No Sofar com... Niles Mavis
O produtor e DJ Nel’Assassin estreou-se este ano como Niles Mavis, nome que resulta de um inteligente trocadilho com o nome de um dos maiores músicos de jazz Miles Davis. Niles é a sua mais recente identidade de uma carreira de personalidade camaleónica: Nelson Duarte é também DJ Assassino e Sr. Alfaiate. Mestre na arte do corte e costura musical, o seu primeiro álbum foi lançado há doze anos e desde então que conta com uma carreira repleta de colaborações e trabalhos de originais. Após uma actuação incrível na 30ª edição do Sofar Sounds Lisbon, acompanhado por um ensemble de topo, fomos falar com o Sr. Alfaiate sobre o disco novo e as influências antigas.
Como foi a experiência no Sofar Sounds Lisbon? Ainda agora acabei mas acho que foi tão bom que é delicado para mim descrever agora. Mas mega positivo. Acho que nunca fiz concertos tão intimistas, acontecem sempre em palcos ou em night clubs, assim é mesmo diferente. Sou fã do Sofar.
Este ano lançaste-te como Niles Mavis, sendo que ao longo da tua carreira te tens vindo a assumir sob diversos nomes. Porquê esta diversidade de alter-egos? E quem é o Niles Mavis? Eu não consigo explicar bem, faço as coisas porque sinto que as tenho de fazer. Eu lido com os discos e com as edições como lido com a música dentro de estúdio, de forma espontânea e quero que seja assim sempre. Niles Mavis porque o jazz é capaz de ser a minha maior influência musical e acho que é preciso valorizar mais os oldies, a origem de tudo o que se passa agora. É um bocado uma homenagem aos grandes músicos, desde o James Brown ao Miles Davis.
Lançaste o teu álbum como Niles este ano, com todas as faixas produzidas e escritas por ti, sendo que tem uma aura jazzística e soul que nos transporta para o Bronx nos anos 80 e 90. Fala-nos um pouco sobre este disco e das suas inspirações.
Durante o processo do álbum tive de fazer viagens, fui a vários países e levo sempre o meu estúdio ambulante comigo. Nos hotéis, comecei a produzir este disco em sítios diferentes, ambientes diferentes, países diferentes. Houve temas que foram produzidos aqui, outros no Brasil, Estados Unidos e em vários países da Europa, então acho que ganha um conteúdo muito interessante e também importante para ti próprio. Acho que ter estado em vários países foi a grande influência mas musicalmente, como já te tinha dito, James Brown, soul antigo e o funk, a One Thing Clear, um dos temas do álbum, é assim mais electrónico, por exemplo. Não gosto de me focar só numa coisa, se a minha mente e o meu coração me pedem para fazer mais coisas e se tenho capacidade de as fazer então vou fazê-las. É como os nomes: Nel’Assassin foi o meu primeiro nome como DJ e Sr. Alfaiate faz sentido para mim porque surge como o nerd do estúdio a cortar waves e agora Niles Mavis com este álbum.
E na Pushin, um dos temas preferidos do álbum para nós, fazes uma homenagem incrível às Salt N’ Pepa também, com o refrão do tema Push it.
E era para meter um sample das Salt N’ Pepa mas esse tema da Salt N’ Pepa é uma grande influência, sem dúvida.
Que disco nunca falha quando actuas? Há vários que não podem falhar, mas posso dizer que a Saturdays [A Roller Skating Jam Named “Saturdays”] dos De La Soul.
Já contas com uma carreira longa na arte do djing e do scratch, por isso tens acompanhado de perto as suas mudanças em Portugal. Sentes que o papel do DJ tem vindo a ser cada vez mais reconhecido cá? Sem dúvida que tem, as coisas evoluíram e a internet ajudou. Venho de uma altura em que a internet já existia mas era tudo em vinil e não em digital, e o digital permite fazer várias coisas. O scratch está a evoluir bastante e a minha intenção desde o início foi essa, que houvesse pessoas que me entendessem e que levassem o legado para a frente como eu levei o legado dos outros que estavam atrás de mim, como o Stereossauro ou DJ Ride. Podia referir vários nomes, tenho uns 10 que considero que são importantes na cultura e que apesar de terem vindo depois de mim eu estou muito atento ao trabalho deles porque sozinho não se consegue fazer nada. É como se fosse uma team dispersa.
Entrevista: Inês Henriques e Filipa de Sousa
Fotografias: Carlos Martins e Gonçalo Sousa











