Em 2010, com o álbum de estreia Dentro da Matriz, nasceu OMIRI, um projecto original onde se junta a música electrónica aos sons do folk. Vasco Ribeiro Casais é OMIRI e desdobra-se em vários instrumentos para criar uma experiência única. A acompanhar a gaita-de-foles, o cavaquinho ou até o bouzouki português estão vídeos que proporcionam a quem vê e ouve uma reinvenção da tradição completamente diferente do que já foi feito até agora. Depois de nos ter posto a dançar no concerto que deu no Sofar Sounds Lisbon, fomos saber mais sobre este projecto peculiar.
Como foi a experiência no Sofar Sounds Lisbon?
Foi muito boa. Na altura em que estou na minha carreira, normalmente fico sempre sem saber se as pessoas vão gostar ou não, ou que público é que vai. Sei que algumas pessoas já vão para me ver mas outras conhecem o projecto nos concertos e aqui já sabia que a maior parte das pessoas estava mesmo desligada daquilo que eu fazia, foi fixe ver a reacção das pessoas à minha música e à música portuguesa tocada desta maneira.
OMIRI traz o tradicional ao meio alternativo e mostra uma outra forma de fazer remixes. Como é que surgiu a ideia para este projecto?
Há 10 anos atrás, estava cansado das bandas e das negociações, então decidi fazer alguma coisa sozinho. Fiz este projecto e entretanto conheci o Tiago Pereira que é o realizador dos vídeos. Ele filmou-me para um vídeo que estava a realizar e, depois de falar com ele, disse-lhe que tínhamos de fazer alguma coisa juntos, o que resultou nisto. No início, fazíamo-lo com vídeos de dança contemporânea de Anne Teresa de Keersmaeker e de outros nomes deste meio, mas depois o Tiago começou A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria e as gravações destes sons tradicionais. Um dia, ele passou-me os vídeos, eu disse-lhe que ia montar uma coisa com eles, fiz a electrónica do som com os vídeos e depois dessa montagem pensámos logo que isto é que funcionava. O Tiago tem a vida dele e os seus projectos, então deixou de estar ao vivo, mas continua a ser o responsável pelos vídeos. Agora, a ideia do projecto é pegar na tradição, pegar nos senhores, senhoras, meninos e meninas, pô-los no vídeo a tocar, fazer electrónica com isso e depois fazer um baile, porque isto é música de baile, não no sentido de bailarico da aldeia, mas no sentido dos bailes mais tradicionais, tipo o “Repasseado” e o “Malhão”. Às vezes até acontece um 3 em 1 nos concertos: estão os videos a passar, eu a tocar e as pessoas a fazer as coreografias, fora as que estão só a ver o espectáculo.
Como e onde é feita a recolha das imagens que são utilizadas nos concertos?
Há imagens de todo o território nacional, inclusive das ilhas. Eu não tenho um papel nessa parte da recolha, quem o faz é o Tiago Pereira, que me vai perguntando se preciso de mais vídeos. Depois de me passar os vídeos que preciso eu trabalho sobre eles.
Sendo que, na tua música, recorres a estes registos visuais, como é que funciona todo o processo criativo de compor temas?
Há uma coisa que condiciona o processo à partida e que podia ser mais fácil para mim se não tivesse essa componente: a questão do baile. Por exemplo, eu penso que vou fazer um “Repasseado”, que tem uma estrutura certa de oito compassos a frase A, repete-se esta frase e depois a frase B tem mais oito compassos num tempo de 2 por 4, com uma batida e balança certos. Isto condiciona logo tudo porque a música tem de ser assim, tem esta estrutura fixa. A minha ideia era fazer isto com aquele power dos DJs e comigo a tocar com os velhotes na mesma. No entanto, sem querer entrar por entrar por questões muito técnicas, como grande parte da música tradicional funciona em compassos ternários e não quaternários [passíveis de ter uma batida mais forte], isso torna mais difícil ter aquele groove que puxa logo as pessoas. Isto é um desafio mas, quando começa a soar bem, soa mesmo de maneira diferente, não é possível comparar a esta ou aquela música porque a base é, desde logo, diferente. Portanto, a componente que me baliza também é a que faz com a que a coisa seja diferente.
Como é que as pessoas que são filmadas reagem a estes remixes das músicas populares que eles conhecem desde sempre assim?
Normalmente, principalmente as pessoas mais velhas, adoram, ficam mesmo contentes. Por exemplo, há um vídeo que surgiu quando eu fui fazer um concerto e os organizadores me falaram de uma senhora local que podia ser interessante participar no projecto, então eu fiz a canção com ela. Depois, convidaram a senhora para ver o concerto e vi que estava contentíssima. Já me aconteceu também uma vez ter uma sobrinha de uma senhora que participou e que, quando a reconheceu, disse logo que a tia dela não tinha autorizado isto, estava indignada e também estava um bocado tocada, na verdade. Por outro lado, uma das senhoras dos vídeos é a avó da minha mulher, falei com ela e ela concordou em filmar, depois quando se viu ficou muito contente. No geral, sentem muito orgulho em verem-se numa coisa nova.
Já tens um álbum como OMIRI, O Dentro da Matriz (2010). Está nos teus planos lançar um novo disco em breve?
Sim, eu tenho um segundo álbum pronto e já o podia ter lançado, mas agora trata-se de uma questão de estratégia porque ainda estamos a negociar algumas coisas lá fora e com editoras. O disco sai na Primavera de 2018, mas ao longo de 2017 vão sair vários singles, um por trimestre.
Reportagem: Inês Henriques e Filipa de Sousa
Fotografias: Pedro Nogueira