Momotarō, o herói mítico japonês que é uma versão de Moisés
Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga
Conforme conta a lenda, Momotarō, um dos heróis mais referendados e invocados do Japão, foi encontrado por um casal de velhos dentro de um pêssego gigante que veio flutuando em um rio, o que faz dele a versão nipônica de Moisés, o profeta mais importante do judaísmo, com várias particularidades culturais, logicamente.
A lenda de Momotarō é comumente contada da seguinte forma:
Era uma vez um velho e uma velha sem filhos em uma pequena aldeia no Japão. O velho ia todos os dias para as montanhas para cortar lenha, enquanto sua esposa ia ao rio para lavar roupas. Um dia, enquanto a velha estava no rio lavando roupas, um grande pêssego veio flutuando rio abaixo. Parecia tão delicioso que ela decidiu levar para casa para que ela e o marido o comessem. Quando o velho voltou para casa, a velha cortou o pêssego e, para sua surpresa, havia um menino dentro. A criança explicou que ele havia sido concedido pelos deuses para ser seu filho. Eles decidiram então chamá-lo de Momotarō, de momo (pêssego) e tarō (o primogênito do casal), ou “Menino Pêssego”.
O velho casal criou Momotarō para ser grande e forte. Quando ele tinha apenas 5 anos, foi capaz de cortar uma grande árvore com apenas uma faca velha. Quando ele amadureceu na adolescência, Momotarō resolveu deixar seus pais para lutar contra um bando de Oni (demônios ou ogros) que saquearam suas terras, procurando-os na ilha distante onde moravam, um lugar chamado Onigashima ou "Ilha do Demônio".
A velha preparou-lhe deliciosos bolinhos de milho, conhecidos como kibi-dango, para sua longa viagem à ilha. No caminho, Momotarō conheceu e fez amizade com um macaco, um cachorro e um faisão falantes que se juntaram a ele na luta em troca de um bolinho de milho.
Ao chegarem à Ilha do Ogro, Momotarō e seus leais companheiros descobriram que o portão de acesso ao forte do Ogro estava trancado. O faisão voou para dentro e pegou uma chave para deixar os outros entrarem. Uma vez lá dentro, eles lutaram contra os ogros malignos. O faisão bicou seus olhos, o cachorro mordeu suas pernas e o macaco pulou em suas costas, arranhando as feras. Finalmente, os ogros clamaram por misericórdia e deram ao forte Momotarō todo o seu tesouro, e ele voltou para sua aldeia triunfante, levando o chefe demônio como cativo. Momotarō e o velho casal viveram felizes para sempre.
Este tipo padrão de conto Momotarō foi definido e popularizado para serem impressos em livros escolares durante o Período Meiji (1868-1912), marcado pela modernização do país que se seguiu à abertura para o Ocidente.
Não se sabe exatamente quem foi o autor do conto popular, mas o romancista, editor, dramaturgo, crítico e contador de histórias pioneiro da literatura infantil japonesa na Era Meiji, Sazanami Iwaya (1870-1933), foi certamente a figura seminal na forma como a história de Momotarō foi moldada e massificada. Iwaya, cujo nome verdadeiro era Iwaya Sueo, não foi apenas o autor dos contos de Momotarō em suas coleções de contos folclóricos comercialmente bem-sucedidos, mas também um dos principais contribuintes para as versões dos livros didáticos.
Embora a versão oral da história possa ter surgido durante o Período Muromachi (1392-1573), não foi sido escrita até o Período Edo (1603-1868), quando começou a ser impressa. As obras mais antigas de Momotarō conhecidas foram datadas da Era Genroku, período da história cultural do Japão de 1688 a 1704, justamente dentro do Período Edo, caracterizado pelo desenvolvimento da cultura popular.
Uma mudança significativa é que na maioria das versões da literatura do Período Edo, Momotarō não nasceu de um pêssego, mas naturalmente para o casal de idosos que comeu o pêssego e recuperou sua juventude. Tais subtipos são classificados como kaishun-gata (tipo "rejuvenescimento"), enquanto os subtipos mais convencionais são denominados kasei-gata (tipo "nascimento da fruta"). Houve também a tendência de Momotarō ser representado cada vez mais jovem, fenômeno esse chamado de "tendência de diminuição da idade" (teinenreika keikō).
