Quando o Conselho definiu que a força tarefa seria montada por agentes que tivesse passado pelas pílulas Orion, o maior obstáculo encontrado fora a forma de abordagem para os mesmos: como explicar para os agentes que eles haviam apenas passado por um teste, e que a missão suicida, na verdade, os colocaram em um nível superior de segurança, onde todos seus próximos movimentos seriam considerados confidenciais?
Para lidar com essa questão, o Conselho, depois de muita deliberação, recrutou MADZIMOYO DEACON para trabalhar como diretor-chefe do Protocolo Órion. Sua vasta experiência o fazia ímpar, sendo uma das poucas pessoas que conseguiria impor limites e abrir fronteiras para os agentes, ao mesmo tempo. Além disso, escalaram a psicóloga DAISY CASTLE para poder orientar e avaliar a equipe, uma vez que o monitoramento psicológico foi uma das condições para que o Protocolo entrasse em vigor.
Naquela semana de dezembro, tão próximo ao Natal, os agentes que haviam escolhido morrer a trair seu país, estavam acordando individualmente, aos poucos, cada um em um quarto isolado, com poucos móveis e diversos aparelhos de controle de frequência cardíaca e soro; deitados em uma cama, saindo do coma. Recebiam visitas de enfermeiros o tempo todo, mas nenhum deles parecia responder as perguntas dos agentes; a única coisa que diziam era que aquele lugar se chamava Afterlife, e que logo, logo, receberiam a visita do seu superior e teriam todas as respostas que procuravam.
ADM NOTE
A nossa primeira task não começa com os starters na tag, e sim com uma espécie de texto onde os players deverão explicar como foi a sensação que o personagem teve ao acordar daquela forma. Quais foram as primeiras impressões? Os primeiros pensamentos? Quais foram as teorias que criaram enquanto esperavam pela visita do chefe?
AS INTERAÇÕES AINDA NÃO ESTÃO TOTALMENTE LIBERADAS, mas se iniciarão após a task. Antes de todos os personagens se conhecerem e apresentarem, precisam passar por três etapas, que serão pontuadas e, daí, após completadas, vocês estão livres para tunar.
A MISSÃO: O objetivo da task é saber como o seu personagem veio parar aqui. Qual foi a missão em que a lealdade dele foi posta a prova? Qual o motivo de ele ter tomado a pílula? O que ele sentiu na hora que achou que morreria? E qual o sentimento de quando percebeu não estar morto? Escreva em parágrafos ou tópicos, da forma que achar melhor!
DIRETOR CHEFE (MADZIMOYO DEACON). O starter do diretor-chefe vai ser postado, ele irá explicar para o agente que não, ele não esta morto e sim, agora faz parte de uma força-tarefa. Todos os agentes precisam conversar com o diretor e responder o starter, para assim, dar sequencia ao próximo passo.
PSICÓLOGA (DAISY CASTLE). É extremamente importante o acompanhamento psicológico do agente. Como ele esta se sentindo? Esta apto para atuar em campo? Logo após responder o starter do diretor, é necessário responder o da psicóloga.
Pronto! Os agentes já estão livres para passar e conhecer a instalação!
Todos os agentes deveram responder os dois starters. Vocês terão uma semana (até dia 28/12) para postar a missão. Após responderem todos os starters, vamos liberar as interações pela instalação para que cada integrante conheça o outro.
Obs: Não é uma regra imposta que nenhum personagem já conheça o outro, mas seria legal e interessante que eles viessem a se conhecer no Afterlife; dessa forma, não é necessário que todos já tenham uma conexão, e sim que vá criando pouco a pouco - como em uma verdadeira equipe. Dessa forma, evitamos também que algum personagem sinta-se excluído caso não se encaixe ou não arranje uma conexão.
Vienna teve dificuldade de assimilar que estava viva nos primeiros minutos depois de acordar do coma. Mesmo que sentisse a boca seca e o cheiro dos produtos higiênicos usados para a limpeza do quarto do hospital; mesmo que ouvisse as vozes ao seu redor tentando dar-lhe instruções, contando que tudo aquilo não passava de um teste, e enxergasse as luzes incandescentes no teto branco — ela não conseguia aceitar que estava viva.
Começou a desembaralhar os acontecimentos da noite de sua morte dentro da cabeça.
Vienna sairia de férias naquela semana, mas eles a chamaram, em confidência, para confirmar a causa da morte de um senador antes que fechassem o caso como suicídio. Levando o cadáver para análise no laboratório, ela decidiu que precisaria fazer uma pequena visita à casa do homem para verificar a geladeira e os alimentos consumidos por ele antes da morte.
