Parnasso
O Parnasso é, originalmente, o nome do Monte Parnaso, uma montanha real na Grécia Central, perto de Delfos. Na mitologia grega, este monte era consagrado a Apolo (deus da música, das artes e da profecia) e às nove Musas, sendo considerado a sua morada.
Por extensão desta associação mitológica, o termo passou a ser usado em sentido figurado para designar a arte poética em si, o mundo da poesia ou os poetas coletivamente, a "morada simbólica dos poetas", uma coleção de poemas ou de literatura elegante (um florilégio poético) e qualquer centro de atividade poética ou artística.
Em resumo, a palavra "Parnasso" evoca um lugar idealizado de inspiração e excelência artística.
O termo também dá nome a uma escola literária que surgiu em França no século XIX e que valorizava a perfeição formal, a objetividade e a arte pela arte.
É um tema comum em obras de arte, como o famoso fresco "O Parnaso" de Rafael, no Vaticano, que representa Apolo e as Musas com poetas famosos.
Existe mesmo uma ópera de Georg Friedrich Händel intitulada Parnasso in festa.
Duas das obras mais famosas que abordam este tema na pintura são:
A obra "O Parnaso" de Rafael Sanzio (completada por volta de 1511), um dos frescos mais importantes do Alto Renascimento e uma das obras-primas do artista italiano. Ao contrário da versão de Mantegna, que era uma pintura a óleo de menores dimensões para um studiolo, a obra de Rafael é um monumental fresco que cobre uma das paredes da Stanza della Segnatura (Sala da Assinatura) no Palácio Apostólico, na Cidade do Vaticano.
O fresco faz parte de um programa iconográfico complexo que decora as quatro paredes da sala, representando as principais áreas do conhecimento humano:
A Disputa do Santíssimo Sacramento (Teologia);
A Escola de Atenas (Filosofia);
Alegoria da Justiça (Jurisprudência);
O Parnaso (Poesia e Artes).
Juntas, estas obras celebram o Humanismo e a coexistência harmoniosa da sabedoria clássica e da fé cristã, sob a orientação do Papa Júlio II, o mecenas da obra.
A composição de Rafael é vasta e preenchida com uma multidão de figuras que representam os maiores poetas, músicos e escritores da Antiguidade Clássica e da época contemporânea de Rafael.
No topo e no centro, encontra-se Apolo, o deus grego da música e da poesia. Ele não toca a lira, como na versão de Mantegna, mas sim uma lira da braccio (um instrumento de cordas da Renascença).
Apolo está rodeado pelas nove Musas, que inspiram a dança e o canto, criando uma atmosfera de harmonia celestial.
Espalhados pela montanha idílica, que culmina no Monte Parnaso, estão 58 figuras proeminentes. É uma "assembleia" de génios literários, incluindo:
Poetas clássicos como Homero (que aparece proeminente no topo, à esquerda de Apolo, de olhos fechados e com barba, a recitar), Virgílio e Ovídeo.
Poetas italianos modernos (para a época) como Dante Alighieri, Petrarca, e Boccaccio.
Outros poetas e figuras históricas, como Safo, a poetisa grega, que é uma das poucas figuras femininas além das Musas.
Enquanto a versão de Mantegna era mais rígida, com figuras esculturais e um ambiente mais seco e irónico (com a inclusão de Vulcano ciumento), a de Rafael é fluida, serena e monumental. Rafael utiliza uma composição piramidal e uma interação harmoniosa entre as figuras, criando uma cena que parece natural e eterna.
A obra de Rafael representa o ideal renascentista do génio criativo, onde a inspiração divina se une à mestria humana, celebrando a poesia como uma das mais altas realizações do espírito humano.
A obra de Andrea Mantegna, geralmente intitulada "Marte e Vénus" ou conhecida pelo nome tradicional "O Parnaso", foi pintada por volta de 1497 e trata-se de uma peça-chave do Renascimento italiano, encomendada por Isabella d'Este para o seu studiolo (estúdio privado) no Palácio Ducal em Mântua. A pintura encontra-se atualmente no Museu do Louvre, em Paris.
A obra é uma alegoria mitológica que celebra o casamento de Isabella d'Este com Francisco II Gonzaga, que ocorreu em 1490. A cena representa uma harmonia celestial, mas também esconde uma complexa teia de simbolismo e metáforas:
No topo da colina, no centro, estão a deusa do amor, Vénus, e o deus da guerra, Marte. A sua união simboliza a harmonia entre o amor e a força militar, uma metáfora para o casamento entre Isabella e Francisco.
No canto inferior esquerdo, está o marido de Vénus, Vulcano, furioso e coxo. Ele emerge da sua gruta com uma expressão de frustração, impotente perante a união ilícita, mas divinamente orquestrada, de Vénus e Marte.
Em primeiro plano, as nove musas dançam ao som da música de Apolo, que toca uma lira. A dança e a música das musas simbolizam a inspiração artística e intelectual, virtudes que Isabella d'Este cultivava ativamente.
À direita, perto das musas, está Pégaso, o cavalo alado. De acordo com a lenda, Pégaso fez a sua aparição no Monte Helicon, que muitas vezes é associado ao Monte Parnaso. Pégaso era conhecido por deter erupções vulcânicas com um movimento da sua pata, um detalhe que se acredita ser uma referência à capacidade da arte de acalmar as paixões violentas.
A representação da cena por Mantegna, com a sua arquitetura clássica detalhada e figuras sólidas e monumentais, reflete a sua paixão pela antiguidade clássica.
Em suma, "O Parnaso" não é apenas uma cena mitológica, mas um complexo elogio visual à dinastia Gonzaga e um reflexo do mecenato de Isabella d'Este.
