Periscópio 1 - por Jean Marcos Torres de Oliveira e Wellington Diogo Leite Rocha
GUIMARÃES ROSA, PETER LUND E O HOMEM DA LAGOA SANTA
Na novela “O recado do morro”, componente do volume Corpo de baile (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967) temos um diálogo entre as ordens do real e do mítico que, fundidos, revelam um sertão pensado sob a perspectiva de espaço originado do Ente sobrenatural, sobretudo o morro, que transmite o recado por intermédio de velhos, crianças e loucos, a Pedro Orósio, filho da rocha, etimologicamente, segundo demonstra Ana Maria Machado no seu trabalho intitulado Recado do nome (1991), e lhe dá forças para que possa defender-se dos traidores no desfecho da novela, segundo a primeira perspectiva; e sob uma perspectiva científica de componentes do espaço sertanejo registrados pelos viajantes europeus que nomeavam e tomavam nota de plantas, rochas, cavernas, animais e mesmo dos aspectos paleontológicos de Minas Gerais, como buscou fazer, como já vimos, o dinamarquês Peter Lund, cujos estudos são referências quando se trata desses componentes do espaço brasileiro, sobretudo do interior mineiro.
A primeira dimensão é bastante estudada pela crítica, a exemplo dos trabalhos de Ana Maria Machado (1991) e Ana Cristina Alves (2013), que explicam que, embora a viagem em si seja realizada em espaços reais, há, nos nomes dos proprietários das fazendas que os personagens visitam, referências aos deuses do Olimpo: Apolinário, Nhá Selena, Marciano, Nhô Hermes, Jove, Dona Vininha e Juca Saturnino.
Pedro Orósio deve guiar um estrangeiro, seo Alquiste que deseja estudar o sertão de Minas, frei Sinfrão e seo Jujuca do Açude. O segundo nos remete aos próprios viajantes que serviram de base para a construção espacial que Guimarães Rosa faz do sertão. Ao tomar nota durante o trajeto e registrar a ambientação mineira, podemos sugerir com base em nossa leitura que há uma aproximação entre seo Alquiste e os viajantes naturalistas do século XIX. “O louraça, seo Alquiste, parecia querer remedir cada palmo de lugar, ver apalpado as grutas, os sumidouros, as plantas do caatingal e do mato” (ROSA, 1956, v. 2, p. 388). Com eles também o companheiro de Pedro, Ivo. O trajeto é repleto de descrições espaciais aos moldes da poética do escritor mineiro, que transfigura o real e eleva o sertão a nível universal. Se a realidade é composta dos elementos de interesse da ciência, motivando as descrições pelos viajantes do século XIX de tais elementos, é logo transcendida e encontra no Ente a sua origem. O Morro da Garça, “solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide” (ROSA, 1956, v. 2, p. 398), supostamente transmite o recado de perigo a Pedro Orósio, que, assim como os componentes do espaço, dele faz parte e encontra na terra sua origem.
Lund, em carta enviada ao secretário perpétuo do Instituto Histórico, cônego Januário da Cunha Barbosa, datada de 1842, relata a descoberta de ossos de ancestrais do homem contemporâneo:
Depois de seis anos de baldadas pesquisas, tive a fortuna de encontrar com os primeiros restos de indivíduos da espécie humana, debaixo das circunstancias que, ao menos, admitiam a possibilidade de uma solução contrária a questão [de não existência do homem junto aos grandes animais pré-históricos]. (MATTOS, 1930, p. 33)
Achei estes restos humanos em uma caverna, que continha, misturado com eles, ossos de vários animais de espécies decididamente extintas (Platyonix Bucklandii, Chlamydotherium, Humboldtii, C. majus, Dasypus sulcatus, Hydrocherus sulcidens). (MATTOS, 1930, p. 33)
O que chama a atenção de Lund é o tamanho do crânio desse homem antigo. O tamanho remete a um homem de estatura bastante elevada e o formato da testa faz com que Lund aponte um homem de características inferiores ao do homem pré-histórico europeu, o que tornaria seus decendentes igualmente inferiores.
