"Pois é tão-somente pelos outros discursos que o real vem flutuar" /Lacan
A realidade é a porta de entrada, único procedimento que faz inaugurar o campo da psicanálise.
A realidade é qualquer discurso e o discurso analítico surge como subtração a todos os outros visando a singularidade da letra.
É de penúria o lugar que pretende anunciar qualquer dizer.
O instante da palavra é secundário, não diz o que a detém ali.
Todo idealismo se inscreve na soleira da porta, no tecido da oratória que o sustenta.
O que Freud agregou ao giro de discurso?
A associação livre traduz a coerência do procedimento discursivo, mas não libera a fala do poder de quem a agencia.
Todo discurso impõe pressupostos que a intervenção psicanalítica no lugar do Outro, nominalmente em causa, não apreende.
A barra pretende o sujeito em seus efeitos de fala.
A psicanálise pode pretender-se freudiana quando faz girar o discurso em seu eixo.
Do modo de intervenção freudiano o procedimento é solidário em sua origem.
Em psicanálise, se do lugar do Outro, há autoria, secundária e sobre os efeitos produzidos na cena, a estupidez reina e não o ato sustentado pelo saber e desejo do analista.
O agente não comanda o tempo lógico.
Não há providência possível, a realidade é mutável.
Daí, a possibilidade do ato.
Nenhuma assinatura o precede, apenas a força eminente do desejo.
A psicanálise joga com a não preparação.
A laicização do pacto prévio instala uma prática sem ideia de elevação.
É na realidade órfã que a relatividade inconsciente se inscreve.
A interpretação pela qual se opera e incide a mudança psicanalítica é vazada de significação, se inscreve sob a forma de significante.
É com o desejo pendurado no seu corpo simbólico, que o saber do analista, se curva e faz, no lugar de semblante, pose e ato.
A realidade discursiva não se tromba com o real.
O sólido não é a melhor metáfora para traduzir a relação do real com o discurso.
O real é impenetrável, mas escorrega pelas vias discursivas.
A realidade psíquica cria uma barreira ao saber.
Não há geometria na realidade psíquica, somente ponto de entrave ou partida.
O discurso psicanalítico esvaziando a ordem imaginaria restitui o gozo ao traço.
A produção de um novo saber implica no despedaçamento simbólico do corpo e na desarticulação do gozo com a demanda discursiva.