Em companhia de estranhos, cada um gosta de mostrar suas qualidades; nós todos nos esforçamos para falar com prudência e para agradar... Claro...
Thomas Mann, in ‘Os Buddenbrook’

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Em companhia de estranhos, cada um gosta de mostrar suas qualidades; nós todos nos esforçamos para falar com prudência e para agradar... Claro...
Thomas Mann, in ‘Os Buddenbrook’
Tony... – repetiu –, olhe como estou... Eis o que fez de mim... Tem um coração, um coração que sente?... Escute o que lhe digo... Você vê um homem que está aniquilado, arruinado, se... sim, que morrerá de desgosto – interrompeu-se com alguma precipitação – se você desdenhar o seu amor! Estou de joelhos... Será que você tem coração para dizer-me: “Detesto-o”?... [p. 99]
MANN, Thomas. Os Buddenbrook. Decadência duma família. São Paulo, Círculo do Livro, 1975. Tradução de Herbert Caro.
Terei eu alguma vez odiado a vida, esta vida pura, cruel e forte? Tolice e mal-entendido! Odiei apenas a mim mesmo por não poder suportá-la. Mas amo-os, amo-os a todos, os felizes, e dentro em breve cessarei de estar isolado de vocês por um cárcere apertado; (...)
Thomas Mann, in ‘Os Buddenbrook’
Não eram os homens apenas produtos desastrados e erros crassos? Não caíam eles num cárcere torturante, logo ao nascerem? Prisão! Prisão! Em toda parte entraves e barreiras! Através das janelas gradeadas da sua individualidade, o homem, desesperado, crava os olhos nas muralhas das circunstâncias externas que o cercam, até que chegue a morte, dando-lhe o sinal da volta para a liberdade...
Thomas Mann, in ‘Os Buddenbrook’
O Diretor Wulicke em particular tinha a terribilidade enigmática, ambígua, teimosa e ciumenta do Deus do Velho Testamento. Era espantoso no sorriso tanto quanto na ira. A desmedida autoridade que reunia nas mãos o fazia horrivelmente caprichoso e indecifrável. Era capaz de dizer alguma coisa engraçada e de tornar-se furioso quawindo alguém se ria. Nenhuma das suas trêmulas criaturas sabia como portar-se em sua presença. [p. 632-633]
MANN, Thomas. Os Buddenbrook. Decadência duma família. São Paulo, Círculo do Livro, 1975. Tradução de Herbert Caro.
René Maria von Throta, natural da Renânia, servia como segundo tenente num dos batalhões de infantaria aquartelados na cidade. A gola vermelha fazia bom efeito com o cabelo preto, que, repartido ao lado, se afastava, à direita, da fronte alva num topete alto, espesso e ondulado. Embora de físico avantajado, toda a sua aparência, os movimentos tanto quanto a fala, despertavam impressão nada militar. [...] As mesuras que fazia careciam de toda rigidez; nem sequer se ouvia como batia os calcanhares. Vestia a farda sobre o corpo musculoso com tal indiferença e negligência como se fosse simples traje civil. [p. 566]
MANN, Thomas. Os Buddenbrook. Decadência duma família. São Paulo, Círculo do Livro, 1975. Tradução de Herbert Caro.
Enquanto eu estiver com vida, essas coisas não acontecerão... juro-lhe! Tome cuidado... é o que digo! Perdeu-se dinheiro demais por desgraça, tolice e perfídia, para que você se possa atrever a atirar a quarta parte da fortuna da mãe no colo dessa meretriz e dos seus bastardos!... [...] Você já comprometeu bastante a família, meu rapaz, para que ainda seja preciso aparentar-nos com uma cortesã e dar o nosso nome aos filhos dela. Proíbo-lhe isso, ouviu? Proíbo-lhe! – gritou numa voz que fazia retumbar a sala. [p. 511]
MANN, Thomas. Os Buddenbrook. Decadência duma família. São Paulo, Círculo do Livro, 1975. Tradução de Herbert Caro.
Thomas, de uma vez por todas: você nunca compreenderá nada da música como arte. Por mais inteligente que seja, jamais perceberá que ela representa mais do que uma distraçãozinha de sobremesa, um pequeno regalo dos ouvidos. Na música você carece de senso para discernir o que é banal, senso que tem em outros assuntos... [...] Que é que lhe agrada na música? Certo espírito de otimismo insípido; se você o encontrasse encerrado num livro, iria atirá-lo pela janela, indignando-se ou zombando dele. [p. 449]
MANN, Thomas. Os Buddenbrook. Decadência duma família. São Paulo, Círculo do Livro, 1975. Tradução de Herbert Caro.