Em uma versão escrita em 1753 e reproduzida no livro Japanese Fairy Tales (New York, A. L. Burt Company, 1908), de Yei Evelyn Theodora Kate Ozaki (1870-1932), uma tradutora inglesa do início do século XX de contos japoneses e contos de fadas, casada com o político Yukio Ozaki (1858-1954), membro da Câmara dos Representantes do Japão, uma velha que não teve filhos apanha um pêssego gigante que veio flutuando no riacho e o leva para casa. Quando ela come uma porção do pêssego, inesperadamente recupera sua beleza e juventude. Ao voltar do trabalho, seu marido fica surpreso ao encontrar uma mulher jovem e bonita. Ele não acredita quando ela diz que o pêssego mágico restaurou sua juventude, e ele resolve então comer uma porção do pêssego, no que também recupera a juventude. Um menino nasce depois que eles fazem amor apaixonado naquela noite e é chamado de Momotarō.
Yei Evelyn Theodora Kate Ozaki ao lado de seu marido Yukio Ozaki
A história tem algumas variantes na narração oral, dependendo da região geográfica.
Em uma delas, uma caixa vermelha e branca é vista flutuando no rio, e quando a caixa vermelha é escolhida para ser recuperada, Momotarō é encontrado dentro, o que remete ainda mais ao cesto de junco em que Moisés veio flutuando. As caixas ainda podem ser vermelha ou preta, e dentro de uma delas pode haver um pêssego. Esses tipos são frequentemente vistos nas partes do norte do Japão, nas regiões de Tōhoku e Hokuriku.
Ou Momotarō pode exibir a característica de protagonista preguiçoso, o que o aproximaria mais do “anti-herói Macunaíma”, paradigma do homem brasileiro, amálgama de Mário de Andrade (1893-1945) de uma imensa galeria de seres fantásticos. Esses subtipos foram coletados principalmente nas regiões de Shikoku e Chūgoku.
Existem variações sobre o processo de crescimento do Momotarō ; uma é que ele cresceu para atender a expectativa do velho casal de ser um bom menino. Outra é que ele cresceu para ser uma pessoa forte, mas preguiçosa, que dorme o dia todo e não faz nada. Hoje em dia, Momotarō é um dos personagens mais famosos do Japão, como modelo ideal para crianças pequenas por sua bondade, bravura, poder e cuidado com seus pais.
Crescido, Momotarō parte em sua jornada para derrotar os demônios quando ouve sobre os demônios da Onigashima (ilha dos demônios). Em algumas versões da história, Momotarō se oferece para ajudar as pessoas repelindo os demônios, mas em algumas histórias ele foi forçado pelos habitantes da cidade ou outros a fazer a jornada.
No entanto, independentemente das variantes, o final é sempre o mesmo. Todas as histórias descrevem Momotarō derrotando os oni e vivendo feliz para sempre com o velho casal. É o enredo típico do bem triunfando sobre o mal, um dos temas mais comuns na mitologia de todo o mundo, bem como na do folclore asiático.
Uma estátua de Momotarō está bem em frente à estação de Okayama.
Momotarō está fortemente associado a cidade de Okayama (na região Chūgoku, a ilha principal de Honshu, sudoeste do Japão), mas cabe frisar que essa associação só ocorreu na era moderna. A publicação de um livro de Nanba Kinnosuke intitulado Momotarō no Shijitsu (1930), por exemplo, ajudou a noção das origens de Momotarō em Okayama a ganhar maior familiaridade.
A ilha de Megijima (localizada no Mar Interior de Seto, ao norte da cidade de Takamatsu, parte da Prefeitura de Kagawa), foi associada à mítica ilha Onigashima, a "Ilha dos Ogros", devido às suas vastas cavernas artificiais. As cavernas no topo do Washigamine Summit seriam o lar dos ogros da lenda, e por isso mesmo se tornaram um ponto turístico popular.
A ilha de Megijima vista de Takamatsu
Mas o santuário (jinja) dedicado a Momotarō fica a 286 km de Megijima, ao norte da cidade de Inuyama, na província de Aichi, perto de Nagoya. É nesse Santuário a leste do Parque Momotarō que os pais vêm rezar pela boa saúde de seus filhos, especialmente durante as festas tradicionais anuais dedicadas às crianças: hina matsuri em 3 de março, kodomo no hi em 5 de maio e shichi-go-san em 15 de novembro. Dentro do recinto do santuário há também um museu inteiramente dedicado à lenda de Momotarō . Este salão de tesouros, que foi destruído por um incêndio em 1996, exibe documentos e artefatos (o pêssego do qual Momotarō nasceu, uma foto de um bebê demônio, isso mesmo, um pênis de demônio fossilizado, etc.).