A referência a Lund é visível na obra de Guimarães Rosa, ao verificarmos o próprio corpus de sua obra, “O recado no morro”, em que as terras percorridas por Pedro e os caminhantes são chamadas terras de Lund, “Lundianas” ou “Lundlândias” (ROSA, 1956, v. 2 p. 395). Guimarães Rosa ainda se utiliza de termos técnicos do próprio Lund para descrever os animais que um dia existiram nas cavernas descritas:
E nas grutas se achavam ossadas, passadas de velhice, de bichos sem estatura de regra, assombração dêles — o megatério, o tigre-de-dente-de-sabre, a protopantera, a monstra hiena espélea, o páleo-cão, o lobo espéleo, o urso-das-cavernas —, e homenzarros, duns que não há mais. (ROSA, 1956, v. 2, p. 390)
As descrições de Lund acerca da protopantera (Felis protopanther, no original), por exemplo, podem ser encontradas, pela primeira vez, nos Annales des sciences naturelles, segunda série, tomo XII, de 1839: “Felis protopanther: aff. concolori; aff. macrocerae; exilis”. (LUND, 1839, p. 207)
Guimarães Rosa, como se pode notar, além de referenciar as espécies com a nomenclatura que Lund descreveu, ainda remete aos “homenzarros” que também habitavam as cavernas mineiras. Como dissemos, Lund noticiou a descoberta de supostos crânios humanos durante suas expedições no Brasil, mais especificamente, em Minas Gerais. Ainda na carta ao cônego, Lund faz uma rápida interpretação da provável mentalidade do homem que outrora habitou as cavernas de Minas, com base nos estudos da época que argumentavam sobre uma inteligência baseada nas especificações dos crânios dos seres humanos:
Sendo, como é, suficientemente provado que o desenvolvimento da inteligência está em relação direta com o desenvolvimento do cérebro, fica sempre a inspeção do crânio um dos meios mais seguros, sendo feita com a necessária discrição, para avaliar o grau que deve ocupar o indivíduo examinado, e consequentemente a raça a que ele pertence na escala progressiva dos entes intelectuais. Aplicando este critério aos crânios em que questão, há de se sair a sentença muito em desfavor das faculdades intelectuais dos indivíduos de quem derivam: nem podemos esperar grandes progressos na indústria e nas artes de povos, cuja organização cerebral oferece um substrato tão mesquinho para a sede da inteligência. (MATTOS, 1930, p. 44)
Ao considerarmos uma possível leitura de Lund por parte de Guimarães Rosa, há na sua personagem Pedro Orósio, um ser que, enquanto descendente do homem descrito, é também contestação da leitura intelectual feita por Lund com base nos conceitos da época. Pedro, homem de enorme estatura, e que se sente inferiorizado por não compreender os diálogos entre os viajantes, ainda é capaz de decifrar o recado que supostamente é enviado pelo morro, de quem origina, seu Ente criador. O recado, em suas diversas versões, não é compreendido em um primeiro momento. Antes é tido como fruto do delírio de seu primeiro transmissor, Malaquias. Cada transmissor transforma a mensagem até a versão final musicalizada por Laudelim. Só então, Pedro Orósio é capaz de safar-se da morte iminente.
