SEIOS
Olhando pros meus seios, lembrei que com uns 11 anos ganhei um sutiã de enchimento de uma tia e era a menina mais peituda da sala - ninguém sabia que era de mentira. Desde muito nova aprendi a basear minha autoestima no que eu achava que as pessoas achavam de mim, se me achavam bonita ou atraente o suficiente.
Quando meu peito começou a crescer de verdade, ele começou a crescer pra baixo, caído e cheio de estrias... Lembro que eu tinha esperança de que as estrias saíssem e fiquei muito triste quando, no banheiro de uma festa de aniversário de criança, eu devia ter uns 14 anos, estava de tomara que caia, e uma mulher que não conheço chegou me falando que eu era muito nova pra ter estria e que não tinha como tirar.
Com 19 anos fiz vários procedimentos pra tirar as estrias do meu corpo e não resolveu. Lembro que nessa época comecei a me experimentar sexualmente, ainda com rapazes, e não gostava que tocassem nos meus seios, tinha vergonha, queria que eles não balançassem tanto. Eu realmente não deixava que os caras encostassem no meu peito. Eu usava não mais sutiã de enchimento e sim um sutiã que os sustentavam pra cima, tão apertado que me dava dor nas costas.
Decidi então reduzir as mamas e colocar silicone aos 22 anos. Eu nunca tinha visto peitos de outras mulheres, só da minha mãe, que tinha silicone também.
Quando tirei o curativo e me vi com aquele peito que parecia uma bola de tênis colada no meu tórax, e uma auréola pequenininha, chorei muito. E uns meses depois, quando pude tirar o sutiã pra alguém novamente, não sentia mais nada, a pele do meu peito tinha perdido a sensibilidade e se tornado dormente. Chorei muito também.
Nesse meio tempo comecei a me relacionar com mulheres e ao ver todos os tipos de seios e corpos tão diferentes uns dos outros, e ao mesmo tempo tão atraentes, me senti uma boba de ter operado e de ter perdido tanto tempo me proibindo de sentir prazer por algo sem sentindo algum. Mais uma vez expectativas irreais com base em corpos irreais regendo a nossa autoestima.
No fim das contas, uns meses depois, dei uma engordadinha e meu peito, uma caidinha. A auréola até esticou novamente. Um pouquinho tortinha, inclusive. Minha sensibilidade foi voltando aos poucos...
Nessa época eu fiz as pazes com ele de verdade, porque o achava bonito, mas real. Com cicatrizes, estrias, e seu movimento natural a favor da gravidade.
Hoje é a parte que mais gosto no meu corpo, e a parte que deixo mais livre também. Quase nunca uso sutiã, e junto desse processo estou aprendendo a deixar livre o meu sentir. A reconhecer minhas emoções, acolhe-las e expressá-las livremente, inclusive as emoções mais desafiadoras. Hoje eu falo quando estou com medo, com raiva, apaixonada, triste, frustrada, agoniada, ansiosa, preocupada. Não deixo nada preso!
Nunca tinha parado pra pensar sobre o quando essa evolução na aceitação física dessa região resultou numa aceitação emocional também.
Gostaria que todas as mulheres tivessem a oportunidade de ver corpos reais de mulheres reais e assim se libertarem também.