Um detalhe poderia fazer toda a diferença em seu trabalho; e Vienna encontrou o que suspeitava na lata de maionese deixada para trás na geladeira. Amostras de veneno. Outro perito já havia apontado a hipótese do senador ter sido envenenado, mas quando não acharam vestígios pela casa, foi descartada. Além do mais, o filho do senador provou que o pai tomava muitos remédios para transtornos psicológicos e tinha problemas com o álcool. Vienna se tocou disso e começou a juntar as peças do quebra-cabeças: os únicos que tinham acesso à casa do senador, viúvo e sem muitos amigos, eram os filhos e os empregados.
Ela guardou o pote da maionese como prova do crime e foi até o carro estacionado em frente à mansão do senador. Em breve estaria de volta ao laboratório e entregaria o relatório para que o FBI assumisse a investigação e levasse adiante os interrogatórios.
Os acontecimentos seguintes se desenrolaram num piscar de olhos. Vienna acordou horas depois num porão abandonado, e foi lá que permaneceu sozinha e sangrando por dois dias (ela só conseguia controlar o tempo graças ao relógio no pulso) até que escutasse a voz de um homem dizer: “Se você se comportar e colaborar com o plano, podemos negociar um jeito de você sair dessa sem a FBI desconfiar.”
Mais quatro dias dias. O homem apareceu de novo para ameaçá-la e desferir alguns golpes contra o seu corpo para “mantê-la em ordem”. Vienna só entendeu quem ele era e o porquê dela estar ali quando percebeu a semelhança de seus traços com o senador. Estava fraca demais para que discutisse com ele, fraca demais para ter esperança de que o FBI perceberia que ela não havia saído de férias. Fraca demais para chorar porque o único meio de sair dali viva seria deixando que a sua vida fosse controlada por um homem tirano, que abusara do poder para encobrir o assassinato do próprio pai... uma história familiar demais para a britânica.
E foi aí que ela se lembrou da pílula.
Sabia que estaria deixando tudo para trás; que morrer naquele porão significava que nunca poderia colocar o pai atrás das grades e que não teria ninguém para continuar a sua pesquisa de anos. Mas Vienna preferia tomar a pílula do que permitir-se ser abusada por um homem de novo. E, assim, ela engoliu o comprimido; sem medo do que viria depois.
Pensamos em escrever uma história em cada task de maneira geral. Mas para facilitar o entendimento e não ocorrer o mesmo da última task, vamos CONTAR uma história, como se estivéssemos falando com vocês diretamente pelo chat. Certo? Certo!
Então vamos lá. Há 3 dias Viktor Toporov, criminoso russo conhecido como The Chameleon, chegou na unidade tática em que a força-tarefa se encontra e, desarmado, entregou-se de bom grado (espero que isso vocês tenham lido). Ele pediu para falar com o diretor, e alega ter informações da localização de uma arma destrutiva. Não, não é uma arma nuclear, tampouco química. A arma era nada mais, nada menos, que uma pessoa. John Foxworth. Um ex agente da Inteligência de Segurança que desapareceu depois do 11 de Setembro, tendo sido acusado de vender informações confidenciais de seu governo. Hoje, Fox é conhecido como o Concierge do Crime, tendo contatos e segredos dos líderes das maiores potências mundiais, criando seu próprio império e sendo irrastreável, estando na lista dos mais procurados do FBI e da CIA por quase vinte anos.
Viktor alega que Fox encontra-se em uma fábrica desativada no sul de Washington, tendo sido sequestrado por um grupo de mercenários conhecido como Foxy Moxy. Por que Viktor está entregando John? Qual a conexão dos dois? Essas respostas serão respondidas durante a task, mas por enquanto, o que os agentes (todos) precisam entender é que esse caso não estava planejado, e que terão que fazer sua primeira tarefa post mortem agora. Na pressa. Nas escuras.
21h precisamos de todos online no Discord.
NOTA DAS MODS NA CONTINUAÇÃO
Temos uma explicação bem bonitinha AQUI de como vai acontecer no DISCORD. LEIAM! Liberamos a task agora para vocês poderem ler e tirarem dúvidas, mas a missão começa às 21. Vamos discutir o caso. Cada agente receberá no privado uma informação e repassará para os demais agentes. Usem a imaginação, criem, inventem. Finjam que é real e estão mesmo numa série policial, ok? Contamos MUITO com isso.
