Periscópio 2: A outra voz: o outro caminho para a poesia
Paulo Ferraz
A régua com a qual medimos o Brasil tem pouco mais de 430 quilômetros, ligando normalmente um ponto na zona oeste paulistana a outro na zona sul carioca, e é com ela que esquadrinhamos os cerca de 8.500.000 quilômetros quadrados do território nacional. Como toda régua, ela tende a criar representações condizentes à sua escala, daí não raras as vezes na universidade e nos meios de comunicação chamarmos de Brasil o que deveríamos chamar simplesmente de São Paulo e Rio de Janeiro, uma metonímia das mais injustas que poderíamos empregar em desfavor da diversidade intelectual e cultural de um país-continente. E quase sempre quando se trata de poesia brasileira, em um artigo panorâmico ou em uma antologia, é ao conjunto de poetas que vivem nesses dois estados a que nos referimos, e dá-lhe poesia de temática urbana, do cotidiano amesquinhado e embrutecido no qual vivemos e que tenta unir num mesmo ambiente o cosmopolita e suburbano. Excelente poesia, lúcida, reflexiva, crítica e inventiva se fez em torno do circunstancial e do imanente, Pauliceia Desvairada, Libertinagem, Rosa do Povo, Paranoia, Poesia pois é poesia, entre outros tantos que compõem uma “tradição” moderna que baliza essa poética secular. Mas é a única? Claro que não, e A outra voz de Antônio Moura, seu quinto livro de poemas, desde o título já aponta para a riqueza da poesia brasileira para além da geografia e dos esquemas didáticos de classificação de poemas e poetas.
Talvez sejamos mesmo um país de condenados à vanguarda, cuja pena pressupõe impingir ao poema a face útil da palavra, guiada por uma instrumentalidade tanto estética quanto política, tamanha a nossa miséria artística e material. Mas essa não é uma pena que se cumpre em um único regime, afinal são muitas as expressões da modernidade – acaso haveria alguém que sustentasse que T. S. Eliot, Ezra Pound, Rainer Maria Rilke, Stefan George, Gottfried Benn, Paul Valéry, Paul Claudel, Saint- John Perse, Paul Celan, Garcia Lorca, Lezama Lima, Octavio Paz, Yves Bonnefoy ou Michel Deguy não são modernos? – e inúmeras as possibilidades de transformar a arte e o homem, incluindo os meandros da reflexão, da fantasia e da transcendência. Por mais que sigamos desconfiados da superficialidade de muita poesia dita profunda, como nos alertavam, com razão, na década de 1930 Mário de Andrade e, logo depois, João Cabral de Melo Neto. Obras como Claro Enigma, Invenção de Orfeu, Tempo Espanhol, O homem e sua hora, As Galáxias, Alba são alguns dos exemplos em que, sem abrir mão da matéria bruta extraída do solo nacional, atingimos os mais elevados níveis de uma poesia feita pensamento.
Nós, leitores de poesia moderna, nos habituamos a considerar a realidade pela ótica do poema, um objeto que tanto diz do sujeito quanto do objeto. Acontece, porém, que no processo de constituição do poema o símbolo vem sendo substituído pelo retrato, como se cada vez mais a experiência vital fosse transposta com pouca ou nenhuma mediação para a realidade intrínseca do artifício. De algum modo, a sensibilidade física ou emocional está hoje mesclada à sensibilidade estética, o que talvez explique um certo pendor contemporâneo para a reprodução em detrimento da imitação, além de uma presença cada vez maior do discurso, do argumento e da reflexão com funções poéticas, e não exclusivamente a construção de imagens e dos mecanismos de representação. Por certo que todo bom poema tem o condão de elidir o particular no geral, sendo prescindível o emprego de categorias como alto ou baixo, sublime ou vil, pois todo poeta busca em alguma medida a transcendência, a introspecção do real e abstração, mesmo quando não as aspira. Antônio Moura uma vez mais demonstra seguir a lição daqueles poetas que sem abdicar o eu-empírico souberam perscrutar o universo que cada ser carrega em si, um mundo que mais que composto de acontecimentos é feito de linguagem, a qual na maior parte das vezes parece muda para os que não se libertam de todo da consciência.
Aos que postulam o tempo presente como matéria-prima da poesia, Moura não tergiversa, ao contrário, enfrenta-o, revelando em seus poemas os detalhes de uma guerra invisível que nos cerca, que está em toda parte e em parte nenhuma, às vezes, sem que ninguém perceba, passa, com suas armas de alta tecnologia, por entre crianças que brincam descalças numa abandonada praça de periferia (“The invisible war”). Uma guerra travada por artefatos e ideias forjadas na oficina do fascismo que fabrica frias algemas (“Poema para ler ao andar com cuidado”), movida seguramente com o dinheiro impresso/ nos estúdios do diabo (“Arte poética”), em nome de uma política reptiliana, pouco mais que um circo de patifes e canalhas que haverá de corromper não só os homens, mas o espaço e a própria história, sem limites, a ruína que restará se resume às imagens do céu devastado e do mar massacrado (“Política”).
