Óxidos series, pigmento s/papel e instalação elétrica
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Óxidos series, pigmento s/papel e instalação elétrica
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Óxidos | texto por Maria José Cavaco
Quando por centro se quer designar apenas um centro de energia, a sua localização não tem importância. Contudo, assim que estabelecemos relações entre os elementos, surge um significado completamente diferente: agora a palavra centro pode referir-se àquilo que tem o seu lugar no meio. (…) A tendência excêntrica é apresentada por qualquer ação do centro primário dirigida para uma ou diversas metas exteriores ou objectivas. O centro primário atrai ou repele estes centros exteriores, por sua vez, afetam o centro primário. Verificar-se-á que a interceção das duas tendências representa uma tarefa fundamental da vida. Rudolf Arnheim, O Poder do Centro
Atalhada. O Filipe Franco fixou residência em São Miguel, em julho de 1991. Desde 1996 tem vindo a desenvolver, conjuntamente com a Nina Medeiros e comigo, um trabalho plástico/artístico regular no Atelier da Atalhada, na casa da Ana Mafra. Há três anos que, dia após dia, entre a organização e montagem de exposições, o Filipe passa as tardes ou as manhãs ou as noites ou os dias na Atalhada. No Verão por vezes, entre os banhos no calhau e os jantares/encontros com amigos. Os temas em discussão centram-se, recorrentemente, no programa/contexto cultural/artístico das ilhas. E nos projetos em empreendimento.
O Atelier da Atalhada é o lugar onde sabemos que podemos, com certeza encontrar o Filipe - entre as finas madeiras das leves estruturas das suas peças e o pó das terras da ilha de São Miguel. Entre o branco e o vermelho. Não foi por acaso nem inconsequentemente que o Filipe Franco voltou para os Açores.
Itinerários da terra. Existem em São Miguel itinerários possíveis das terras. Encontram-se terras brancas, como a farinha de trigo, junto às lagoas; encontram-se, nas caldeiras, terras de um cinza lamacento, quentes; encontra-se terra bege e terra amarela; encontra-se terra castanha castanha e terras vermelhas; encontram-se terras de cor de ferro enferrujado junto às nascentes de água ferrosa. Desde 1996 que o Filipe Franco tem percorrido extinções vastas, nas Ilhas, à procura das terras que vai encontrando e guardando. É possível elaborar uma carta mental de percursos que, por vezes, me lembram os percursos pedestres, em círculo, registados em mapa de Richard Long; se bem que, enquanto em Long a postura estética é assumidamente conceptual, no caso do Filipe, por outro lado, a aproximação à natureza adquire um carácter profundamente romântico.
O primeiro contacto do Filipe Franco é intuitivo e fortemente sensorial. Elas são o registo de uma parte importante das suas memórias do Agrião e os seus percursos de recolha obrigam a um contacto prolongado com os elementos da natureza, bem como a uma intervenção junto da natureza. Há uma comunhão com os elementos naturais que, numa primeira impressão, é de arrebatamento. As terras, com tudo aquilo que transportam de história física (componentes geográfica, geológica, meteorológica e química) por um lado, e de história emotiva (componente de expressão) por outro, são recolhidas e guardadas, para posteriormente serem secas e moídas, transformando-se em pigmentos, que são conservados em frascos transparentes. Os pigmentos/terra constituem-se como o elemento de aproximação sensorial ao trabalho de Filipe Franco.
O apelo sensorial exercido pelas terras contrasta, numa leitura mais atenta das peças, com a integração de materiais lisos e rígidos, em que uns reforçam o sentido dos outros.
Na reformulação formal/conceptual, o trabalho do Filipe Franco situa-se entre dois polos de interação: o mental e o sensorial; o permanente e o efémero. A extrema lisura e depuração formal, por um lado, e a irregularidade, organicidade e mutabilidade dos materiais deterioráveis, por outro. Deste diálogo, nascem objetos com formas de uma grande simplicidade e leveza (formas que facilmente nos remetem para os esqueletos dos navios em estaleiro), revestidas de uma pele de uma matéria densa. A densidade do revestimento é intencionalmente intensificada pelo controle da deterioração da matéria. Estes corpos, simultaneamente leves e densos, ocupam o espaço que se situa entre os objetos de pintura e os objetos de escultura, porque ao mesmo tempo que potenciam a expressão do revestimento e da matéria, crescem no espaço como volumes em que o elemento sombra (tradicionalmente próprio da escultura), ampliando a dimensão imaterial e ilusória dos objetos, surge, em si, com expressão plástica. Por um processo lúdico de jogos de formas / volumes e sombras , os pós da natureza são reformulados, enquanto matéria de expressão plástica, perspetivando percursos agora mentais.
Os itinerários da terra condensam-se, nos objetos, em itinerários plásticos. O arrebatamento torna-se objectual.
O local cede lugar ao universal.
Centro periférico. Quando se produz e expõe nas ilhas, é importante acreditar-se que, ao relacionar os elementos, o lugar do meio pode situar-se no ponto de tangência das periferias de outros meios.
Das diversas exposições individuais e coletivas em que o Filipe Franco participou, na região, desde 1993, parece-me importante destacar aqui as exposições de arte contemporânea Periferia ao Centro e Novos Criadores – exposições simultaneamente por si comissariadas, Estas exposições privilegiaram não só o confronto e o diálogo entre obras de artistas açorianos da nova geração, mas também o confronto e diálogo com obras de artistas de fora da região, Com efeito, o protagonismo do Filipe Franco na organização destas iniciativas introduz-nos aquilo que me parece ser uma das características mais significativa da sua postura estética e social: a necessidade de acompanhar o trabalho artístico, individual, solitário, de atelier, com o desenvolvimento simultâneo de iniciativas paralelas (que curiosamente parecem projetar-se no mesmo impulso energético que o trabalho de atelier), destinadas ao cumprimento daquela que é uma das vertentes fundamentais do processo artístico: a saber, a vertente social da arte — sempre posta em causa num contexto que, à partida, é francamente adverso a uma dinâmica de produção/fruição/consumo. O confronto de trabalhos, processos e ideias e o diálogo entre artistas de diferentes origens e de diferentes áreas de formação, tem-se revelado um forte indicados de que um movimento novo está a agitar o panorama plástico/artístico no Atlântico.
No momento em que vivemos, há um grupo de artistas fixados na região, a produzir regularmente na região, com uma forte consciência de contemporaneidade, e (ainda que a título de projetos individuais e particulares e com um dispêndio suplementar de energias) preocupados em problematizar as questões que decorrem do facto de se desenvolver e defender uma produção artística contemporânea, numa área claramente marcada pelo mundanismo, numa região periférica. Acreditando que o conceito de periferia, a este nível, pode ser muito relativa, as actividades desenvolvidas pelo Filipe Franco, no conjunto de todos os seus vetores, tem potenciado gradualmente a capacidade geográfica do arquipélago para se constituir, ele próprio, como centro, não numa perspetiva fracionária, mas numa perspetiva global.
A exposição que agora abre, e no contexto em que abre, parece-me ser disso o exemplo mais cristalino. As peças agora trazidas a público são o resultado de quatro anos de um trabalho sediado na ilha de São Miguel, desenvolvido dentro e fora do atelier, que, embora de natureza fortemente impulsiva, tem resultado sistemático, muitas vezes em conjunturas francamente adversas. Se o contexto mais restrito em que o artista se insere não encontra respostas para o cumprimento de todas as vertentes de desenvolvimento do processo artístico, então é urgente alargar-se o contexto. Criar-se um novo contexto.
Ponta Delgada, 24 Fevereiro de 1999
Maria José Cavaco
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