Assim que discutirmos o caso e conversarmos em grupo pelo discord, vocês voltam para a Dash! E aí podem postar starters, turnos fechados, o que quiserem! VOCÊS SÃO LIVRES PARA TURNAR! Não esperem por nós, interajam, pelo amor de DeusKKKKKKKK
E uma dica valiosa: nesse momento, não façam turnos grandes. Façam aqueles smalls ou chats para conseguir fluir bem e não demorar anos para responderem uns aos outros, ou as missões não vão acabar nunca, ok? Deixem os turnos grandes para os plots entre vocês.
QUALQUER dúvida, nos pergunte! Ainda estamos nos adaptando para qual é a melhor forma de interagir com vocês e ficar claro o RP, então precisamos que vocês perguntem, SEM MEDO, o que não entenderam, porque muitas vezes a informação pode ficar confusa.
Estamos enviando para cada um de vocês uma foto (arquivo) no chat com informações sobre o caso que o seu personagem recebeu. É individual para eles poderem repassar durante a discussão no discord. Como ele recebeu? Usem a criatividade: dados de bases, contato (para os chars que foram dados como desaparecidos), enfim. Se precisarem de ajuda, estamos aqui.
Deveria ser uma missão simples. Duas semanas, não mais do que isso, seu superior assegurara. Estaria de volta para sua festa de noivado, momento esse que marcaria uma transição em sua vida. Sem mais trabalhos infiltrados que poderiam durar meses ou riscos desnecessários. Uma vida razoavelmente simples - ou tanto quanto se poderia esperar de uma agente do FBI ativa. Era o acordo deles. Colin jamais imaginaria, porém, que a perderia antes de seus sonhos se concretizarem.
— Litoral californiano, 14:23
“Preacher? Eu não estou conseguindo te ouvir.” Disse entredentes, encolhendo-se ao utilizar o cachecol para acobertar o discreto movimentar de lábios. Para alguém acostumada com o inverno nova-iorquino, os meros dez graus não deveriam ser um problema, mas a peça certamente vinha a calhar em momentos como aquele. Nenhuma resposta do outro lado. Katherine praguejou em sua língua materna, passando uma mecha atrás da orelha ao se livrar do comunicador que agora produzia um desagradável ruído em seu tímpano. E a julgar pela expressão de Landon, o seu não era o único. A troca de olhares durou apenas uma fração de segundo, o suficiente para que chegassem à conclusão de que estavam sozinhos a partir daquele ponto. Eles apenas ainda não compreendiam a magnitude daquela afirmação.
“Não tão rápido.” O tom ríspido atrás de si veio acompanhado de um puxão pouco amigável, cuja pressão em torno de seu braço decerto deixaria marcas ao tentar se soltar. O trincar dos dentes denunciava o esforço realizado ao conter o impulso de acertá-lo nas costelas, com uma força suficiente para que ele se dobrasse sobre o próprio corpo ao libertá-la. Como uma socialite em busca de um largo carregamento para seu próximo evento, porém, o gesto pareceria pouco condizente. “É assim que vocês tratam seus convidados?!” Sua voz subiu uma oitava, tão aguda quanto o das muitas jovens mimadas com quem a morena já havia cruzado. “Se eu soubesse que eram tão brutos, teria escolhido outro supplier! Você tem noção de quanto eu pretendia comprar? Eu...” As palavras morreram sobre os lábios rubros, o olhar fixo na figura masculina a se aproximar. Katherine o reconheceria a centenas de metros de distância.
Ele não deveria estar ali. Preso na missão responsável pelo decolar de sua carreira, Gregory pegara prisão perpétua por múltiplos assassinatos, alguns dos mais sangrentos vistos na última década, e seu envolvimento com o tráfico local. “Que prazer encontrá-la de novo, Kat. Quanto tempo faz? Cinco meses? Seis? Continua tão linda quanto sempre.” A essa altura, seu parceiro também já havia sido rendido, um cano de mesmo calibre apontado para sua cabeça. As íris escuras brilharam com um divertimento doentio, no cintilar a promessa de que obteria aquilo que buscava desde o princípio: os nomes de seus informantes. “Prendam-na, nós temos uma conversa pendente. E livrem-se dele.” O sorriso cruel foi a última coisa que a agente viu antes do golpe que tirou-lhe a consciência.
