influenciaram a sua formação emocional. A aceitação das suas características e o amor que todos sentem por ela é a chave de leitura deste texto. É este tipo de amor que pode levar o Homem à sua salvação. A relação entre eles é de longa data: “ Há mais de trinta e tal anos que falamos das listas do Eduardo” pag.79. E a interdependência emocional é partilhada por todos.
Mais do que um texto musical, construído com frases mais longas interrompidas por frases mais curtas originando mudanças de ritmos, diria que o texto é, sobretudo, fílmico devido à construção de imagens fortes e sugestivas.
A nível temático, o texto relaciona-se com os factores externos (contexto) a si próprio, fundamentando a sua produção, recepção e interpretação em acontecimentos possíveis. Nunca ficamos a saber o que realmente aconteceu. Nem é importante. O que o texto nos transmite é a ruptura com um passado (contexto situacional), um apocalipse que reduz o ser humano à sua essência, ao seu instinto de sobrevivência (universo simbólico).
“O meu corpo estremece. Não o controlo. Vejo as mãos suadas e tento continuar. Sou um animal. Regresso a isso” pag. 126
“É fundamental deixar de pensar”pag.124
Posteriormente, é sobre este movimento niilista que se constrói a salvação, a aceitação e, essencialmente, a elevação do melhor do Homem: A amizade como amor, como dedicação ao próximo em detrimento das próprias necessidades (visão do mundo). Segundo Levinas, o altruísmo, a decisão de colocar o Outro em primeiro lugar pode atenuar o terror da existência. Essa é a nossa transcendência. É esse terror que existe ao longo do livro de Patrícia Reis e é o amor, composto por altruísmo e inclinação para o Outro, que o pode atenuar, sem o derrotar.
II
O homem constrói, permanentemente, narrativas. o Homem constrói um texto narrativo quando fala do seu percurso de vida, da história clínica, ou quando conta algo a alguém. Assim sendo, não pode viver sem a produção e recepção desses mesmos textos. Eduardo tem essa percepção e insiste, permanentemente, em recordar/narrar os acontecimentos passados e, principalmente, dar a conhecer a sua memória, os acontecimentos que o marcaram, a Pedro.
“ Ele fazia lista de livros que era importante circular. Livros luminosos que, não sendo lamechas, nos revelavam a vasta matéria dos sentimentos que definem a condição humana”pag.164
Segundo Aguiar e Silva (1990), « a narratividade encontra-se intimamente correlacionada com o conhecimento que o homem possui e elabora sobre a realidade- o Génesis pode-se considerar, sob esta perspectiva, como a narrativa paradigmática e primordial -, devendo ser sublinhado que lexemas como “narrar”, “narrativa” e “narrador” derivam do vocábulo narro, verbo que significa “ dar a conhecer”, “tornar conhecido”, o quel provém do adjectivo gnarus, que significa “sabedor”, “que conhece”, por sua vez relacionado com o verbo gnosco(pp. 201
A narração é indissociável do tempo. Uma característica interessante de “Por este mundo acima” é o facto de a narração ocorrer no futuro, no espaço de um mundo possível, viajando entre o passado (tempo presente do leitor) e o presente do narrador (tempo futuro do leitor). Entre os vários marcadores temporais que nos fornecem essa informação, além do sistema verbal, há um que pretendo sublinhar: A referência ao próprio livro de Patrícia Reis remete-nos à actualidade e indica que ele narra no futuro. E este aspecto é intrigante porque um texto escrito é uma forma de diferimento da mensagem. Através da escrita pode-se perpetuar, ou pelo menos assegurar a permanência no tempo, da mensagem. O personagem adjectiva o livro de “datado”, isto num diálogo sobre o Facebook , o MSN e o Youtube. Ou seja, podemos utilizar esta referência como “ a leitura do texto”, necessariamente mais próxima desse futuro possível; ou como a “edição do texto”, mais afastado desse futuro apocalíptico.
A narração situada no futuro levanta uma outra característica importante e coerente com a temática de “Por este mundo acima”: A presença do verbo “Ser” no futuro é uma vitória, ainda que escassa e ténue, sobre a morte. E o texto é isso mesmo: uma narração no futuro que encontra os seus alicerces no passado para, com esperança e renovação, continuar a adiar a morte definitiva dos valores culturais do Homem e, por fim, dele próprio.
A morte da memória ou a ignorância invalida a continuação da história. Analise-se a conjugação verbal da seguinte frase: “O homem da gabardina bege terá uma história e eu gostaria que alguém me contasse tudo em pormenor” pág. 93
A probabilidade desce do futuro imperfeito até ao imperfeito do conjuntivo… porque não há ninguém para contar.
