Há muito tempo admirávamos aquelas imagens incríveis da Chapada Diamantina: suas cachoeiras, suas estradas, suas cidadezinhas e, principalmente, aquelas imensas formações rochosas que retratam singularmente a região. Um dia resolvemos: é para lá que vamos! Mais que isso: vamos de carro! Começamos a planejar a coisa toda, ver os melhores lugares para paradas, custos e tudo o mais que permitisse uma viagem com segurança. E assim foi!
Foi cansativo? Muito! Mas valeu cada quilômetro percorrido. Na verdade, a viagem não se reduziu ao destino final, mas também envolveu o seu percurso: as paisagens, as pessoas, os desafios e perrengues de uma trajetória que exigiu dos motoristas atenção e paciência em seus 3.000 e tantos quilômetros.
Alguns dias antes de partir estávamos apreensivos, pois os meteorologistas não apontavam para vida fácil na estrada, inclusive na Chapada. E de fato o caminho foi marcado por uma chuva fina, por vezes mais intensa. Os dois primeiros dias que passamos em Lençóis igualmente foram molhados. Chegamos a desanimar.
Logo vimos que a chuva é parte da paisagem naquela região. Segundo nos disse um local, chove de noite e de manhã cedo; de tarde o tempo abre. E assim foi praticamente em todos os dias, exceto um, quando a chuva insistiu por todo o dia. Não nos intimidamos, metemos o carro e os pés na estrada e foi assim mesmo! Mas, antes de falar sobre o nosso percurso, falemos rapidamente sobre a lógica que organizou essa expedição – a Expedição Chapada Diamantina, como chamamos. Éramos três viajantes no carro, dois motoristas e uma criança. A criança com mais espaço e conforto na parte da trás do veículo. Significa dizer que ali, além da criança, tinham livros, bonecas, tablet e tudo que é tralha para distrair a criatura. Afinal, estávamos falando de horas dentro do carro, certo? E a vida dentro de um carro em uma longa jornada exige paciência. E criança tem expectativa? Se tem, veja só!
Nosso destino final: a cidade de Lençóis, provavelmente a mais visitada da Chapada Diamantina. Achamos que seria razoável duas paradas, com pernoites, até lá. Fomos ao mapa e nos pareceu que, em uma primeira etapa, deveríamos sair do Rio de Janeiro e seguir até Governador Valadares (cerca de 600 Km), depois até Vitória da Conquista, na Bahia (mais 525 Km); dai seguiríamos direto até Lençóis (um pouco mais que 400 Km). Há, pelo menos, 3 maneiras de se chegar até Lençóis de carro, escolhemos seguir pela BR-116.
A BR-116 tem o traçado mais curto até o destino final. Inclusive, poucos pedágios ao longo do caminho. Na verdade, apenas dois, um que dá acesso à Teresópolis; outro às portas de Vitória da Conquista, na Bahia. Mais adiante detalharemos os valores. Poderíamos fazer toda a viagem com apenas uma única parada? Sim, mas entendemos que seria muito cansativo. Adicionalmente, teríamos que dirigir à noite e, sem pestanejar, garantimos que sua segurança poderá estar em risco nestas condições.
A moçada ultrapassa caminhão cegonha na curva!
Alguns dias antes de partirmos fomos contactados pelo hotel em Governador Valadares. Alegaram um serviço de manutenção e cancelaram nossa reserva. Ficamos chateados, pois reservamos com boa antecedência, de modo a garantir o melhor preço. Ao pesquisarmos uma alternativa na cidade vimos que os preços estavam, naquele momento, absolutamente desonestos. Mudamos, então, a rota, e nos instalamos em Caratinga, cerca de 120 Km antes. Como era de se esperar, essa mudança forçada de planos teve implicações para o percurso 2. Ele ficou muito cansativo e chegamos em Vitória da Conquista bastante tarde (mais abaixo entramos em detalhes sobre essa parte).
Rio de Janeiro – Caratinga foi, na medida do possível, tranquilo. Sem intercorrências, vamos dizer assim. A única coisa que pudemos observar de anormal é a grande quantidade de caminhões, sobretudo cegonhas. Caminhões lentos + motoristas irresponsáveis = à cenas simplesmente assustadoras na estrada. O pessoal realmente não tem medo de morrer e de matar os outros. A dica é permanecer longe dessas pessoas, pois em caso de acidente terás tempo de reagir e/ou evadir do local até que possa socorrer, em segurança, um doido desses.
Chegamos em Caratinga conforme o programado, antes das 15h. Os hotéis? Escolhemos hotéis com as seguintes características: bom preço, limpos e seguros; próximos da estrada, com garagem e, preferencialmente, com café da manhã. Nossa experiência no Quality Leste Hotel foi excelente, uma vez que atendeu a todas as expectativas. Aliás, mais que isso, o café da manhã pode ser considerado muito bom! 7:00 horas estávamos na estrada novamente (veja aqui nossa experiência no Quality Leste Hotel)
Caratinga – Vitória da Conquista não foi nada, nada fácil. A primeira complicação se deu em Governador Valadares. Nas proximidades da ponte que corta o castigado Rio Doce enfrentamos um engarrafamento de cerca de uma hora, chegamos a desligar o motor do carro. Horas depois, quando chegamos no Vale do Jequitinhonha, tivemos a impressão de que quatro rapazes, em duas motos, nos seguiam. Não demos tempo para que a dúvida fosse sanada, por cerca de uma hora aceleramos o carro e seguimos com uma velocidade média acima do que gostaríamos. Os sujeitos sumiram do espelho. Só voltamos a relaxar nas proximidades da Bahia.