— Localização desconhecida, 17:48
Um gemido escapou dos lábios femininos, os músculos queixando-se de golpes que ela sequer parecia se recordar. “Já estava na hora, bela adormecida.” A risada de escárnio precedeu o estalo produzido pelos dedos calejados contra a face da Hawthorne. Nada como a tortura que havia sofrido meses antes, mas o suficiente para deixar evidente a conotação pessoal da investida: tal qual da lâmina que ele agora afiava diante dos seus olhos. “Podemos fazer da maneira mais simples ou da mais divertida. Eu particularmente prefiro a segunda, mas meus superiores estão com pressa. Então por que não faz um favor a nós dois e começa a falar?” O desprezo que resplandeceu nas íris esverdeadas da agente foi externado através do cuspe lançado na direção do homem, mesmo com a inclinação do tronco tocando-lhe apenas as botas. “Você nunca decepciona, não é?” Gregory gargalhou ao voltar a atingir-lhe o rosto. “Pena que não temos muito tempo, porque eu tinha ótimas ideias do que fazer.” Completou, o metal frio pressionando-lhe a jugular.
O puxar dos fios escuros obrigava a Hawthorne a manter o olhar erguido, contribuindo para o latejar infindável que denunciava o ocorrido nas últimas horas. Ela não tinha tempo para isso, porém. Em uma inspeção rápida, não foi capaz de encontrar rotas de fuga. Não havia dutos de ventilação ou qualquer outro tipo de abertura e, a julgar pelo eco do ambiente, tampouco deveriam existir janelas abertas ou saídas além daquela a sua esquerda. Uma equipe de resgate também estava fora de cogitação. E o destino de Landon não deveria ser muito distinto do seu. A morena trincou os dentes, a mandíbula tensionada no processo. Para alguém acostumada a encontrar saídas para os mais complexos contextos, não foi simples admitir que estava encurralada. “Perdeu a língua gatinha? Eu lembrava de você ter garras mais afiadas. O que foi? Não é tão corajosa sem um time por trás?” Ele aproximou o rosto da mais nova, no processo minimizando o aperto o suficiente para que Katherine lhe desse uma cabeçada no nariz.
O recuar abrupto foi seguido de um praguejar irado, a canhota masculina alcançando o nariz que agora jorrava sangue. Provavelmente não foi seu movimento mais prudente, porém, não era preciso uma vasta experiência para chegar à conclusão de que o destino da agente era apenas um. Doloroso, desagradável e trágico. A não ser… O semblante da morena iluminou-se. Havia outra saída. E ela se encontrava presa em sua blusa. O escancarar da porta desviou a atenção de Gregory por um segundo a mais, tempo suficiente para que Katherine levasse os lábios ao tecido da camiseta, arrancando a pílula escondida em um pequeno compartimento e engolindo-a antes que o homem pudesse voltar a ameaçá-la. A Hawthorne jurara entregar a vida em prol da segurança nacional e era exatamente isso o que fazia ao abraçar seu destino, sem arriscar entregar um nome que fosse.
Os olhos imediatamente tornaram-se pesados, a respiração ruidosa ao sentir outro golpe, este forte o suficiente para tombar a cadeira para o lado. O corpo esguio encolheu-se ante o impacto contra o chão, uma dor aguda atingiu-lhe a cabeça. Agora, porém, não havia mais importância. Tudo chegaria ao fim em alguns segundos. “Não precisamos mais dela.” A afirmação soou como um murmúrio longínquo, abafado a ponto de levantar questionamentos quanto à precisão do que ouvira. Ou assim teria ocorrido, caso seu coração não tivesse deixado de bater naquele instante.
— Oceano pacífico, 20:56
A constatação da própria consciência veio com um grito sufocado, os olhos queimando ao buscar enxergar na imensidão negra. A tentativa de inalar o oxigênio que lhe era vital se deu de maneira frustrada, enchendo, no processo, os pulmões com água salgada. Os pensamentos lentos eram pouco condizentes com a mente sempre atenta da Hawthorne - mas deveria ser esse o resultado do súbito regresso à vida, não? - e os músculos bem treinados não respondiam propriamente aos comandos femininos. Uma, duas braçadas. As pernas deram um último impulso e o alcançar da superfície concedeu-lhe alguns segundos de ar, antes de ser engolida novamente pela escuridão completa. O envolver do próprio corpo por um aperto firme foi tido como um fruto da própria imaginação, uma sensação reconfortante antes de entregar-se aos braços da morte. Afinal, como esperar enganar a foice duas vezes em uma mesma noite?
