Era uma vez um menino que vivia sozinho em uma casinha no topo de uma montanha. A casinha não era muito grande: dois quartos, uma cozinha emendada com a sala e um banheiro. O menino dormia em um quarto e o outro sempre esteve vazio. Não fora ele quem distribuiu os móveis pela casa, sempre esteve assim e ele, também, nunca tentou mudar. Ou talvez apenas nunca tivera força e maturidade para isso.
Certo dia, o menino estava andando pelos arredores da casa, adentrando a floresta. Raramente saía de lá. A mata em volta da casa era muito densa e ele não sabia qual a sua distância, nem o que poderia ter do outro lado. Teria mais casinhas? Mais meninos? Ou apenas mais mata?
Amarrava sempre um pedaço de barbante azul a cada três árvores pela qual passava, para garantir sua volta caso não encontrasse nada e, assim, prosseguia em suas viagens. Em um dia em particular, após mais ou menos uma hora, já estava bem cansado e ainda não via sinais de que estaria perto do fim da floresta. Com medo de anoitecer enquanto estava lá dentro, decidiu voltar para casa, seguindo, de volta, sua trilha de barbante.
Chegou em casa pouco antes de anoitecer. Decidiu que sairia durante a manhã no dia seguinte. Preparou um chá, comeu alguns biscoitos que ele mesmo fizera utilizando frutas e grãos que plantara sozinho. Acabou ficando um pouco sonolento e adormeceu no sofá mesmo. Sonhou que encontrava um menino idêntico a ele. Esse novo menino não conseguia enxergar. Seus olhos estavam colados. Então, ele entrava no quarto vazio, que agora, no sonho, estava cheio de móveis e objetos, pegava um estilete e abria as pálpebras do menino. Da boca dele saía o pedido: “abra-me”. Era tarde. O menino número dois havia corrido para o quarto vazio (que agora estava cheio) e trancado a porta por dentro. Era impossível abri-la.
O menino deu um pulo do sofá, assustado com a estranheza de seu sonho. Olhou pela janela e percebeu que já estava prestes a amanhecer. Decidiu sair, mas antes conferiu o quarto vazio. Precisava saber se algo tinha mudado lá dentro. Pegou um machado velho que sempre esteve na casa, só por proteção. Parou na porta, de frente para o espaço que sempre esteve absolutamente vazio. Dentro dele, bem no centro, no chão, havia uma agulha de tricô. “Então, era só isso?”. Guardou a agulha na sacola junto com algumas frutas e uma garrafa d’água e pôs a seguir seu caminho pela floresta.
Continuou amarrando barbantes azuis pelas árvores por garantia, mas, desta vez, estava disposto a ir até o final. Já aparentava ser perto de meio-dia quando começou a ver alguns barbantes vermelhos amarrados pelas árvores, da mesma forma que fizera com os barbantes azuis. Havia alguém fazendo o mesmo que ele. Talvez existisse por aí outro menino sozinho, assim com ele. Começou a seguir a trilha de barbantes vermelhos até encontrar uma casinha exatamente igual a sua. Os mesmos móveis, os mesmos cômodos, tudo igual. Não havia ninguém lá e, assim como na sua casinha, um quarto parecia pertencer a alguém e o outro estava vazio. Talvez tivesse uma agulha lá também que fora levada com seu dono. Onde estaria o dono? Será que estava em sua casinha?
O menino ouviu passos vindo da rua. Olhou pela janela e viu um homem exatamente igual a ele chegando. Vestia as mesmas roupas, tinha a mesma sacola, o mesmo cabelo, até se parecia com ele. O homem do lado de fora olhou para a janela e viu o menino idêntico a ele no lado de dentro. Espantado como era de se esperar que ficasse, deixou cair o rolo de fio vermelho no chão: “de novo não”.