À esta altura a paisagem já se alterou substantivamente. A frondosa mata atlântica começou a dar lugar à uma vegetação rasteira e muito seca. O grande sertão, do qual nos fala Guimarães Rosa, começou a surgir à cada quilômetro rodado.
Já às portas de Vitória da Conquista algo que não surpreendeu: um acidente envolvendo carro de passeio e um caminhão. Ficamos na estrada, mais uma vez com o motor do carro desligado, por cerca de duas horas. A noite caiu firme, chovia e fazia frio (cerca de 15 graus). Chegamos no hotel, como era também de se esperar, exaustos.
O Palace Hotel Pôr do Sol (não se impressione com o nome!) não é nenhuma maravilha, mas não decepcionou. O café da manhã, pelo contrário, bastante interessante! (acesse aqui nossa experiência no Palace Hotel Pôr do Sol). No dia seguinte, às 6:30 partimos para o último trecho de nossa expedição. Saímos da BR e encaramos uma BA, muitos menos caminhões na pista. Em compensação, viajante, alguns trechos eram absolutamente indigestos. Nosso carro é mais alto, tem uma suspensão diferenciada, motor diesel, aguentou o tranco na boa. Carros de passeio mais baixos também atravessaram aquele percurso sem maiores problemas, mas certamente com uma aceleração mais modesta.
Desvia de um, cai em outro
À medida que a estrada ia se tornando mais indigesta, as paisagens iam ficando – para nos recompensar – mais incríveis! Estávamos, finalmente, chegando na Chapada! E olha que a chuva não permitia que víssemos tudo como gostaríamos (mas na volta sim!). Placas? Tinham, há sinalização suficiente. No entanto, nos guiamos mesmo pelo nosso sistema de navegação via satélite, algo que qualquer celular permite, não é viajante? Ninguém fica perdido, portanto.
Entramos no imenso território da Chapada pelo sul, via BA-142. Lençóis no extremo norte, ou seja, muito chão para percorrer na região.
Formosas cidadezinhas iam ficando para trás!
No caminho, entre as gratas surpresas, o Cemitério Santa Isabel, mais conhecido como Cemitério Bizantino de Mucugê. Construído no século 19, quando a região estava à pleno vapor na extração das riquezas minerais, o cemitério tem visível inspiração na arquitetura bizantina. O fino acabamento, contudo, se deu em um contexto muito desanimador. Uma grande epidemia de cólera levou à óbito muitas pessoas naquela região. O velho hábito colonial de enterrar pessoas nas igrejas não era mais autorizado pelas autoridades imperiais. Daí a necessidade de se criar um local para receber os corpos. Mas por que bizantino? Diz-se que tem a ver com os compradores de diamantes de origem turca que circulavam na região.
Vamos lá, vamos falar de dinheiro. Regra geral, em cada parada chegávamos com um pouco mais do que meio tanque de combustível. Por medida de segurança sempre completávamos com combustível. O consumo médio de nosso carro na estrada foi de 22 Km/l de diesel. Na Chapada esse consumo aumentou, pois as condições da estrada, as ladeiras e todo tipo de dificuldade, que exigia pé no acelerador, elevou o consumo médio para 17,5 Km/l. Ainda assim uma excelente marca. Ao fim e ao cabo desembolsamos 594,85 reais com combustível em toda a expedição (ida, passeios locais e volta).
Atravessamos, como dissemos, dois pedágios, somando um custo de 48,80 reais (ida e volta).
Com estadia gastamos 1.246 reais.
Com alimentação gastamos 480,13 reais
Detalhe é que em Lençóis nos instalamos em um casa alugada (mais informações aqui). Logo se revelou uma excelente opção. O conforto da casa, a proximidade das atrações e a possibilidade de dar uma passadinha no supermercado e comprar algumas coisas para um jantar ou lanche de noite ajudaram na economia. Tenha em mente que Lençóis, assim como boa parte da Chapada, é frequentada por muitos estrangeiros, sobretudo europeus. Isso quer dizer que o preço das coisas se equipara aos dos viajantes de fora (tornando-se salgado para os de dentro!). A cidade é uma graça, tem restaurantes ótimos, mas com preços que são dignos dos que existem no Rio de Janeiro. O mesmo pode-se dizer para a estadia e os passeios locais.
A volta, mais 1500 Km pela frente, a despeito do cansaço acumulado, pareceu-nos mais tranquila. Certamente porque já sabíamos o que teríamos pela frente. Dessa vez, sem surpresas com engarrafamentos e motoqueiros na estrada. Simplesmente viemos. Além disso, mudamos de parada noturna. Ao invés de Caratinga, fizemos nosso pernoite em Governador Valadares. Não sentiremos qualquer saudade do hotel nesta última cidade.
No entanto, tivemos a sorte de nos deparar em Governador Valadares com um festival de Jazz e Blues. Encaramos um Blues Etílicos de graça, nada mal.
Voltando à pergunta inicial: foi cansativo e tenso? Muito, mas realmente valeu cada quilômetro percorrido. Andar pelo Brasil profundo, conhecendo sua gente, a visão das casinhas solitárias na estrada, paisagens inesquecíveis, modifica qualquer viajante. Daí não sermos turistas, mas viajantes. Viajamos na coisa mesmo. Embarcamos na vida dos outros (sem, contudo, nos entrometermos nelas! rs).
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Expedição Chapada Diamantina (ou do Rio de Janeiro à Lençóis na Bahia): dicas, custos, perrengues e aprendizados Há muito tempo admirávamos aquelas imagens incríveis da Chapada Diamantina: suas cachoeiras, suas estradas, suas cidadezinhas e, principalmente, aquelas imensas formações rochosas que retratam singularmente a região.