O silêncio perfura nossos tímpanos tão acostumados com o som. O pequeno barulho. Som, afinal, energia. Se energia, existe. O silêncio, mudo, assusta. É incerto. Vácuo. Cego. Abstrato. Quem ninguém viu, tocou, ouviu. Mas sentiu?
Ah, com certeza sentiu o peso de uma palavra não dita. De uma noite escura. De um coração que não bate. Silêncio? O silêncio dilacera, machuca mais do que qualquer som emitido. Porque o silêncio é ausência.
Ausência do riso, ausência do vivo. É o cinza, o neutro. Nem quente, nem frio. Nem branco, nem preto. Nem ódio, nem amor. O silêncio é indiferença.
Nós escutamos. O silêncio não existe.
Um riso contido é um riso. Uma palavra não dita é uma palavra. Um sentimento não expresso é um sentimento. Silêncio é o nada, mas temos tudo.
Como diz Clarice, o direito ao grito está por aí. Todos gritam. Alguns mais alto que outros. O dever de escutar, porém; é algo que está em falta em um mundo de egocêntrico barulho. Sair da caverna de Platão, observar as cores do vento, ouvir a palavra não dita. Porque ela existe, sim. Existe de verdade.
Às vezes mais do que qualquer outra.