Objetivo: Encaminhados cinco (5) agentes para rastrear e neutralizar [ CLASSIFICADO ] um [ CLASSIFICADO] foragido da Unidade [ CLASSIFICADO ] enquanto sob a custódia do governo dos Estados Unidos da América. Comando para ação rápida, bem como limpeza de evidências da ação.
Status da missão: completo.
*todos os operativos envolvidos no projeto contabilizaram como baixas oficiais. O número integral de baixas não foi divulgado.
i.
NÃO ESPERAVA ENCONTRAR DEUS NA HEDIONDEZ DA GUERRA SILENCIOSA, enquanto a jazer sob a chuva entremeio aos caídos. Na mais horrenda das situações, via-se permeado por uma paz anestesiante, quase jocosa ao instaurar-se com a delicadeza de um afago nos rincões mais íntimos da própria alma. Talvez tamanho conforto insólito fosse oriundo do entorpecimento, da escassez de sensações provocada pela vitalidade líquida que vertia da mui lastimada extremidade. Não obstante, fato era que sequer o encharcado tecido dos trajes — quer fosse aquilo água ou sangue — ou o peso das armas logravam representar moléstia ao homem que, sereno, contemplava o inesquivável destino. Atirado qual indigente moribundo, percebia estar defronte a seu findar, tendo como singular consolação o covarde desejo de não partir sozinho. A conflagração, afinal, havia tomado também a vida de seus irmãos de armas; agora cadáveres sorridentes que examinavam-no com olhos vazios, ansiosos para que se juntasse a eles na decomposição. Á distância, ouvia os passos demasiado firmes dos opositores, cada vez mais próximos e tencionando buscá-lo. Quem do pó veio, ao pó há de retornar.
ii.
Um chacoalhar súbito o arrancara da inconsciência permeada por irrequietude, forçando-o a equilibrar-se na descômoda cadeira, os olhos desfocados percorrendo o entorno com a prudente curiosidade de quem presume o pior. Sentia-se observado, a despeito de a única companhia consistir no breu do quarto alugado, a própria respiração projetada através do ar reforçando sua solitude. Preguiçosamente, uma gota de suor escorrera pelas espaldas desnudas, deixando familiares calafrios a seu passo, um coerente adendo ao frenético pulsar do coração. Não era a primeira vez que aquilo lhe sucedia: noite trás noite, iguais terrores viscerais visitavam-no religiosamente, depositando sobre seus ombros o peso de uma culpa antiga. Desta vez, no entanto, não se via vitimado por maus sonhos oriundos de igualmente ruins memórias. Senão que, novamente, encontrava-se no seio de seus pesadelos, enfrentado à faceta mais íntima — e lenta — da morte.
Não sentia as mãos, firmemente presas ao encosto da cadeira por tempo mais que suficiente para transformar o formigamento em um doloroso desconforto e, por fim, em nada. Percebia o lado direito da face edemaciado e, ao reconhecer tal fator, recuperara fragmentos dos bons golpes recebidos poucas horas antes. Dado o extensivo tempo expendido em posição de estresse — talvez vinte e quatro, talvez já quarenta e oito — racionalizara os estímulos dolorosos, agora mais presentes como o espectro de uma sensação em vez de uma moléstia aguda. Enquanto só, ansiava pelo retorno da capacidade de tecer ideias coerentes. No entanto, primariamente, concentrava-se com torpeza na obviedade dos próprios olhos injetados em sangue, em um vão intento por calcular a extensão dos danos sustentados. Pois a própria percepção não parecia fiável. Notava a possibilidade de costelas fraturadas, assim como escoriações randômicas por toda a extensão da carne e lesões moderadas nos membros inferiores. E a despeito disto, lhe era impossível compreender a real gravidade do conjunto de lastimados. Ao menos, não enquanto preso. Destarte, saltava à vista uma prioridade: libertar-se. Forcejara de mãos e pés contra as amarras que continham-no na estrutura metálica donde estava assentado, tendo um medíocre grau de sucesso. Antes que pudesse realizar uma nova tentativa, auscultara os passos cortando a distância entre os corredores e seu cárcere, acompanhando uma voz estranhamente familiar. ‘Fetch the bolt cutters’, ordenara, em um tom demasiado calmo para a crueldade que prenunciava. Com surpresa e desgosto, o nome de Libby lhe viera à mente. E tivera a certeza de que logo teria novas feridas para contabilizar: com toda certeza, aos pés faltariam alguns dedos até o final daquela sessão.
iii.