Quiçá fossem possíveis mais cores, mais luzes e mais horizontes nas paisagens que percorremos em seus poemas, mas aí não estaríamos nesse mundo crepuscular em que nossos pés estão plantados, pois não há como olhar com indulgência para um país navio-negreiro (“Joaquim Nabuco”), não há como transigir sequer com uma promessa de futuro, enquanto não rompermos com o silêncio que cobre/ os corpos mortos dos nossos vizinhos índios, pretos, pobres,/ almas vagando pelos cômodos cômodos de nossas casas (“Tanto quanto”), corpos como o de um nativo/ abatido/ a tiros/ pelo dólar-fazendeiro (“Amazônia”). Eis alguns aspectos desse mundo-fera que alimentamos cotidianamente com os sentimentos mais mesquinhos que cada um de nós cultiva sob a capa de hipocrisia.
O homem é um ser-oximoro, moldado para a vida em grupo, mas munido de um egoísmo tamanho que o impede de se realizar plenamente no outro, ao invés disso, se realiza apenas contra outro, em desfavor deste, pelo gozo solitário dos prazeres e dos vícios, atrás dos muros, atrás dos murros, dos erros/ do lado de fora, dos urros do lado de dentro,/ reina, só, no centro, o cetro do medo – rei/ da pobreza, da dor, da raiva, do encolhimento// do corpo e do espírito, ambos prisioneiros/ de um mesmo encarceramento – pois a alma/ do homem que mantém outros homens detentos/ é a cela do Homem que se mantém preso por dentro (“Pavilhões”). Diante de tantos infortúnios que nos são apresentados, fica mais nítida a verdadeira aparência do que chamamos civilização, um sofisticado disfarce da barbárie, da mesma maneira que aprendemos com o Angelus Novus de Benjamin/Klee que o progresso oculta as ruínas e catástrofes da história.
Se dependesse apenas de nós, seres minúsculos diante de todos os movimentos/ da gigantesca sinfonia inumana (“Marajó”), e do que (des)construímos, haveria pouco a celebrar, contudo a natureza ainda tem sua voz, a mesma que se ouvia antes de ser sufocada por nossa razão, quando era ela quem nos moldava, quando cientes de nossa pequenez aceitávamos nossa condição e aprendíamos que sabedoria era tirar de nós aquilo que ela nos propiciava. Naquele então, apurávamos os sentidos e o coração para captar e compreender seus mistérios. Essa natureza atravessa todo o livro de Antônio Moura, e desde o primeiro momento o que ele nos convida a fazer é nos calar e ouvir outra voz, pois há sempre/ uma voz em tudo – um coaxo,// um sibilo, um crocitar, um zumbido/, um gorjeio, um zurrar, um rumor// de água, um silvo, um vento, um/ farfalhar// um balido/ um trino, um latido/, um cicio, um grunhido, um grasnado// (...), cuja expressão não está restrita aos limites da fala, pois tudo – flora, fauna, minerais, as intempéries, o tempo – tem algo a nos dizer, pois os sons que produzem são manifestações da voz do espírito que a tudo anima (“Ouve o mundo”).
Aqui talvez se possa supor a existência em sua poética de uma lição aprendida na geografia amazônica, cujas águas descem serpenteando desde os Andes, rasgando a terra e arrastando lama, lodo, plantas, bichos aos quais vai sepultando em suas margens, onde o cadáver, a carcaça e toda matéria orgânica já putrefata fertiliza o solo, o húmus sem o qual não haveria a rainforest. Este talvez seja um dos exemplos mais pungentes da potência da natureza e uma mostra cabal de que destruir é só uma das etapas da criação. É preciso destruir continuamente o corpo do poema, desde a língua, que tende a caducar em nossa mente, à tradição literária, que tende a se perenizar como fórmula. Daí a necessidade de no íntimo de cada indivíduo existir um solo fértil como o amazônico, onde se encontra a alma/ que se amalgama à lama (“Do fundo do coração”), caso contrário, o cenário equivalente seria o do deserto da razão.