Pedro, descrito pelo narrador como de “talhe de gigante”, guarda certas semelhanças com o homem descrito por Lund, no que diz respeito ao tamanho. Suas próprias capacidades intelectuais são postas em cheque pelo personagem, que pouco entendia da conversa dos patrões, sentindo-se inferiorizado no que diz respeito ao intelecto:
De certo, segredos ganhavam, as pessoas estudadas; não eram para o uso de um lavrador como êle, só com sua saúde para trabalhar e suar, e a proteção de Deus em tudo. Um enxadeiro, sol a sol debruçado para a terra do chão, de orvalho a sereno, e puxando tôda fôrça de seu corpo, como é que há de saber pensar continuado? (ROSA, 1956, v. 2, p. 390)
Embora Pedro não compreenda a conversa dos patrões, que utilizam da linguagem científica para descrever aquelas terras, ele guarda, em si, o empirismo próprio do homem sertanejo, homem da terra:
Êle sabia — para isso qualquer um tinha alcance — que Cordisburgo era o lugar mais formoso, devido ao ar e ao céu, e pelo arranjo que Deus caprichara em seus morros e suas vargens; por isso mesmo, lá, de primeiro, se chamara Vista-Alegre. E, mais do que tudo, a Gruta do Maquiné — tão inesperada de grande, com seus sete salões encobertos, diversos, seus enfeites de tantas côres e tantos formatos de sonho, rebrilhando risos na luz — ali dentro a gente se esquecia numa admiração esquisita, mais forte que o juízo de cada um, com mais glória resplandecente do que uma festa, do que uma igreja. (ROSA, 1956, v. 2, p. 394)
Pê-Boi sabe que aquelas são belas terras, e essa percepção está contida nas experiências do enxadeiro que visita e revisita as várias localidades do sertão, nascido e crescido naqueles campos. As formas e detalhes são, para ele, criações divinas de um Deus que “caprichou” na construção daquele espaço. Ele não sabe o que a gruta do Maquiné tinha de tão especial que desperte o interesse daqueles homens, mas sabe que ela é grande e colorida, que causa uma admiração esquisita, toda parecendo uma igreja. O narrador deixa transparecer o pensamento do personagem e sua percepção do mundo, isto é, a captação sensorial de cada elemento do espaço.
Mesmo que Pedro sinta que não pode ser um igual aos outros no que tange ao aspecto intelectual, o próprio espaço trata de se comunicar com Pedro. É pela transmissão do recado que o morro tenta impedir que Pedro seja assassinado. Ele, enquanto ser que parece derivar diretamente do morro, carrega consigo as marcas dos antepassados. Sua ligação com a terra parece justificar a necessidade de o espaço salvar algo que tem ligação direta consigo. O gigante andava, inclusive, descalço, o que demonstra uma ligação constante com o ambiente. O desfecho em que Pedro compreende o recado demonstra uma preocupação do autor em contrariar, de certa forma, o pensamento de Lund quanto à inferioridade do homem do sertão. É pela musicalização do recado que o enxadeiro se salva da morte. Há, na obra de Guimarães Rosa, uma atenção ao poético, que é elevado, transformando a vida das pessoas.
Mircea Eliade (1972), ao tratar da condição da memória como conhecimento do começo, logo do mito da origem, faz distinção entre a memória (mneme) e a recordação (anamnesis). Aquela é a fonte de retorno aos antigos princípios que ganham função de situar-se no presente. Para os antigos, a memória se faz superior, pois o recordar implica um “esquecimento”. Basta lembrar-nos dos antigos rapsodos capazes de recitar as epopeias integralmente utilizando alguns recursos musicais para tal feito. Guimarães Rosa encontra na arte a organização das faculdades poéticas da linguagem. A transfiguração desta linguagem em forma musical é capaz de capacitar o homem o acesso ao pleno conhecimento e o faz dono de seu próprio destino.
A música, então, encontra espaço na novela à medida que é capaz de dar a Pedro a função da memorização e, portanto, uma compreensão do passado em função da descoberta do que se situa no presente. Este conhecimento, como afirma Mircea Eliade, é capaz de libertar a personagem dos “condicionamentos kármicos; em outros termos, ele se converte no senhor de seu destino.” (ELIADE, 1972, p. 84). As referências cristãs da mensagem antes são a necessidade de retomar o mito em função do entendimento das condições presentes a que a mensagem se refere. Eliade expõe a necessidade de se voltar ao mito da origem em função dos efeitos ritualísticos que dão o caráter renovador às recordações da situação primordial.
Se, para Lund, as consequências do homem mineiro descendente de um homem com crânio “inferior” ao do ancestral europeu são as formas menores de arte, Guimarães Rosa, por outro lado, encontra em Pedro Orósio o homem de porte similar ao encontrado na Lagoa Santa, o filho da terra capaz da perfeita memorização da mensagem musicalizada que lhe dá livramento da morte quase certa.