Densetsu no momo, o "pêssego original preservado" do qual se diz que Momotarō nasceu
Foto da múmia da criança-demônio no Santuário Momotarō
Kanabō, ou pênis de demônio fossilizado.
Segundo o Kojiki ("Crônica de fatos antigos", uma coleção de mitos sobre a origem das ilhas que formam o Japão e os deuses do xintoísmo), compilado pelo historiador Hieda no Are do nobre, burocrata e cronista Ō no Yasumaro, por ordem da Imperatriz Genmei (661 –721, o quadragésimo terceiro imperador do Japão e a quarta mulher a ocupar essa posição, de 707 a 715) e publicado em 713), Izanagi, fugindo do mundo dos mortos, teria escapado das bruxas Shikome jogando três pêssegos nelas que as fizeram perder seus poderes. A divindade Ōkamuzumi no Mikoto seria a reencarnação desses pêssegos dotados do poder sobrenatural de espantar demônios. Depois de ter exterminado todos os demônios do Japão central, ela teria se retirado para o Monte Momo na margem esquerda do rio Kiso em Inuyama.
Momotarō tem sido a figura de proa de muitos desenhos infantis, histórias folclóricas e o personagem indiscutível da propaganda de guerra do Japão. Originalmente um conto lúdico para crianças, Momotarō tornou-se uma doutrina ligada à propaganda da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A propaganda imperial permaneceu fiel à história original, usando vários elementos da história para recriar um sentimento de orgulho nacional.
Momotarō : Sacred Sailors (Momotarō : Marinheiros Sagrados), nada menos do que o primeiro filme de animação japonês, foi feito justamente para apoiar os esforços desesperados de guerra, isso em 1945, já, portanto, em seus estertores.
Embora as forças de ocupação tenham ordenado a destruição do filme após a Segunda Guerra Mundial, uma cópia de alguma forma sobreviveu e foi restaurada, tendo sido lançada em meados de 2017 pela Funimation em Blu-ray e DVD nos Estados Unidos.
Durante décadas, os historiadores acreditaram que o filme estava perdido – quaisquer impressões que sobrevivessem ao bombardeio de Tóquio teriam de ser destruídas como propaganda militarista pelas forças aliadas. Mas o filme de alguma forma sobreviveu. A restauração começou no final de 2015, para marcar o 120º aniversário do Shochiku Studio e o 70º aniversário do fim da guerra.
Você pode assistir Momotarō : Sacred Sailors com legendas em inglês no YouTube:
O filme de 74 minutos de Mitsuyo Seo (1911-2010), animador, roteirista e diretor de filmes de animação que desempenhou um papel central no desenvolvimento do anime japonês, é notável de várias maneiras, especialmente por suas imagens estereotipadas de caucasianos, retratados com narizes enormes, olhos grandes, corpos flácidos e chifres de demônio, o contraponto das representações racistas dos japoneses nos desenhos animados americanos de guerra como Bugs Bunny Nips the Nips (1944), em que o inimigo japonês é retratado como um estereótipo racial com pele amarelo-cromo, dentes salientes e olhos oblíquos.
Durante a guerra, os animadores japoneses, assim como seus inimigos americanos, fizeram filmes de treinamento militar e curtas de propaganda que eram exibidos nos cinemas. Seo já havia feito Momotaro's Sea Eagles (1942), um vídeo de 37 minutos mostrando um exército de animais atacando Pearl Harbor, quando o Ministério da Marinha encomendou Sacred Sailors.
Outro elemento da história de Momotarō usado para recriar um sentimento de orgulho nacional é a comida. No Momotarō do já referido Sazanami Iwaya, uma releitura precisa do conto original, há uma indicação clara de como a comida age como um unificador ao longo da história. A referência mais aparente à comida em Momotarō está no próprio nome do menino. Momotarō, o “Menino Pêssego”, pode ser facilmente interpretado como um símbolo de sustento e longevidade. Toda a noção de um pêssego maduro descendo o rio até as mãos de uma pobre senhora fortalece a relação dos pêssegos com a longevidade. De certa forma, sugere a juventude e a continuidade da vida.
