[S]em Crise
“[...] Oh no now I feel unworthy and I want to die. If I can accept the imperfection of others with such joy and interest, why do I despise myself so? Oh, I’ll get over it. I’ll get over this self-doubt in a few minutes.” - The Diary of a Teenage Girl - Phoebe Gloeckner
É muito doido como tudo se conecta de algum modo.
Essa semana foi difícil. Talvez tenha sido o trabalho que voltou a todo vapor, talvez minha própria cabeça me enlouquecendo, a gripe que me pegou em cheio, ou minhas inseguranças e esse um mês sem fumar. Só sei que eu terminei a semana querendo explodir.
E explodi mesmo.
De repente tudo surgiu em um peso enlouquecedor. A mini-juju que fica em minha cabeça girava sem parar, sentava no chão e se agarrava pelos cabelos pedindo para o mundo parar. Para tudo parar.
Passei dois dias inteiros chorando. Não queria me levantar, comer, sorrir, desenhar. Eu só queria chorar, me cobrindo até a cabeça pelas cobertas. Não tive ânimo para ir a aula de desenho, coisa que eu raramente falto, não tive ânimo para ligar para o Victor e pedir ajuda. A única coisa que consegui fazer foi pegar o livro que tinha acabado de comprar e começar a ler.
Li umas 40 páginas seguidas e aí surgiu essa citação aí em cima. Tudo meio que conectou.
A personagem principal, Minnie Goetze é uma garota de 15 anos que se sente insegura de tudo. Ela não se acha bonita, nem capaz e pensa que ninguém vai se interessar por ela. Ela crê que não existe amor para uma pessoa como ela, mas mesmo assim ela leva todas as experiências que tem com muito humor, desenhando cartoons para explicar a vida de uma adolescente americana na década de 70.
Quando eu vi o filme baseado no livro, fiquei totalmente fascinada. Lembrei de cada parte da minha infância e adolescência, cada escolha imbecil que fiz dos 15 aos 20. Cada insegurança, cada falha e cada vitória.
Terminei o filme deitada no chão, às 2h da manhã, escutando The Smiths no último volume nos meus fones de ouvido.
Isso foi quarta-feira.
Naquela madrugada a vontade de chorar já tinha começado a surgir. Eu já queria entrar no meu casulo e desaparecer.
Mas como disse uma vez, o mundo não vai parar só porque você está se sentindo uma bosta.
E as pessoas não vão mudar porque notaram que você está num dia ruim.
Aí que vem a frase de Hemingway que postei agora pouco.
“As pessoas são sempre limitadoras da felicidade".
Isso aí estava no meu bloco de notas há meses. Li essa frase no livro “Paris é uma festa” e ficou gravada no meu inconsciente como chiclete no cabelo.
Sexta-feira diversas coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Uma insegurança de infância me deu três socos imaginários no rosto.
Pessoas que não me conhecem decidiram pensar que sabem de algo sobre minha vida e minha personalidade.
Madrugada em estado febril.
Mini-juju na eterna busca pela perfeição.
Mini-juju gritando em minha cabeça palavras cruéis.
Pessoas me oferecendo cigarro mesmo sabendo da minha batalha para largar a nicotina.
E foi aí que eu explodi. E foi aí também que entra a segunda parte de Hemingway, “exceto aquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera”.
Passei possivelmente 20 minutos chorando abraçada ao Victor. Falei coisas que eu nem sabia que existia dentro de mim, falei como eu me sentia no meu dia-a-dia, como às vezes eu nem quero sorrir mais, como eu não suportaria viver minha vida longe dele. Notei também que ele é o motivo pelo qual minha dor diminuiu tanto nos últimos anos.
Eu acho que já teria desistido de parar de fumar se não fosse ele e minha mãe. Sinceramente, sexta-feira eu implorei. Implorei por um cigarro, porque queria me sentir sob controle, queria saber que eu tinha controle de algo e o cigarro sempre dá essa falsa impressão de controle.
Foi essa primavera que me abraçou e me disse que eu não precisava daquilo. Foi a primavera que me disse que eu era melhor do que eu pensava, que eu não era uma maluca, esquisita, incapaz de ser amada, incapaz de ter amigos. Que eu não era a sombra de ninguém e que devia ter orgulho de ser Juju. Minha primavera me disse que diferenças me fazem melhor, não mais fraca. Foi a primavera que disse que me ama por todas as minhas loucuras.
E cara... essa não foi a primeira vez que tive um “break out”. Eu já tive alguns durante minha vida toda, muitos deles durante a adolescência quando eu mais me sentia excluída de tudo.
Mas pelo menos nos últimos três anos eu tenho ele para me abraçar e me deixar chorar mesmo sem motivo.
Ele me abraçou quando eu vi minha tia-avó doente e revivi a dor que foi perder minha avó.
Ele me abraçou quando eu me sentia horrível pelas besteiras que fiz no passado e achava que não era digna de nada.
Ele me abraçou quando eu não parava de chorar porque pensava que eu era a pessoa mais feia da face da terra e que meu corpo era horrível.
Ele me abraçou quando eu decidi parar de fumar ano passado e não aguentei a abstinência. Não importa quão rude eu tenha sido, ele continuou me abraçando.
Quando eu parei agora, ele me abraçou e me beijou. Disse que eu ia conseguir e em nenhum momento duvidou da minha capacidade.
Ontem quando eu passei o dia inteiro chorando, ele veio até a minha casa, fez cafuné e me deixou chorar as últimas lágrimas da crise em seu colo. Repetiu tudo que disse no dia anterior e me contou suas próprias experiências.
Por ele eu tive coragem de levantar da minha cama e me vestir para sair um pouco de casa.
Dormi melhor, acordei melhor. Hoje sorri sem forçar nada, dei risada, me escondi dos zumbis do The Last of Us, fiz um almoço diferente junto a ele. Ele sovou a massa do pão super empenhado. Fui tomar sorvete mesmo com dor de garganta e agora estou aqui.
Não fumei. Nem vou fumar. Também vou tentar não deixar as pessoas me destruírem de novo. A mini-juju vai voltar a enlouquecer em algum momento, não tenho dúvida disso. Mas OK, enquanto eu ainda tiver primaveras, tudo vai ficar bem.
“Oh, I’ll get over it. I’ll get over this self-doubt in a few minutes.”