A concepção da natureza como um lugar ameno, um refúgio idílico, um convite à epifania ou à pura contemplação (e nem se fale da paisagem-produto a ser consumida, tal e qual vendem as agências de turismo), mesmo na antiguidade já era um prenúncio de sua sujeição à nossa mentalidade urbana, já que basicamente o homem desde que se assentou é um ser tanto coletivo quanto excluído da totalidade. Porém, a despeito dessa mentalidade, vivemos em permanente desconforto, já que nossa criação é sempre imperfeita em face da incômoda sombra do éden perdido, pois a beleza sempre estará um passo à frente de tudo/ o que tentamos dizer (“Tristan Tzara”). Daí que essa natureza bucólica ou pastoril é tão humana quanto a cidade, com a particularidade de ser a imagem invertida desta.
A natureza dócil e submissa existe como compensação, como se fosse uma ampulheta que ao deixarmos o perímetro das ruas e avenidas invertesse o sentido da energia vital que perdemos em nossa rotina, ou seja, não existe em si, mas como objeto de fruição. Não é essa a natureza que encontramos ao longo das secções que compõem o livro, “O jardim da ilusão”, “Personae”, “Arqueologia barroca” e “A outra voz” em cada uma delas a experiência que os poemas nos oferecem é quase sempre a de estar diante de uma força que por falta de uma palavra melhor poderíamos chamar de divina, na medida em que se mostra indiferente aos nossos anseios e acima, sobretudo, de nossa capacidade de lhe dar sequer um nome, pois não é nossa imagem e semelhança, nem existe para nos servir, mas para seus próprios desígnios. Os poemas de Moura são, todavia, a demonstração de que entregar-se à natureza tem o condão de nos revelar algo de nós mesmos e de nos religar à totalidade. Esse elo necessariamente é tecido com a linguagem, que precisa ser cardada, urdida e novamente fiada.
Embrenhar-se na linguagem humana equivale a se aventurar também num mundo desconhecido, pois tudo o que dela sabemos é justamente essa expressão instrumental a que chamamos razão, da qual dependemos para a vida prática que erigimos, mas que pouco nos pode oferecer quando procuramos perscrutar nossos mistérios. Ao entrar em contato com essa zona oculta em nós, a trama lógica da razão vai se desfazendo, dilacerando o pensamento e a memória, a ponto de sumir na bruma da inconsciência, como Moura aparenta nos alertar ao dizer só o sopro do esquecimento/ faz suportável o este pensamento (“O sopro do esquecimento). O místico, o filósofo e o poeta são aqueles cuja vida é dedicar-se a ir o mais fundo possível de nós sem se perder e regressar com algo novo, algo que nos ilumine e nos dê a esperança de seguir buscando o que há de maravilhoso em nós mesmos. Antônio Moura deixa evidente que essa é a sua tarefa ao empregar a alegoria da cigarra que se interna sob a terra, por largo tempo vivendo uma solidão subterrânea, enquanto se prepara para um dia, por um único e/ vivo instante, ascender em luz por meio de seu canto (“A cigarra”). Ao deixar suas profundezas, a voz que ouvimos é uma e muitas ao mesmo tempo, pois reverbera as vozes dos que ali estiveram em semi-sepulcro, nominalmente encontramos as máscaras de Georg Trakl, Tristan Tzara, Gérard de Nerval, Jane Austen, Emily Dickinson, Wisława Szymborska, Joaquim Nabuco, mas indiretamente se ouve o eco de um César Vallejo, um Boris Pasternak, um John Keats, além do absolutamente moderno Arthur Rimbaud, agora passageiro de um bateau ivre pelo Amazonas, a quem reencontra com a voz apagada pela boca da eternidade que se abre abissal (“África”).
Talvez nenhum outro poeta antes ou depois de Rimbaud tenha ido tão longe à procura da poesia como a manifestação de uma outra voz. Sua descida ao inferno de algum modo representa essa solidão subterrânea, quando experimentou o desregramento de todos os sentidos. Todavia, chegar ao desconhecido não basta, é preciso trazer algo de lá e não sucumbir ao risco do silêncio. Aqui é impossível não mesclar a imagem de Rimbaud à figura de Orfeu, capaz de encantar todo o hades, mas imprudente o suficiente para perder sua Eurídice uma segunda vez e se deixar esquartejar pelas bacantes. Quantos não se veem na situação limítrofe no qual têm pela frente o sonho abissínio de abandonar tudo? Para aqueles que dizem não, resta a possibilidade de a poesia que emerge desse outro lugar de nós mesmos ter a força capaz de destruir a realidade como a conhecemos. Há muitas formas de acabar o mundo e criar outro, e uma delas seguramente é pela poesia: É assim que acaba o mundo – / no instante em que a poesia/ se alastra sobre o papel e toca/ fogo no alfabeto que escreveu/ as tábuas da lei contra o absoluto./ É assim, é assim que acaba o mundo (“É assim que acaba o mundo”).