Além disso, Momotarō chega de uma terra distante e suas origens são propositalmente vagas por várias razões. Uma das razões é que isso ajuda o público a se identificar com o próprio Momotarō . Em vez de pertencer a um determinado povo ou localidade, Momotarō é apresentado ao público através da ambiguidade de sua origem. Em essência, como Momotarō não pertence a ninguém, ele pertence a todos. Essa ideia ressoou, por exemplo, muito fortemente nas vítimas da Síndrome ou Doença de Minamata, que buscavam justiça pelas atrocidades a que foram submetidas (Nota: A Doença de Minamata foi o envenenamento de centenas de pessoas e animais por mercúrio em Minamata, cidade na costa ocidental da ilha de Kyushu, na província de Kumamoto, provocado pela Corporação Chisso, uma companhia hidroelétrica que produzia fertilizantes químicos e que desde 1930 despejava dejetos contendo Mercúrio na Baía de Minamata, mas cujos primeiros sintomas só se manifestaram em 1956).
Assista no YouTube o documentário Minamata: The Victims and Their World (1971), do premiado diretor Noriaki Tsuchimoto (1928-2008) que descreve os dramáticos casos de contaminação por mercúrio que afetou centenas de famílias de pescadores na cidade de Minamata:
This award-winning documentary by director Noriaki Tsuchimoto describes one of the first and most dramatic cases of mercury contamination, a
Como Momotarō , o povo de Minamata se uniu contra a companhia exploradora que devastou sua terra. Usando Momotarō como âncora unificadora, eles formaram um grande grupo que protestou nas ruas de Tóquio e foi a Osaka para combater os capitalistas gananciosos e inescrupulosos. Seus esforços, pensamentos e princípios foram todos reunidos para alcançar um bem maior, com a imagem pública de Momotarō mantendo-os unidos. Assim, Momotarō unificou essas pessoas sob um senso de resistência. As pessoas lutavam pelos seus direitos à vida, à saúde e ao bem-estar.
Um ponto central comum com o mito de Moisés e com muitos outros mitos, é a ideia da luta entre o bem e o mal. Momotarō e seus aliados amigos animais derrotaram os malvados oni. Essa ideia de bem versus mal não era apenas central para a propaganda em si, mas também para permitir que o povo do Japão se associasse a Momotarō, para que a história ficasse “open-source”, ou seja, sujeita à interpretação do público. Isso ajudou a facilitar a associação, porque tudo o que é necessário é uma luta do bem contra o mal. Momotarō transcendeu sua caracterização literal, o que significa que poderia ser qualquer um, de qualquer lugar.
Na Segunda Guerra, a propaganda do governo imperial pintou os japoneses como os mocinhos angelicais a lutar contra o Ocidente demoníaco em seu mal, e Momotarō permaneceu como um símbolo de bem e de esperança, a unidade unificadora diante de uma força opressora, tal como foi Moisés para os judeus na fuga do cativeiro no Egito. Momotarō era o modelo a ser imitado, o de um militar comandante corajoso e forte, disposto ao sacrifício, que exige respeito e obediência. De certa forma, isso sugere que a unidade só pode ser alcançada diante de um mal maior, na tentativa de alcançar o bem maior.
Em última análise, dificilmente alguém poderia argumentar que Momotarō não é para o povo japonês o que Moisés é para os judeus.
Os heróis míticos em todos os tempos raramente nascem privilegiados, vide o próprio Jesus, e comumente ascendem da insignificância e obscuridade ao status de salvadores. O mesmo com Moisés, cuja história, narrada no Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), começa quando o faraó se sente ameaçado pela crescente população hebraica no Egito e ordena que todos os bebês hebreus do sexo masculino sejam mortos (Êxodo 1:16-22). A mãe de Moisés esconde seu filho recém-nascido por três meses e então elabora um plano arriscado, mas calculado: ela o deixa à deriva no Nilo em uma pequena cesta feita de junco, impermeabilizada com betume e piche (2:1-3). A irmã mais velha de Moisés, Miriam, observa enquanto a cesta flutua até onde a filha do Faraó se banha. Deus usa essas circunstâncias para colocar Moisés sob a proteção do governante do Egito (2:4-10). Esses detalhes ficam subentendidos na lenda de Momotarō , que aparece flutuando dentro de um pêssego gigante.