"O Parnaso" de Nicolas Poussin é uma célebre pintura a óleo que se destaca pela sua abordagem clássica e ordenada do tema mitológico, contrastando com a vivacidade do famoso fresco de Rafael. Data de cerca de 1631-1633 e está no Museu do Prado, em Madrid, Espanha.
A obra foi explicitamente inspirada pelo "Parnaso" de Rafael na Stanza della Segnatura, no Vaticano, que Poussin certamente estudou em detalhe. No entanto, Poussin reinterpreta o tema com a sua própria estética: A pintura apresenta uma composição altamente estruturada e equilibrada, típica do estilo de Poussin. As figuras estão dispostas de forma lógica e calma, num cenário de paisagem idealizada. Representa Apolo, o deus da música e das artes, no Monte Parnaso, rodeado pelas nove Musas (Calíope, Clio, Erato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Tália, Terpsícore e Urania), que simbolizam as diferentes formas de expressão artística e científica. O tema é uma celebração da poesia e da harmonia intelectual. A obra reflete o ideal classicista de Poussin, que valorizava a clareza, a lógica, a ordem e o decoro. As cores são geralmente mais sóbrias e a luz é utilizada para modelar as formas de maneira escultórica, afastando-se do dramatismo barroco mais exuberante de outros contemporâneos.
Poussin pintou "O Parnaso" numa fase da sua carreira em que se dedicava intensamente a temas da mitologia clássica e da história antiga. A sua abordagem visava evocar a virtude e a razão através de narrativas visuais claras.
Outras representações relevantes:
O fresco "Apolo e as Musas no Parnaso" de Anton Raphael Mengs (1761) no Teto da Villa Albani, em Roma. A obra de Mengs é considerada um manifesto do Neoclassicismo. O artista afastou-se do drama e do dinamismo do Barroco e Rococó, buscando inspiração direta na antiguidade clássica e na obra de Rafael. A composição é mais austera, as figuras são idealizadas e a ênfase recai na pureza da forma e na clareza da mensagem, simbolizando o renascimento dos ideais clássicos na arte.
As Nove Musas de Richard Samuel (1776), um artista inglês menos conhecido, mas cuja obra reflete a popularidade do tema na Grã-Bretanha no século XVIII. A obra está na National Portrait Gallery, em Londres. Embora não explicitamente intitulada "Parnaso", é uma alegoria moderna que coloca nove proeminentes poetisas e escritoras britânicas da época no lugar das musas clássicas, celebrando o génio literário feminino. Mostra como o conceito mitológico foi adaptado para celebrar talentos contemporâneos.
A disseminação das grandes obras originais foi crucial. Marcantonio Raimondi criou uma famosa gravura da versão de Rafael, que permitiu que o modelo se tornasse amplamente conhecido e estudado por outros artistas em toda a Europa. De forma semelhante, Raphael Morghen fez uma gravura detalhada do fresco de Mengs, disseminando os ideais neoclássicos da obra.
O Parnaso é a metáfora visual e literária primordial para a inspiração divina, a criação poética e a harmonia das artes. Apolo, como líder das Musas (que presidem à música, dança, poesia, história, astronomia, etc.), representa a fonte de todo o génio criativo humano.
Ao representar o Parnaso, os artistas não estavam apenas a ilustrar um mito; estavam a refletir sobre a própria natureza e origem da sua arte. Era uma forma de elevar a pintura, a poesia e a música a um estatuto de atividade sagrada e intelectual, e não apenas um ofício manual.
Desde o Renascimento até ao Neoclassicismo, o Parnaso serviu como um pilar do ideário clássico. O Humanismo redescobriu os textos clássicos e a mitologia como fontes de sabedoria moral e estética. O Parnaso de Rafael na Stanza della Segnatura é o expoente máximo disto, ao reunir poetas antigos (Homero, Virgílio) e modernos (Dante) com os deuses, validando a continuidade da excelência humana através dos tempos. No século XVIII, artistas como Anton Raphael Mengs usaram o Parnaso como um manifesto estético, defendendo um retorno à pureza, ordem e clareza da arte grega e romana, em oposição aos excessos do Barroco e Rococó.
Pintores, mecenas e patronos usavam o tema do Parnaso para legitimar o seu próprio trabalho e gosto. Encomendar ou pintar um "Parnaso" era uma declaração de erudição, bom gosto e uma associação direta com o ideal de génio. O Parnaso de Mantegna, criado para o studiolo de Isabella d'Este, tinha a função de decorar um espaço de contemplação intelectual, validando o estatuto de Isabella como uma patrona iluminada das artes.
A representação do Parnaso exigia um domínio complexo da composição, pois envolvia múltiplas figuras interagindo num cenário idílico. O fresco de Rafael, em particular, é estudado por gerações de artistas como um exemplo de como organizar um grande número de figuras de forma harmoniosa, natural e hierárquica, influenciando artistas como Ingres, Delacroix e até os modernistas.
Mesmo quando a arte se afastou do figurativismo clássico, a ideia do Parnaso permaneceu. Paul Klee, com o seu Ad Parnassum, utilizou o título para se referir à jornada espiritual do artista moderno em busca da pureza criativa e da transcendência, mostrando que o símbolo sobreviveu à forma.
Em suma, o Parnaso é mais do que um simples tema mitológico; é uma metáfora visual e um símbolo perene da busca humana pela excelência artística, que permitiu aos artistas e mecenas de diferentes épocas refletir sobre o propósito e o poder da arte.
4 de Dezembro de 2025