III
“Voltámos ao princípio e até temos um livro para nos guiar” pág. 157
A reorganização social começa quando Eduardo encontra uma criança: Pedro. E devido ao poder transformador deste personagem, a autora divide o tempo em antes e depois do apocalipse:
“O caos aconteceu quando ele andava pelos quatro anos de idade, quase cinco. Fizera os 8 há dois meses”. Pag.114
Pedro é um recomeço, é um exemplo de generosidade num mundo destruído pela falta de comida, de água, de higiene e falido de cooperação e altruísmo: “Ele parte outra bolacha em quatro, desajeitado, e oferece-me dois pedaços” Pag. 119
Pedro incentiva Eduardo a quebrar o seu medo de convivência, de partilha de um espaço e diálogo com outros sobreviventes. E assim conhecem Miguel, jornalista, que vagueia pela Península Ibérica transportando notícias. Este personagem, aparentemente secundário, tem um papel importantíssimo na história: Ele é o responsável pela interacção entre os povos, pois é ele que transporta as notícias sobre os outros, os sobreviventes. Miguel é o mensageiro (apóstolo?).
“ A sua vida resume-se a ter estado sozinho, a recolher histórias para depois partilhar. Não criou raízes, não se deixou ficar num qualquer outro lugar. Partiu à procura de algo de melhor que possa, um dia, trazer de volta uma certa ideia de humanidade” pág. 161,162
A reorganização vai-se consolidando. Os anos passaram e com eles veio a capacidade da sociedade se organizar. São mencionados progressos em países distantes.
Pedro descobre as caixas com as recordações escritas de Eduardo. A memória de Eduardo sobrevive, através de várias caixas com textos que foi armazenando desde a infância, na interpretação e na memória de uma criança. A memória individual é transmitida, desta forma, para as mãos e memória individual de Pedro. Mas não chega. Era imperativo a sociedade, que tem a força de uma personagem, manter a sua memória colectiva de forma a não repetir os erros do passado:
“ Decidiram passar a biblioteca da avó de Eduardo para um centro cultural, para estar sempre disponível, para ser a memória de todos” pag.180.
Pedro começa a recriar o alfabeto, primeiro passo para a impressão em papel, e, além do livro de Sebastião, outros livros foram escritos e difundidos pela nova sociedade que emergia dos escombros. Miguel, o jornalista, fala com Eduardo sobre a escrita de um novo manuscrito, uma história sobre o presente, a nobreza, onde a linha do Bem e do Mal se distingue (O Novo Livro/Testamento). A revisão do livro foi a última tarefa de Eduardo.
- O livro como salvação
Na cultura judaico-cristã, como afirma Victor Aguiar e Silva (1990), texto significa obra escrita, o livro, obras religiosas detentoras de autoridade. Na idade média, texto significa a obra do autor, ou seja, obra da pessoa que exerce autoridade. Até ao século XXI, o termo texto não apresenta uma mudança de significado, embora tenha ganhado alguma ambiguidade semântica.
A autoridade emana do livro de Sebastião. É uma obra-prima, segundo Eduardo, e, mais do que isso, é o livro que transporta o passado recente para o futuro. É a continuação temporal, a passagem cultural do que aconteceu antes do acidente. Pedro, já mais velho, é muito céptico em relação a esta hipótese: “Não é um livro orientador, é uma ficção e isso é claro, é uma parábola do tempo em que foi escrito e um achado futurista adequado às circunstâncias» pág. 157
E numa frase simples e ingénua interroga o leitor e o próprio texto: “Voltar ao princípio? Será possível? O que é o princípio?” pag.157
Estamos perante a dúvida a que Steiner, em “Gramáticas da criação”, responde: “Já não temos começos”. Mais: Nas palavras de Pedro, há um reflexo das dúvidas do Homem em relação aos Evangelhos, ao livro orientador e fundador da moral cristã. É no livro de Sebastião, hipotético pilar da refundação social, que incide o debate entre Pedro e Eduardo.
Este livro representa um caminho, individual e/ou colectivo, para o sentimento mais nobre do Ser Humano: Bondade.
“É urgente ensinar a partilhar, Pedro. Para não voltarmos ao mesmo. A Sofia, o Jaime e o Lourenço sabiam o que era bondade. Não por serem bondosos, repara, mas por o saberem distinguir e praticar no dia-a-dia sem se fazerem notar”
Pág. 170
Bibliografia:
REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Lopes (2000) “Dicionário de Narratologia”, Coimbra, Almedina
AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de (1990) “Teoria e Metodologias Literárias”, Lisboa, Universidade Aberta.
Mário Rufino
"O Segundo Avião" de Martin Amis
O 11 de Setembro de Martin Amis
Texto: Mário Rufino
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=4&id_news=538210
“Não distinguimos entre militares e civis, todos são alvos”
Osama Bin Laden em entrevista a John Miller, ABC, 1998.
“O Segundo avião”, escrito por Martin Amis, é uma interpretação ficcional e filosófica do fundamentalismo que eclodiu num dos episódios mais traumáticos da História dos Estados Unidos da América.