A literatura antiga fora da Bíblia atesta várias histórias em que uma criança, pressentida como uma ameaça por um inimigo, é abandonada e depois poupada por intervenção divina ou circunstâncias sobrenaturais. Dezenas de histórias como esta podem ser encontradas na literatura da antiga Mesopotâmia, Canaã, Grécia, Egito, Roma e Índia.
A obra mesopotâmica conhecida como a Lenda do Nascimento de Sargão oferece os paralelos mais marcantes com a história bíblica. Ele relata a história do nascimento de Sargão da Acádia, também conhecido como Sargão, o Grande (c. 2300 a.C.-2215 a.C.), um rei acádio célebre por sua conquista das cidades-estados sumérias nos séculos XXIV e XXIII a.C., fundador da dinastia acadiana Sargão e que reinou por 56 anos, de 2270 a.C. a 2215 a.C., séculos antes de Moisés.
O menino nasce em grande perigo: sua mãe é uma alta sacerdotisa e ele é ilegítimo. Consequentemente, sua mãe o deixa à deriva em um rio em uma cesta de junco. O menino é resgatado e criado por um jardineiro chamado Akki na cidade de Kish. Ele se torna um humilde jardineiro a serviço de Akki até que a deusa Ishtar se interessa por ele, colocando-o no caminho da realeza.
O registro do lendário relato de seu nascimento consta de quatro tabuinhas fragmentárias, três do período neo-assírio (934-605 a.C.) e uma do período neobabilônico (626-539 a.C.). Durante o período neo-assírio, um rei assírio adotou o nome de Sargão II e provavelmente ordenou que as lendas fossem escritas sobre seu homônimo (722-705 a.C.). Ao fazer isso, ele teria se ligado ao antigo herói e se glorificado como uma figura “revivida de Sargão”. Isso sugeriria que a lenda do nascimento foi composta para fins de propaganda bem depois da história bíblica de Moisés, ou seja, a fonte original não seria a do mito assírio, mas a do próprio mito judaico.
A lenda do nascimento de Sargão, indica, de qualquer forma, que o tema da criança abandonada que surge de origens mundanas para depois ganhar o favor do destino ou do divino, sempre foi um recurso a que apelavam os antigos para cooptar corações e mentes, como o é até hoje, já que alguém que é alçado da pobreza à riqueza, do ocaso à glória, ajuda o público a se identificar com a figura central e almejar repetir seus feitos.
Embora haja discrepâncias entre as histórias de Moisés e Momotarō, a trajetória heroica é a mesma. Enquanto Moisés encontra favor e proteção na casa do Faraó, uma figura quase divina para os egípcios, Momatarō é acolhido por um simples e pobre casal de velhos, mas da mesma forma sua vida toma um rumo surpreendente. Moisés mata um egípcio para defender um judeu e acaba deixando o reino do Egito temendo que o Faraó o mate. No deserto de Midiã, Yahweh aparece a Moisés, agora um obscuro pastor “lento de boca e de língua” (4:10), e lhe diz para agir como Seu porta-voz diante de Faraó e liderar Seu povo para fora do Egito. Momotarō , por sua vez, é instado a liquidar os demônios que oprimiam e massacravam o povo e deixa a casa de seus pais adotivos para combater os oni na ilha em que estes habitavam.
Com Momotarō, a jornada termina com a liquidação dos oni, mas com Moisés prossegue com revelações acerca de ofícios e práticas sacerdotais (Levítico) e com a condição do povo de Israel pelo deserto em direção à Terra Prometida (Números). Promulgador da Lei Divina (Êxodo 20; 34, Deuteronômio 5; 31:9), Moisés é também aquele que instituiu o sacerdócio (Ex 30, 31; Dt 18; 21:5), o qual era restrito à sua tribo de origem (Ex. 28, 30:30; Números 8; Dt 18). Profeta por excelência, nunca teria surgido alguém igual em Israel (Dt 34:10), constituindo-se no mediador da revelação plena por ter visto a Deus face a face. A sua saga épica se encerra com sua morte (Dt 34).
Ambos, portanto, são figuras salvas da morte certa e promovidas para que possam trazer a todos a salvação. É o arquétipo do herói escolhido, aquele que é promovido apenas para o benefício dos outros. As motivações e os valores podem ser diferentes, mas em retrospecto e em essência, em sua tessitura narrativa, o fim é o mesmo.