Um ano
“E finalmente deu um ano sem fumar. Um ano de #jujusemnicotina. Uma data que eu esperava mais que o natal (até porque caguei pro natal).
E o que aconteceu nesses 12 meses? Rolou recaídas? Rolou momentos de fraqueza? Foi tudo lindo? Deu tudo certo?
Cara, aconteceu muita coisa. Eu podia falar "não escolhi um bom ano para parar de fumar", mas se tem algo que eu aprendi nesses 12 meses é que não existem bons anos para tomar uma decisão como esta. Parar de fumar sempre vai ser difícil e você sempre vai pensar que não vai dar pé, sendo pelo estresse do trabalho, pela crise econômica, pelo impeachment da Dilma, pela aposentadoria que tá cada vez mais longe ou por problemas pessoais... Vai sempre existir um bichinho na sua cabeça te dizendo "você tem certeza que quer ficar sem fumar? Acho que você tá precisando, hein?".
Mas também tem outra coisa que eu aprendi nesse ano - você é sempre mais forte. Sabe aquela campanha antiga do "diga não as drogas"? Pois é, é isso. Parar de fumar é aprender a dizer não para essa voz na sua cabeça.
Não, eu não preciso.
Não, isso não vai me ajudar.
Não, eu não quero.
Não, esse cheiro não é bom.
Não, eu nem lembro mais o gosto incrível que isso tem.
Não, não vou ter uma recaída depois de tanta batalha.
Não. Não. Não. Não.
Eu imagino que deve ser parecido com qualquer droga. Essa batalha constante de autocontrole. E eu acho que o mundo não leva muito isso a sério - às vezes as pessoas nem querem assumir que cigarro é uma droga, talvez pelo fato de ela ser legalizada, ou porque o viciado em nicotina não aparenta tantos traços físicos quanto um viciado em cocaína, heroína e outras drogas. Mas é, cigarro é uma droga e uma das mais perigosas.
Ele te mata aos poucos, ele te faz pensar que você não poderia viver sem a sua companhia. Ela te priva de coisas sem você nem notar. De repente você deixa de ir naquele barzinho porque não tem fumódromo perto. Aí você tem que sair de uma conversa porque a nicotina te grita para ser abastecida. Depois você conta moedinhas e pensa se consegue comprar cigarro avulso porque não quer assumir que está fumando de verdade ("Não sou fumante, nem compro um maço!"). Depois você pensa 20 vezes se aquela viagem de avião faz sentido ("São X horas sem fumar, sei lá...").
Aí então vem aquela luz fraca no fundo da consciência - “talvez eu seja viciado”. Mas essa luz apaga rápido e é substituída por mil desculpas. "Eu posso parar quando eu quiser", "nem sou viciado, é só tipo", "que nada, só fumo quando bebo", "só fumo quando saio", "minha terapeuta disse que tem conexão com fase oral mal desenvolvida, Freud explica".
Depois de um tempo essa luz aparece de novo. Aí você decide tentar parar de fumar, não consegue e todas as desculpas voltam com mais força. Mas nesse momento já tem uma coceira constante nas paredes da consciência - essa coceira que te faz assumir que você é sim viciado, "mas só psicológico", porque seria um absurdo ser um viciado químico.
Então você para pela segunda vez e fica mais tempo. Mas treme, coração fica acelerado, você fica irritado, suas mãos vivem suando... e você volta a fumar. Cara, isso é químico. São todas as substâncias químicas saindo do seu corpo nesses poucos dias sem seu veneno diário.
Pois é, cigarro é perigoso. Cigarro é droga. Cigarro vai sim te matar. E do pior modo - aos poucos.
Falta de ar. Dentes e gengiva podres. Câncer de boca, língua, pulmão. Problemas vasculares. Enfisema pulmonar. Você escolhe. Qual vai ser a sua doença? Qual você teme mais?
E deixa eu te contar outra coisa, algo que descobri depois de um ano sem fumar - você vai demorar para voltar ao normal. Sinto falta de ar até hoje, às vezes quando estou correndo preciso parar porque meu pulmão não aguenta mais. Outro dia fiz 30 quilômetros de bicicleta, voltei para casa com dificuldade para respirar, cada arfada de ar ardia.
Isso porque tenho 26 anos. Isso porque fumei 10 anos, com tentativas de parar de fumar durante esse período. De acordo com algumas pesquisas, eu nem ao menos era considerada uma fumante "hardcore".
Cigarro é um veneno tão grande que ele não te larga, mesmo depois de um ano. Semana passada eu tive outro sonho no qual eu fumava – estava tão ansiosa por completar um ano sem nicotina que meu inconsciente decidiu me lembrar disso também.
No sonho eu fumava e me sentia uma merda. Por que eu estava fazendo isso? Por que eu não resisti dessa vez? Todo mundo que eu amava me olhava com decepção – minha mãe, meu namorado, poucos amigos. E eu sentia o gosto das tragadas, sentia a alcatrão, sentia a nicotina entrando no meu organismo, sentia a fumaça saindo pelo meu nariz e boca. E em todo momento, eu me sentia uma merda.
Acordei triste e aliviada – era só um sonho.
O problema é que eu sei que terei essas sensações por mais algum tempo. Agora sim, tudo culpa do meu psicológico – tenho medo de decepcionar. Foi por isso que criei esse tumblr, se eu compartilhasse com o mundo, eu ficaria muito triste de decepcionar as pessoas se voltasse a fumar.
Por isso – por saber muito bem como minha cabeça funciona, eu não tive nenhuma recaída (só em sonhos).
Não fumei durante as Olimpíadas.
Não fumei durante minhas crises.
Não fumei quando bebi muito.
Não fumei.
Não fumarei.
Nunca mais.
E daqui mais 9 anos, quando meu pulmão se recuperar 100%, estarei lá, correndo, pedalando, andando de skate com meu fôlego de não-fumante (mas moradora da cidade de São Paulo, então não tão 100% assim).