O autor dividiu a sua reflexão (14 textos) em duas partes distintas: doze ensaios e recensões e duas ficções curtas.
Durante os 12 ensaios e recensões exprime a sua posição sobre as religiões e o Islão/islamismo, em particular. A aversão a acções não baseadas na gnose e na racionalidade motivam-no a construir textos que o vinculam a uma opinião ousada e muito assertiva:
“ O que eu sou é um islamismofóbico, ou melhor dizendo, um anti-islamista, porque fobia é um medo irracional, e não é irracional temer-se algo que diz que nos quer matar. O inimigo mais geral, evidentemente, é o extremismo” pág. 10
Aos nove anos de idade, Amis renuncia a Deus e, na sua apostasia, “dessacraliza” várias Bíblias (era coleccionador) e, segundo ele, queimou duas ou três num recanto do seu quintal.
É no campo teológico que encontra inquietantes semelhanças entre os EUA e, por exemplo, um dos inimigos caracterizados como pertencentes ao “eixo do mal”: o Irão.
O conhecimento cede perante o irracionalismo religioso tanto de Ronald Regan/George W. Bush como de Mahmoud Ahmadinejad: “ ambos os homens [Reagan e Ahmadinejad] habitam aquela planície iluminada por tempestades do fim dos tempos se encontra com as armas nucleares” pag.113
Mas pela primeira vez a guerra não se limita a uma área geográfica. A motivação oriunda da crença não tem nacionalidade, mas religião. A utilização beligerante de vários símbolos pertencentes à cultura norte-americana (o avião, sinónimo de liberdade de movimentos, World Trade Center, Pentágono) atingiu frontalmente o sentimento de segurança da cultura ocidental. Se os EUA viram no 2º avião o horror de uma acção criminosa e propositada, a Europa ficou espantada com a pretensa facilidade do nascimento do horror no coração da liberdade do indivíduo e do capital. A catástrofe não foi, somente, norte-americana. As ondas de choque atravessaram o oceano e colocaram em causa a hipotética infalibilidade da rotina diária dos cidadãos. “Se acontece ali, onde existe tanta segurança, o que poderemos fazer para não acontecer aqui?”
Os atentados de Madrid e de Londres mostraram que o terror não tinha pátria nem um território definido.
A impossibilidade daquela realidade limitou o uso da ficção como catarse durante alguns anos. Muitos escritores abordaram os acontecimentos pela perspectiva jornalística, de relato do real, em detrimento da construção ficcional. A ficção foi esmagada pelos acontecimentos.
«Um romance é conhecido cortesmente como uma obra da imaginação; e, nesse dia, a imaginação fora evidentemente confiscada por inteiro, e sem qualquer objectivo” pag.21
Durou algum tempo até a criação artística usar essa dor na produção de documentos ficcionais que abordassem a temática do 09/11. Spike Lee, no cinema, DeLillo na Literatura foram dos primeiros a abordar directa ou indirectamente esta temática. “O Homem em Queda”, de DeLillo, é um excelente documento ficcional sobre os atentados.
Martin Amis tem, neste livro, duas narrativas curtas dotadas de uma qualidade invulgar, principalmente em “No Palácio do Fim”.Neste conto, o autor consegue transmitir a atroz despersonalização do indivíduo.
No outro conto, “Os Últimos Dias de Muhammad Atta”, pratica um agónico exercício de alteridade. A perspectiva adoptada é a de Muhammad Atta, um dos terroristas que direccionou um dos aviões contra uma das torres gémeas.
Em Portugal, o terrorismo tem sido amplamente debatido na Comunicação Social, mas não teve, até recentemente, uma presença importante na Literatura.
No entanto, em 2011, Pedro Guilherme-Moreira editou, com muito sucesso, o romance “A Manhã do Mundo”.
Quando lhe foi perguntado por que razão tinha escrito sobre 09/11, o autor português respondeu "talvez porque somos todos América, mesmo que em contraponto, e porque era fundamental que ficasse assente o ponto de vista das vítimas, o tal que não importa à história com agá grande, mas nos importa a nós: aliás, eu gostava que o livro fosse sentido e lido como o "se isto é um homem" do piso 106 da torre norte, e não apenas como um livro sobre o 11 de Setembro."
Ao longo do livro de Amis nota-se a atenuação da vertente emocional conforme a produção dos textos se vai afastando de 11 de Setembro.
“O Segundo Avião” é uma reflexão do autor, tanto no aspecto ensaístico e na reportagem (com Tony Blair), como na vertente ficcional. E é através dos mecanismos de ficção que consegue elevar a qualidade literária do seu livro. Estes dois contos mereciam estar inseridos num outro tipo de estrutura, numa outra obra.
Apesar de ser um importante documento de época que contribui para a reflexão sobre extremismos, certamente que este interessante livro não ficará registado como um dos mais importantes na obra deste escritor.
Mário Rufino