Vimos que a composição do espaço em “O recado do morro” é decorrência direta dos registros científicos realizados pelos viajantes, sobretudo do século XIX, em suas expedições realizadas pelo sertão mineiro. Contudo, em Guimarães Rosa, há uma transcendência dessa ordem real para uma ordem mítica que encontra neste real a consequência direta da origem mítica do espaço. Pedro é parte integrante desse espaço mítico e com base na leitura do ambiente do qual faz parte, consegue compreender o recado em sua última forma, musicalizada.
Mircea Eliade nos explica como se dá essa interação entre o “Mundo” transfigurado e o homem. Quando assumimos a posição mítica do espaço sertanejo, encontramos mais que um ambiente fechado em si mesmo, verifica-se uma universalização dos valores sertanejos, que antes encontram nos constituintes universais a sua construção dos caracteres humanos. O sertão-mundo é a representação do cosmos que, nas palavras de Eliade, “não é massa opaca de objetos arbitrariamente reunidos, mas um Cosmo vivente, articulado e significativo. Em última análise, O Mundo se revela enquanto linguagem. Ele fala ao homem através de seu próprio modo de ser, de suas estruturas e de seus ritmos.” (ELIADE, 1972, p. 125). O Morro, sob uma perspectiva mítica, codifica a sua mensagem e a transmite por intermédio dos seus próprios constituintes, das “suas estruturas”. Cada transmissor é homem/parte do sertão. O objeto cósmico, como diz Eliade, tem a sua própria “história”, o que significa que ele é capaz de “falar” ao homem. A capacidade de poder falar de si, de sua origem em primeira instância, o torna objeto significativo. Pedro é homem constituinte do sertão. Ele anda descalço, como já foi referido, mantém contato com a terra, é dela filho, consequência direta da influência dos Entes sobrenaturais, enquanto ser real de origem mítica. O Morro percebe a ameaça não só ao homem, mas a um componente do seu espaço. “Ele faz parte do mesmo ‘Mundo’ que o homem”. (ELIADE, 1972, p. 125)
Guimarães Rosa, ao utilizar dos registros de outrora do espaço sertanejo, articula o real proveniente de uma origem mítica. Embora de ordem distinta, o real e o mítico se articulam em função da construção de um espaço mítico que transforma e universaliza o espaço da sua narrativa, configurando o “sertão-mundo”. A sua personagem, Pedro Orósio, que supostamente descende do homem registrado pelos viajantes nas expedições no sertão, é também parte do sertão, é filho e, embora seja resultado direto da evolução dos homens encontrados nas cavernas, possui a capacidade de compreensão do “código” transmitido pelo Morro. Este não é apenas massa destituída de significação, é ser vivente que se revela enquanto linguagem. O recado é transmitido e perpassa por diversos níveis de estruturação, até ser decodificado por Pedro na forma musical, forma artística, que é capaz de constituir a linguagem poética que salva Pedro Orósio do cruel destino que haveria de ter se salvo não fosse pela compreensão do recado do Morro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, Ana Cristina Tannús. A viagem em “O recado do morro”: construção de espaços e identidades. Revista Estação Literária, Londrina, v. 10B, p. 20-32, jan. 2013.
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Trad. Pola Civelli. São Paulo: Perspectiva, 1972. 183 p.
LUND, Peter. Nouvelles observations sur la faune fossile du Brésil [Novas observações sobre a fauna fóssil do Brasil]. Annales des sciences naturelles, seconde série, Paris, v. 12, p. 205-209, 1839.
MACHADO, Ana Maria. Recado do nome: leitura de Guimarães Rosa à luz do nome de seus personagens. São Paulo: Martins Fontes, 1991. 146 p.
MATOS, Anibal. Coletânea Peter Wilhelm Lund. Belo Horizonte: Apolo, 1930. 268 p.
ROSA, João Guimarães. Corpo de Baile: sete novelas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956. 2 v. 824 p.
* Jean Torres: Mestrando em Letras (Estudos Literários) do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal do Pará (UFPA) e bolsista CAPES. E-mail: [email protected]
** Wellington Diogo Leite Rocha: Mestrando em Letras (Estudos Literários) do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal do Pará (UFPA) e bolsista de Mestrado do CNPq. E-mail: [email protected]