Havia sido submetido àquela específica metodologia de tortura, quando ainda em treinamento como um novo marine. E até mesmo [ CONFIDENCIAL ]. Não obstante, preparo algum seria suficiente para torná-lo afeito ao afogamento. Era como se chamas lhe envolvessem o cérebro e todas as inervações, espalhando-se aos poucos por todo o corpo, irradiando desde o tórax e fazendo com que tivesse violentos espasmos, ferindo a si mesmo ao tentar escapar. Simultaneamente, o ardor parecia manifestar-se contraditoriamente frio. Os pulmões, embora expandissem, não logravam encontrar o anisadíssimo ar, sendo preenchidos por água, em vez, impassíveis de trazer a homeostase necessária para a sobrevivência. Narinas, garganta e boca viam-se cobertas, o tecido escuro parecendo pesar toneladas sobre a face torturada. E quando cria não resistir mais, quando cria finalmente perceber a possibilidade de ir rumo à luz do bom final, a tela molhada era retirada da própria cabeça, e o fluxo de água cessava. Desesperado, tossia e inspirava, trazendo o ar aos pulmões com emergência, arriscando-se à acidificar o metabolismo. Embora ilógico, o raciocínio do pânico lhe gritava que tentasse suprir nos curtos segundos o ar do qual certamente seria privado nos momentos seguintes. Brevemente, aquilo parecera cessar. E então a voz aguda e rouca ressoara pelo local, repetindo as mesmas perguntas feitas ainda nas primeiras rodadas de waterboarding: [ CONFIDENCIAL ]. Sebastian quase cria ser capaz de cantar qual o mais belo dos pássaros, entregando complacentemente as respostas requisitadas. No entanto, conhecia a si mesmo, assim como a devoção para e com o dever. E o próprio limiar de tolerância à dor. Permanecera calado, qual as primeiras quarenta e duas vezes. Já não exibia quaisquer traços de arrogância, extenuado e indisposto a quebrar mais. Novamente fora inclinado, o tecido tornando a cobrir a face. E a água voltara a correr, levando consigo a respiração.
iv.
Tudo sucedera em um curtíssimo intervalo, o sangue a lubrificar o metal em torno aos pulsos associado ao polegar voluntariamente deslocado sendo suficientes para que a destra escapasse daquilo que a mantinha imóvel trás as espaldas, liberando ambas mãos. Estas, com movimentos torpes, liberando então os pés. Sequer percebia a dor. Com uma celeridade estimulada pelo sempre presente instinto de luta ou fuga — podia contar religiosamente com a adrenalina — avançara contra o único captor que apontara no anexo donde mantinham-no cativo. Com algum esforço o tivera ao chão, não hesitando em fazer mão da arma portada pelo insurgente, eliminando-o com duas balas. O eco de um disparo tão próximo o aturdira, mas não tão intensamente como para pará-lo. Não tardara em encontrar o próprio rumo através dos amplos e mal iluminados corredores, parcialmente escorado nas paredes de cimento emboçado para melhor suster o próprio peso enquanto cruzava a unidade clandestina.
v.
[ CONFIDENCIAL ]
vi.
Trás si, restara uma modesta contagem de corpos. Não em número suficiente como para que escapasse são e salvo. Havia cumprido com a missão, antes mesmo de sua captura trás uma tardia emboscada. Sua esperança restava em levar toda a instalação consigo, um esforço final em prol do projeto. Com tanta certeza quanto jamais selara a única saída do precário sistema de túneis que configurava a unidade. E fazendo mão do isqueiro desonrosamente roubado de um dos mortos, dera início ao processo de atear fogo no local. Antes que a fumaça, ironicamente, o afogasse, recuperara a pílula que lhe fora entregue ao início da missão, com auxílio de um pedaço de metal. Descansava, sob a derme, trás uma discreta cicatriz no antebraço: pequena e fatal. Levara-a à boca, tragando em seco. Certificaria-se de que ninguém tornasse a capturá-lo. Primeiro, caindo aos joelhos e, então permitindo que o corpo todo fosse de encontro ao chão, com um ruído seco sem ter quem a escutar. Por fim alguma emoção surgira em si, uma estranha felicidade lhe tomando o peito, como na liberação mais insólita de serotonina. Sentia-se pronto para finalmente compreender o que era paz. Pronto para cessar por vez sua existência. E como um último pensamento, a incredulidade: mesmo entremeio à literalidade das chamas a lamber-lhe todo o flanco esquerdo, jamais imaginara que a morte viesse a ser tão cálida.